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O Homem da Máfia (2012)

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O Homem da Máfia“Sobre o que é esse filme?” é uma das muitas perguntas que me faço antes de começar a resenhar algum longa. Nem sempre o texto é construído em cima da resposta que obtenho, muitas das vezes eu nem mesmo obtenho uma resposta e, em outras tantas, sinto que nem vale a pena fazer a pergunta. Enquanto alguns filmes apoiam-se claramente em metáforas ou analogias que devem ser compreendidas para o total aproveitamento da trama, outros tantos, principalmente do gênero ação, “são o que são”, e tentar analisá-los além do que há na superfície constitui atividade tão ou mais inglória do que procurar pelo em ovo. Pessoalmente, tendo a gostar mais de filmes cuja resposta para a pergunta inicial rendem mais do que simples sinopses, mas, nem sempre, ter um roteiro “complexo” torna um filme bom ou agradável de assistir. Muitas vezes, inclusive, prefiro ver um monte de efeitos especiais e explosões do que diálogos intermináveis sobre coisas que exigem mais do que o espectador pode ou deve dar ao relacionar-se com o filme.

Quando perguntei-me sobre o que tratava-se O Homem da Máfia, a primeira resposta que obtive, ainda que um tanto quanto óbvia, é a de que o filme é uma crítica ao estado atual do liberalismo econômico e político dos EUA, onde cada ator é a personificação de um dos problemas que o autor do livro que originou o filme, George V, Higgins, identificou nesse cenário. Falarei mais sobre isso a baixo. Todo caso, independente dessa leitura ser ou não a mais apropriada à trama (eu faço o meu melhor rs) e das analogias serem ou não bem trabalhadas pelo autor/diretor, resta ainda uma pergunta à ser feita, essa sim fundamental quando o propósito é analisar um filme e comunicar sua opinião para terceiros: “Eu gostei e recomendo o que vi?”

O que vi, antes que eu pudesse formular qualquer tipo de opinião, é que os marginais Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn) são contratados por um terceiro vigarista para roubar uma banca de jogos clandestinos. Acontece que o sujeito que comanda a jogatina, Markie (Ray Liotta), já havia roubado o local anteriormente, logo um novo roubo certamente seria creditado a ele como outra tentativa de golpe. Frankie e Russell realizam o assalto e tratam de fugir, porém a tranquilidade que o dinheiro lhes garantiria dá lugar ao pânico quando o assassino Jackie Cogan (Brad Pitt) é contratado pela máfia, que protege os jogos, para matá-los.

O Homem da Máfia - Cena 3O Homem da Máfia é um filme de crime que começa com um discurso político. O diretor Andrew Dominik, que já trabalhara com o Pitt no cansativo O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, mostra-nos Frankie caminhando por um cenário desolado enquanto nos faz ouvir um discurso sobre mudança e esperança proferido pelo então Senador Obama. “Os tempos são difícieis”, ele diz, “e é necessário que os cidadãos americanos permaneçam juntos para vencê-los”. A diferença entre o discurso e prática ficará clara logo em seguida, quando Frankie reúne-se com alguém não para ajudar o próximo, mas sim para garantir sua própria sobrevivência com um roubo. O olhar cínico e pessimista do filme sobre o liberalismo é desenvolvido então sob a forma de personagens que trazem em si fraquezas de caráter à partir das quais podemos compreender os apontamentos do autor sobre as mazelas norte americanas:

  • há o individualismo cego, pouco confiável e inocente de Frankie e seu comparsa;
  • a cobiça do vigarista que os contrata após identificar uma falha no sistema que pode render-lhes alguma grana (que pode ser associado, por exemplo, a ganância de Wall Street vista em flmes como esse aqui);
  • o vigilantismo impensado e irresponsável que julga arbitrariamente e dá cabo de inocentes com o propósito de fazer a manutenção da política do medo. O personagem do Ray Liotta não cometera o segundo assalto mas, no final das contas, isso não importa. ALGUÉM PRECISA ser morto para que os inimigos da máfia continuem a temê-la. Qualquer semelhança com a política externa imperialista dos EUA não é mera coincidência.
  • a acomodação, falta de profissionalismo e falência de certos setores da sociedade. Contratado para dar cabo dos assaltantes, Mickey (James Gandolfini, cuja imagem estará sempre ligada a máfia devido a seu papel na série Os Sopranos) está mais interessado em prostitutas e encher a cara do que em cumprir seus compromissos.

O Homem da Máfia - Cena 2Enquanto todos esses personagens vão sendo apresentados e, um a um, confrontados com seus destinos dentro do microcosmo criado por Higgins, continuamos ouvindo Obama falar em televisões e rádios espalhados ao longo do filme. Solucionados todos os conflitos da trama, o final traz o personagem do Brad Pitt refletindo em cima do discurso de posse do recém eleito presidente. “Na América, você está por sua conta”, Cogan conclui, e é interessante notar que ele, um pragmático dentro desse mesmo sistema, tenha um de seus grandes momentos na história quando diz que gosta de “matar suavemente”. O sonho americano, podemos presumir disso tudo, hoje nada mais é do que uma mentira sustentada por discursos e por um sistema falho que joga os cidadãos uns contra os outros. Para sustentar seu modo de vida, eles destroem-se mutua e … suavemente. Tchan!

O Homem da Máfia - CenaCom base no que foi dito até aqui, só resta-me tirar o chapéu para o roteiro de O Homem da Máfia. Essas analogias (ou variações delas, não estou reivindicando o monopólio da ‘verdade’) são o ponto forte do filme e procurar compreendê-las é enriquecedor. Vi, no entanto, que o divertimento aqui vem mais do prazer que essas análises podem provocar em quem gosta de fazê-las do que da apreciação pura e simples das cenas. Há dois grandes momentos no longa, à saber o espancamento do Liotta e o acerto de contas entre Cogan e Frankie, mas mesmo essas cenas, apesar dos recursos gráficos, podem frustrar os fãs mais tradicionais de ação devido ao contato que elas tentam manter com a realidade. “Eu gostei e recomendo o que vi?”. Gostei, mas O Homem da Máfia é o típico filme que, apesar de suas muitas qualidades, eu não recomendaria nem assistiria mais de uma vez: entender, não necessariamente, nos faz gostar.

O Homem da Máfia - Cena 4

Cinema Verite (2011)

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Cinema VeriteReality show, esse formato televisivo que muita gente adora odiar mas que, supreendentemente, mais gente ainda adora assistir. Eu? Eu ficava acordado até tarde para acompanhar a primeira edição do No Limite e vi grande parte da primeira edição do Big Brother Brasil. Sim, amigos, eu torci para o Kleber Bambam e sua Maria Eugênia e achei genial aquela mulher gorda sedentária vencer todos os outros candidatos nas provas físicas e, principalmente, naquelas que envolviam degustar guloseimas exóticas. De uns anos pra cá, eu deixei de ver esses programas mas, de forma geral, eu também deixei de assistir televisão. Não que eu tenha me tornado um crítico da “telinha”, mas hoje em dia eu tenho várias outras coisas para fazer com o pouco tempo livre que tenho, de modo que sentar na sofá e ser refém da programação da TV está fora de cogitação. O reality show, enquanto experimento social, é um formato deveras interessante mas, até mesmo pela perda progressiva da confiança no que era exibido, hoje eu prefiro assistir um filme com um bom roteiro que aborde o mesmo tema do que ligar a TV religiosamente dia após dia para ver cenas cuja veracidade são totalmente questionáveis. Fora isso, o Zeca Camargo e o Pedro Bial são insuportáveis.

Cinema Verite, filme dirigido diretamente para a TV pela dupla Shari Springer Berman e Robert Pulcini, conta a história do primeiro reality show de que se tem notícia, o An American Family. Em 1973, a rede americana de televisão PBS levou ao ar um programa onde o foco era mostrar o dia-a-dia dos Louds, uma típica família americana formada pelo casal Bill (Tim Robbins) e Pat Loud (Diane Lane) e seus cinco filhos. Mostrados em sua intimidade através da lente do diretor James Gandolfini (Craig Gilbert), os Louds são apresentados para o público americano como aquela família aparentemente feliz e normal que mora na casa ao lado mas que, entre quatro paredes, são repletos de defeitos e conflitos. A desconstrução em rede nacional de um dos pilares do sonho americano incomodou muita gente e o programa foi muito, MUITO criticado.

Os Louds de Cinema Verite e, a direita, a família no An American Family

Os Louds de Cinema Verite e, a direita, a família no An American Family

As pessoas interessam-se umas pelas vidas das outras, umas mais, outras menos. Hoje em dia, com a popularização das redes sociais, é possível saber (e acaba-se sabendo, mesmo contra nossa vontade) detalhes da intimidade de todo mundo, de modo que podemos perfeitamente formar opiniões sobre os fulanos e siclanos com os quais convivemos. Como as reclamações, indiretas e mensagens de auto-ajuda são o carro chefe desses sites, uma análise rápida poderia diagnosticar que todo mundo é ou está infeliz a maior parte do tempo. Quando James Gandolfini idealizou o An American Family e mostrou-o para os executivos da PBS, ele deu, entre outras coisas (sem maldade, por favor), o ponta pé para escancarar esse tipo de problema cotidiano para um país e para uma época onde o sorriso no rosto e o carro do ano na garagem disfarçavam muitíssimo bem as rachaduras presentes na estrutura familiar invisíveis para que olhava do lado de fora desses lares.

Por mais que Bill e Pat fossem vistos pelos outros como um casal feliz, o casamento deles estava definhando. Bill estava sempre viajando a “negócios” e Pat, uma mulher bonita e inteligente demais para ficar em casa cuidando de 5 filhos enquanto o marido vive suas aventuras, procura forças para pedir o divórcio. As câmeras acompanham momentos tensos desse conflito e ainda reservam espaço para outra revelação que chocaria a comunidade americana majoritariamente conservadora da década de 70: um dos filhos do casal revela sua homossexualidade diante da nação e provoca debates acalorados sobre o tema. “E se ele fosse seu filho?”, foi uma das muitas perguntas que os sub-produtos de An American Family, esses programas que comentam outros programas, fizeram em suas matérias. É amigos, o sôniaabrãonismo não é um fenômeno recente.

Cinema Verite - Cena

Pat é seguida pelas câmeras

Mais do que fazer uma versão cinematográfica de um reality show qualquer, Cinema Verite resgata a história dos Louds em um ótimo filme que coloca a hipocrisia no centro das atenções. Os “problemas” daquela família, apesar de não serem diferentes nem em quantidade nem em teor daqueles de qualquer outra família “normal”, são tratados como verdadeiros pecados capitais por um público que, acostumado com e, de certa forma, endossador das aparências, ficou assustado ao reconhecer nos Louds todos os seus medos e frustrações. O resultado disso foi uma série de ataques moralistas e hipócritas contra os integrantes do programa que, ao meu ver, permanecem extremamente atuais. Critica-se, em nome de uma moral rasa e datada, os comportamentos das pessoas nas redes sociais e nos reality shows porque elas fazem exatamente aquilo que gostaríamos de fazer ou que fazemos mas não deixamos que ninguém fique sabendo. Esse tapa dói na cara hipócrita de todos nós. Com as ótimas atuações do veterano Tim Robbins e da Diane Lane e uma edição que mistura cenas fictícias e cenas retiradas do próprio An American Family, Cinema Verite discute moralismo, hipocrisia e o limite de “realidade” visto nesses programas em agradáveis e adequados 90 minutos. Gostei muito.

Bizarrice ou espelho?

Bizarrice ou espelho?