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Bohemian Rhapsody (2018)

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Bohemian RhapsodyI work hard (he works hard) every day of my life: A última semana foi infernal. Resumidamente, moto e chuva não combinam. Capa de chuva? Embuste! Molhei no caminho de casa para o serviço e, lá e de volta outra vez, molhei mais ainda, totalizando 35km diários de molhança e absolutamente nenhum ânimo para escrever. Hoje, porém, o sol está brilhando e eu estou de folga. Coloquei as roupas para lavar, passei um pano nos móveis, preparei as aulas da semana e agora, obrigações cumpridas, sentei aqui no meu quartinho para escrever a resenha do Bohemian Rhapsody. Antes de falar do filme, no entanto, vou gastar um parágrafo para contar a minha história de amor com o Queen.

And everything I had to know, I heard it on my radio: Conheci o Queen em algum ponto da década de 90. Eu estava ouvindo rádio e alguém ligou e pediu para tocar Bohemian Rhapsody. O radialista, ao vivo, falou que a música era “grande demais” para a programação, deu uma enrolada no cara e tocou I Want to Break Free. Dessa experiência, lembro de 2 coisas: gostei muito do refrão e odiei o solo. Na minha opinião (e que um dia eu seja perdoado por ter pensado assim), a guitarra tava com uma distorção meio brega e cafona. Todo caso, no final de semana seguinte, fui na feira do bairro, comi um pastel com Guaraná Mineiro e comprei um CD do Queen, uma dessas coletâneas que vinham no saquinho plástico e que custavam 3-5 reais. Bons tempos: como tínhamos acesso a um número menor de músicas (hoje, programas de download e aplicativos como o Spotfy dão acesso a milhares de títulos com apenas um clique), acabávamos valorizando mais cada uma das faixas disponíveis, decorando letras e tudo mais. Fiquei apaixonado pelo que ouvi, aprendi o nome dos integrantes da banda, pedi desculpas mentais para o Brian May e, finalmente, ouvi a magnânima Bohemian Rhapsody: passados quase 20 anos da primeira audição, ainda considero aquela parte que vem depois da sessão operística (So you think you can stone me and spit in my eyes?) como um dos momentos mais inspirados do rock ‘n roll de todos os tempos. As músicas do Queen estiveram no meu casamento (Love of my Life, lógico), estão nos vídeos que faço todo fim de ano para os meus alunos (no último, foi We Believe, do projeto recente com o Paul Rodgers) e estão sempre na minha playlist (atualmente, tô com Fat Bottomed Girls e I’m Going Slighty Mad). A Rainha é foda ❤

Bohemian Rhapsody - Cena

Are you ready, hey, are you ready for this?: Daí sai a notícia que fariam um filme sobre o frontman da banda, Freddie Mercury. Surtei total. Qualquer medo de que o trabalho não fizesse justiça a grandiosidade do vocalista e da banda foram deixados de lado quando os primeiros trailers foram divulgados. No que dava para ver ali, todos os integrantes estavam perfeitamente caracterizados e a encenação de episódios antológicos da história da música, como a gravação dos “Galileo’s” da Bohemian Rhapsody e da apresentação da banda no Live Aid, garantiriam nostalgia e momentos para cantar junto. Felizmente, o filme entregou exatamente o que prometeu: uma história relativamente linear, focada na trajetória do Freddie (Rami Malek), mas que dá a devida atenção para o talento do Brian May (Gwilym Lee), para a energia criativa do Roger Taylor (Ben Hardy) e para o pragmatismo e solidez do John Deacon (Joseph Mazzelo).

Love of my life, you’ve hurt me: Dirigido pelo Bryan Singer, Bohemian Rhapsody homenageia o gênio musical, o artista que conseguia conduzir uma plateia como ninguém (Eh ôh, eh ôhhhhh!), mas também há espaço para falar do homem que, apesar de todo o talento e fortuna, teve dificuldade para amar. Amantes não faltaram (certa vez ele disse que os teve mais do que a Elizabeth Taylor, uma mulher que casou 8 vezes rs), mas sua bissexualidade afastaram-no de sua esposa, Mary Austin (Lucy Boynton), e seu estilo de vida orgiástico impediu por muitos anos que ele se aproximasse de seu verdadeiro companheiro, Jim Hutton (Aaron McCusker). A solidão do personagem foi bastante explorada (gostei muito da cena do abajur), mas, numa decisão questionável, o Bryan Singer optou por tratar com parcimônia os últimos dias do cantor, falando pouco e de forma superficial da AIDS, doença que, associada a uma broncopneumonia, vitimou Freddie no dia 24 de novembro de 1991. Este caminho deixa a produção mais leve e pop, tal qual um hit radiofônico do Queen como A Kind of Magic, mas também impede que o material atinja a grandeza de produções mais complexas como Innuendo.

Bohemian Rhapsody - Cena 2

I consider it a chalenge before all the human race and I ain’t gonna lose: Se o drama sobre a vida pessoal do personagem poderia ter sido um pouco mais explorado, não há absolutamente mais nada a reclamar do filme. A caracterização dos personagens, por exemplo, é assombrosa. Não há dúvidas de que o destaque seja mesmo do Rami Malek, que capturou com perfeição o espírito e trejeitos do Freedie, mas, puta que pariu, olhem aquele John Deacon! Tá igual! Sobre a parte musical, celebro a decisão do diretor de revisitar o ambiente de gravação do clipe da I Want to Break Free, escancarar as brigas com empresários e de mostrar o momento que alguns hits (We Will  Rock You e Another One Bites the Dust) foram pensados. Também agrada muito a presença de piadas conhecidas sobre a banda (todas aquelas que envolvem a letra da I’m in Love With my Car) e a recriação quase na íntegra da apresentação do Queen no Live Aid, show que ainda hoje permanece como um das maiores transmissões ao vivo de todos os tempos. Poderíamos ter o David Bowie, a jaqueta amarela e mais algumas músicas, como Stone Cold Crazy? Claro que poderíamos, mas ainda sim o resultado é muito bom.

Bohemian Rhapsody - Cena 3

Why can’t we give love? Give love, give love, give love: Li em redes sociais que houveram registros de pessoas vaiando as cenas de homossexualidade do filme. Quando procurei fontes sobre o ocorrido, no entanto, encontrei apenas um print pouco confiável do Twitter. Registro aqui o que vi: sempre quando o Freddie beijava ou atracava-se com alguém, era notório o burburinho na sala. Num determinado momento (se não me falha a memória, foi quando ele passa a mão no derrière do Jim Hutton), ouvi alguém dizer “tomar no cu com essa viadagem”. Complicado, né? Não digo isso nem pelo fato da homossexualidade do cantor ser pública e notória, mas também pela insistência de algumas pessoas em querer opinar sobre decisões que não lhes dizem respeito. Todo caso, termino este texto relatando outra coisa que vi na sessão, esta sim emocionante: bem no fim do filme, quando a banda está executando a We Are The Champions no Live Aid, vi, nas cadeiras inferiores, uma velhinha levantando e balançando os braços na hora do refrão, prova irrefutável da atemporalidade e grandeza da música do Queen.

Queen é amor, e o amor, este sim, está acima de tudo e de todos.

Bohemian Rhapsody - Cena 4

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Nasce uma Estrela (2018)

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Nasce uma EstrelaDe: Lucian, 23/10/18

Para: Lucian, para relembrar, para nunca esquecer

Este é um texto pessoal, longo e cheio de spoilers. É uma carta pra mim mesmo, que compartilho com você com uma única condição: não julgue 🙂

Ano passado, este blog morreu junto com o Chester Bennington, ex vocalista do Linkin Park. Em minha confusa, trôpega e sincera nota de despedida, eu reuni forças para reconhecer que o meu coração não estava mais aqui. Resumidamente, eu assistia um filme e, no lugar de me divertir e/ou aprender com a história, eu me sentia culpado. Culpado? Sim, caras. Sofri com inúmeros bloqueios criativos oriundos de uma rotina cansativa e estressante. Para vocês terem ideia, eu passei cerca de 3 dias tentando escrever, sem sucesso, a resenha do Homem Aranha – De Volta Ao Lar. Não saiu. Fui ao cinema, revi o filme, voltei para o computador e… nada. A sensação perturbadora de que eu “não tinha mais nada a dizer” cresceu dentro de mim, e foi aí que o Chester se foi. Eu fiquei assustado.

Há, claro, a tristeza e a incredulidade do fã que perde o ídolo. Ainda acho complicado acreditar que nunca mais ouvirei a voz do vocalista em uma música nova. O mais difícil, porém, foi enxergar-me na tragédia daquele ser humano, um homem que gritava (e como gritava!) com seus demônios (no caso, coisas tenebrosas envolvendo abuso sexual e vício em drogas) e que foi vencido por eles. Perguntei-me: se até ele, o poderoso frontman de uma das bandas mais bem sucedidas do milênio, não conseguiu suportar o fardo, o que sobraria pra mim, menino chinfrim que vez ou outra reclamava da vida em um blog obscuro de cinema? A gente sente-se pequeno demais quando testemunha um gigante cair. Foi por isso que parei de escrever: para alcançar minha própria sanidade mental e evitar o colapso, eu precisava descansar a cabeça e investir meu pouco tempo livre em atividades simples e prazerosas. Parei, e até que no começo foi bom.

Nasce uma Estrela - Cena 6

Depois da tempestade, porém, veio mais tempestade, e foi das brabas. Além de não conseguir investir meu tempo ocioso em coisas legais e produtivas, eu me endividei e vi o meu casamento de mais de 4 anos acabar no meio de um turbilhão de mentiras, decepções e ressentimentos. Vi-me sozinho, amparado pela família e por alguns poucos amigos, é verdade, mas sozinho. Todos os dias, após cumprir duas jornadas de trabalho, eu voltava pra casa cansado e, quando abria a porta, encontrava um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelos “MIAU MIAU” da minha gatinha (a Fufu) e pelo som da televisão, que eu ligava com o único intuito de fazer barulho e trazer um pouco de vida para aquele ambiente melancólico. Procurei um psicólogo e tentei tocar a vida, mas a minha força de vontade durou apenas duas semanas: diante de seguidas negativas da minha ex-esposa em reatar a reação, cogitei ir dar um abraço no Chester, e foi por muito pouco que eu escapei do pior.

Lembro perfeitamente da sensação. Era sábado e eu iria sair à noite para um showzinho com um amigo. Lavei roupa, limpei a casa, fiz compras, me arrumei e saí. Aí meu amigo me mandou mensagem relatando um imprevisto e cancelando a saída. Aí começou a chover. Eu estava de moto, caras: fiquei COMPLETAMENTE encharcado e com frio. Liguei para a ex: mais um fora. Voltei a dirigir e passei ao lado de um caminhão. Pronto, era só dar um leve toque no guidão para a direita e… hasta la vista, baby! Não sei ao certo de onde tirei forças para não fazer o pior, mas o fato é que eu apenas dei um grito de desespero, me recompus e toquei a moto até a casa da minha vó, que me recebeu com uma xícara de café e um colo afetuoso.

Nasce uma Estrela - Cena

*Os dias passaram e o espírito oscilou. Vi o céu e o inferno, vi pessoas (algumas delas saídas diretamente do inferno), vi shows, perdi 5kg, joguei videogame, dei conselhos genéricos para um amigo que me procurou para dizer que estava com depressão, saí para correr e bebi. Bebi muito. Num determinado dia, bêbado, liguei novamente pra ela: outro fora? Sim, o quarto. Percebendo que eu estava caminhando a passos largos para outro momento de desespero, decidi tentar algo inédito: procurei uma religião. Eu, que até então me declarava agnóstico, entrei todo vergonhoso em um centro espírita e sentei num banquinho, lá no fundo da sala, e esperei que alguém viesse, sei lá, me “atender”. Enquanto esperava, decidi fechar os olhos e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Depois disso, veio a limpeza: senti alívio, mas também senti agonia, daí chorei, chorei muito. Conversaram comigo, me aconselharam, me deram o “passe” e um livro do Evangelho Segundo o Espiritismo caso eu quisesse estudar a doutrina.

Muita coisa aconteceu depois disso e, se nem todas foram boas, ao menos todas foram feitas de forma consciente. Quando reconheci minha incapacidade de lidar sozinho com minhas angústias e busquei amparo espiritual, consegui olhar para mim mesmo e ver o quão cheio de defeitos eu sou. É claro que ninguém muda de um dia para o outro e eu não serei hipócrita de dizer que “me converti” à doutrina, mas o simples fato de ir ao encontro daquelas pessoas uma vez por semana e, principalmente, “rezar” à noite e prestar contas das minhas faltas para Deus (ou para a minha própria consciência) me ajudou a ficar longe de muita coisa errada e improdutiva. Essa mudança foi concreta, foi real.

Nasce uma Estrela - Cena 3

Coincidência ou não, depois que decidi ter fé, amor próprio e me respeitar mais, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Voltei a escrever, resolvi alguns problemas financeiros antigos e… ela apareceu. Saímos, conversamos e tomamos água. Num outro dia, saímos e conversamos de novo, mas aí tomamos vinho. Na terceira vez, convite dela, fomos ao cinema ver esse Nasce Uma Estrela. Foi ali, num lugar que frequentamos centenas de vezes ao longo do nosso relacionamento, que a mágica aconteceu. Antes de fechar esta parte da catarse, porém, faço uma pequena pausa para falar do filme (finalmente!).

Nasce Uma Estrela é a versão do ator e diretor Bradley Cooper para uma história que Hollywood já contou 3 vezes (1937, 1954 e 1976). Acabei de colocar a versão de 1954 para download e, daqui algum tempo, vejo e digo para vocês quais são as semelhanças entre os longas, mas por ora vamos com esse lançamento. Jack (Cooper) é um cantor de country/blues (ou seja lá qual estilo seja aquele rs) famoso e talentoso. Entre um show e outro, porém, Jack dá muito trabalho para seu irmão e empresário, Bobby (Sam Elliot). Jack é alcoólatra, e é a necessidade de encher a cara que leva-o até uma boate GLS na qual ele vê uma desconhecida cantar. Ally (Lady Gaga) tem a voz de um anjo e a performance de palco de uma diva, mas a insegurança com a própria aparência impede-a de voar mais alto. O alcoólatra e a introvertida aproximam-se e se completam, e o poder das músicas que eles compõe daí em diante só compara-se ao inevitável abismo que a fama e as brigas constantes cria entre eles.

Nasce uma Estrela - Cena 4

Tecnicamente, é difícil olhar para Nasce uma Estrela e dizer que ele é o produto do debut de um diretor. Os bons enquadramentos, a fotografia (tentem reparar em uma cena onde a lateral do ônibus de Jack mistura-se com o por-do-sol) e o ritmo da trama remetem a trabalhos de mestres como Clint Eastwood. Parabéns para o Bradley Cooper. E, claro, temos o som também. O filme não chega a ser um musical daqueles onde, “do nada”, os atores começam a dançar e a cantar, mas eles cantam sim, e quando isso acontece dá vontade de bater cabeça com os riffs selvagens da guitarra de Jack ou encolher-se em posição fetal na cadeira e chorar com as interpretações poderosas de Ally. O IMDB diz que as músicas foram gravadas ao vivo, e é realmente esta a sensação que se tem, pois o som está alto e visceral tal qual o de um bom show. Gostei tanto de faixas como Shallow, Black Eyes e I’ll Never Love Again que acabei baixando a trilha sonora completa.

Jack é autodestrutivo e isso faz com que ele vá afundando-se aos poucos ao longo da trama até que, no clímax, ele comete suicídio. Essa cena é MUITO pesada e precisa ser vista com certa parcimônia, visto que o ato é um pouco romantizado por sua consequência: Jack decide dar cabo de si mesmo para aliviar o fardo de Ally, cuja carreira solo patinou devido aos escândalos públicos do marido com drogas e álcool. SUICÍDIO NÃO É OPÇÃO: PODE E DEVE SER EVITADO. Todo caso, é difícil conter as lágrimas na ultima cena, quando Gaga empresta seu vozeirão para Ally homenagear o esposo falecido numa apresentação cheia de emoção, e a sensação que a gente tem quando os créditos sobem é a de que vivenciamos uma experiência incrivelmente poderosa e intimista.

Nasce uma Estrela - Cena 5

E foi assim, com o rosto molhado de lágrimas e abraçado com a pessoa que eu conheci em 2010 e me casei em 2013, que terminei de assistir Nasce uma Estrela. Fui tomado por uma alegria sem precedentes e agradeci a Deus por, no meu momento de desespero naquele sábado chuvoso, ter me acalmado e me guiado para fora daquela escuridão. Hoje, só me interessa reforçar meus votos e reconstruir minha família. Obrigado por deixar a porta aberta, Rê. “Nós estamos longe do que é raso agora”

Este seria um fim perfeito para esta resenha, mas infelizmente ainda tem mais. Um dia após o cinema, recebi a notícia que um amigo cometeu suicídio. Se vocês puderem, voltem o texto e releiam o parágrafo onde eu disse que um alguém me procurou para dizer que estava com depressão (eu coloquei um * no início para facilitar). No olho da tempestade, até tentei apoiar, mas não encontrei forças. Aqui, não trata-se de assumir responsabilidades pelas decisões dos outros, visto que todos tem livre arbítrio, mas está difícil não pensar que eu poderia ter feito mais, falado mais, ouvido mais. Eu falhei. Perder o Chester (e o Chris Cornell), pelo amor que eu tinha ao trabalho deles, foi doloroso, mas perder esse amigo… aquele cara legal que parecia o Rob Thomas do Matchbox Twenty (foi a primeira coisa que eu falei pra ele), que gostava de cerveja preta e do Misfits, o cara que saiu lá de Florianópolis para me embebedar de Bacardi no dia do meu casamento… isso foi como perder um pedaço de mim e da minha história de vida.

Escrevi este texto como um aviso para mim mesmo. De quando em quando, voltarei aqui para lembrar dessa fase da minha vida, porque não quero esquecer e não quero repetir. Aproveito o espaço e o coração aberto, porém, para dirigir-lhe estas últimas palavras, meu querido amigo: esteja você onde estiver, me perdoe! Naquele momento, eu lhe dei tudo o que eu tinha, mas sei que foi pouco! Te juro que eu queria ter feito mais por você! Você estava longe, em outro estado, mas eu deveria ter ido aí, olhado nos seus olhos e lhe dito o quão foda você era! Eu acreditei, cara, me resignei e tive fé e a vida sorriu pra mim… é muito doloroso pensar que você não conseguiu forças para fazer o mesmo! Te prometo, em respeito a sua memória, viver a minha ao máximo daqui pra frente e nunca, nunca mais, me oferecer pela metade para alguém que se abra comigo. Faço-te esta promessa: farei-me porto seguro para quem precisar de mim, ouvirei e dedicarei tempo, como forma de homenagear sua memória e transformar o seu exemplo em algo construtivo.

Descanse em paz, meu querido, nos encontramos em outra oportunidade! “O estimado para 5 fora é aos…”

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Getúlio (2014)

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GetúlioO quarto bimestre do calendário letivo de 2018 começou e, após aprenderem sobre os governos totalitários europeus e a Segunda Guerra Mundial, chegou a hora dos meus alunos do 3º ano do ensino médio voltarem-se para a história de seu próprio país para conhecerem o controverso Getúlio Vargas. Como gosto de aliar o tradicional “quadro/saliva” com outros tipos de mídia (há 2 anos uso um retroprojetor para filmes, textos e músicas), assisti Getúlio para selecionar alguma cena de peso para mostrar pra galera, visto que a aula de 45 minutos dificilmente permite a exibição de um longa completo.

Este filme, que foi produzido pela Globo filmes e que está disponível no catálogo da Netflix (checado 16/10/18), dá conta dos últimos dias do governo eleito de Getúlio (Tony Ramos), que foi de 1951 até 1954. Enfraquecido e pressionado a renunciar após o atentado da Rua Tonelero, episódio em que balearam seu principal opositor, o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), e mataram Rubens Florentino Vaz, major da FAB, o presidente cometeu suicídio na madrugada de 24 de agosto de 1954. Getúlio, que é assinado pelo diretor João Jardim, triunfa ao recriar com maestria o cenário de um dos momentos mais emblemáticos do Brasil republicano, mas o destaque mesmo é a abordagem do conflito psicológico do ex-ditador que “saiu da vida para entrar na história” num ato extremo para desvencilhar-se da imagem de caudilho.

Em linhas gerais (e com a profundidade que uma resenha de filme permite), a história nos conta que, após perder as eleições de 1930 para o paulista Júlio Prestes, Getúlio e os membros da Aliança Liberal (mineiros, militares do Movimento Tenentista e o paraibano João Pessoa) tomaram o poder através de um golpe militar. Este ato ficou conhecido como Revolução de 30 devido ao rompimento com a política do Café com Leite (esquema baseado em eleições viciadas e fraudulentas que elegia, alternadamente, candidatos de São Paulo e Minas), mas é fato que Getúlio não chegou ao poder através das vias legais. Governou de forma “provisória” até 1934 (enfrentando e vencendo o Movimento Constitucionalista em 1932), quando aprovou uma nova Constituição e foi eleito presidente de forma indireta. Em 1937, a divulgação do famigerado Plano Cohen (comunistas, caras!) criou o ambiente para um novo golpe e uma nova Constituição: nasceu assim o Estado Novo, governo autoritário de Getúlio, que subjugou o legislativo e o judiciário ao executivo, retirou direitos individuais (direito de greve), fechou partidos políticos e estabeleceu a pena de morte. O fim da Segunda Guerra e o apelo à democracia fizeram Getúlio renunciar ao cargo de presidente em 1945, o que pôs fim ao Estado Novo e levou ao poder, através de eleições diretas, o General Eurico Gaspar Dutra. Tivemos então uma nova Constituição, em 1946 e, nas eleições de 1950, Getúlio chega à presidência de forma democrática pela primeira, ao vencer o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes. Foram anos de fogo.

Getúlio - Cena

O último parágrafo, além de um exercício pessoal de síntese (professor nunca para de aprender), também é uma importante contextualização para entender o que é mostrado em Getúlio, visto que o diretor João Jardim já começa o filme no atentado contra Carlos Lacerda, valendo-se apenas de um rápido monólogo do presidente para resgatar sua trajetória até o cargo. O atentado, aliás, é mostrado da mesma forma que a história o registra: de forma obscura. Consta oficialmente que, no dia 5 de agosto de 1954, um homem feriu Carlos Lacerda com um tiro no pé e assassinou um major da FAB na rua Tonelero. Este homem seria Alcino João Nascimento, membro da guarda pessoal de Getúlio (a chamada Guarda Negra). Se até hoje existem dúvidas sobre o que realmente aconteceu ali (há especulações de que Lacerda, além de não ter sido ferido, matou o major), não é aqui que elas são sanadas: a cena do atentado é escura, confusa, com cortes abruptos e muita, muita correria e gritaria. Ao meu ver, o diretor acertou nessa.

Getúlio - Cena 3

O que vem na sequência, porém, é mais factual: Lacerda, que já atacava diariamente Getúlio, ganhou força após o atentado e ditou o tom do Inquérito Policial Militar que conduziu as investigações: Vargas, que não tinha controle nem mesmo sobre sua guarda pessoal, não tinha mais condições de governar, restando a ele apenas a saída “honrosa” da renúncia em nome do bem e da ordem nacional. Não acho que, fisicamente, o Tony Ramos tenha sido uma boa escolha para o papel. Não olho para ele e lembro do Getúlio. É inegável, porém, que o ator encarnou bem o político: o gestual está fantástico e aqueles longos silêncios contemplativos captam muitíssimo bem o tal conflito psicológico ao qual eu me referi anteriormente. Getúlio SABIA que, assim como fizera no passado, ele poderia ter silenciado Lacerda, Eduardo Gomes e seus demais opositores com o uso da força, mas o desejo de afastar-se da imagem de ditador fez com que ele se calasse e deixasse que o povo falasse por ele, tanto na comoção que tomou as ruas do país em seu funeral quanto nas eleições seguintes, onde seus adversários, mais uma vez, foram derrotados por um de seus “herdeiros políticos”, Juscelino Kubitschek.

Aos alunos, pretendo apresentar a cena do suicídio. É um momento visual e emocionalmente impactante e que, em 2018, ainda pode ser sentido de várias formas. A mais direta, lógico, é na sempre válida visita ao Palácio do Catete no Rio de Janeiro, “casa” do presidente que ainda conserva o cenário da morte de Vargas (pijama com mancha de sangue, a cama e a arma usada). A outra, está no nosso dia a dia, ao alcance de um click em qualquer rede social: entre atentados, conspirações, corrupção, discursos de ódio, oposição “auto-sabotagem” e golpes militares, continuamos construindo a história do nosso país. Glória!? Glória a Deux!

Getúlio - Cena 2

Lou (2016)

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LouLou Andreas-Salomé, nascida Louise Von Salomé, foi uma ensaísta, filósofa, poeta, romancista e psicanalista russa. Em suas obras, Lou analisou temas importantes como o amor e o papel da mulher na sociedade, mas, infelizmente, seu nome é lembrado mais pelos homens com os quais ela se relacionou do que por sua vasta contribuição acadêmica. “Lou Salomé, a mulher por quem Niezsche chorou” e “Lou Salomé, a mulher que encantou Nietzsche e Freud” são apenas alguns dos resultados que o Google mostra quando pesquisamos o nome dela. Lou, produção alemã dirigida e roteirizada pela cineasta Cordula Kablitz-Post, cumpre o importante papel de dissociar a filósofa de suas amizades e casos amorosos famosos para mostrá-la como o espírito indomável que ela foi. Mais ainda, o filme estimula o público masculino a rever um ou dois comportamentos em relação às mulheres e, para estas, dá o exemplo de alguém que transgrediu os limites de seu tempo e viveu uma vida plena e desafiadora.

Para contar sua história, a diretora Cordula Kablitz-Post vale-se do recurso sempre válido da regressão: já próxima da morte, Lou (Nicole Heesters) contrata um rapaz para escrever uma biografia que registre suas memórias. É aí que vemos, por exemplo, uma garotinha bochechuda descumprindo as ordens do pai para não subir em uma árvore, cena sintomática para tudo o que virá em seguida: na sua vida, Lou não obedeceu ninguém que não fosse ela mesma.

Após recordar sua infância agitada, Lou passa a lembrar de dois episódios importantes de sua vida: o distanciamento de Deus, ocasionado pela perda traumática do pai, e o distanciamento dos homens, que ela relaciona a uma tentativa de abuso sofrida na adolescência. Interessada em aprender filosofia, a personagem procura orientação de um pastor, mas a intimidade que surge entre eles ao longo do tempo faz com que o cara, numa cena constrangedora, coloque-a sentada em seu colo e peça-a em casamento. A partir dali, Lou mergulha cada vez mais em seu universo particular, devorando livros, rabiscando teorias e dando foras nos muitos homens que surgem em seu caminho.

Lou - Cena 2

O mais conhecido deles, como citado no primeiro parágrafo, foi o filósofo Friedrich Nietzsche (Alexander Scheer). O bigodudo vê em Lou (aqui já interpretada pela atriz Katharina Lorenz) a mulher forte e transgressora que ele idealiza em suas obras quando fala de seu “super-homem”. O lado “dionisíaco” (relativo ao desejo sexual) de Nietzsche quer Lou, mas Lou vê em Nietzsche apenas a possibilidade de desenvolver seu lado “apolíneo” (relativo ao intelecto). A amizade entre os personagens, que relacionam-se ainda com o também filósofo Paul Rée (Philipp Haub), logo desanda, e é aqui que aprendemos uma primeira lição: homens não estão acostumados a ouvirem não. Por mais que Lou, desde o início, tenha deixado bem claro que ela não queria envolver-se de forma sexual com os personagens, eles insistem em persuadi-la até o ponto de prejudicar a amizade. Ah, se a gente entendesse certas coisas logo no início…

Lou segue mostrando o desenvolvimento pessoal e profissional de sua protagonista, que torna-se conhecida após publicar um romance utilizando um pseudônimo masculino (na época, escritoras ainda sofriam preconceito do público e dos críticos) e que forja um casamento de mentira com um burocrata para acalmar sua família. Os diálogos do filme, carregados de referências a escritores como Espinoza e Schopenhauer, podem até não agradar todos os paladares, mas há uma unanimidade aqui que precisa ser reconhecida: como é bonita a fotografia de Lou! As cores, a iluminação e, principalmente, as transições de cena, que são feitas com cartões postais pintados que ganham vida, são de uma delicadeza e de uma beleza ímpares, coisa fina mesmo.

Lou - Cena

O filme conta ainda o amadurecimento da personagem, que acaba encontrando o caminho para conciliar seus aspectos sexuais e intelectuais, e o encontro dela com Sigmund Freud, este relativamente pouco explorado. Como historiador, chamo atenção ainda para o contexto no qual Lou dita sua biografia: ambientado no ano de 1933 na Alemanha, Lou mostra o início do governo de Hitler, com livros de Marx, Trotski e Freud sendo queimados em praça pública por seu conteúdo “materialista e degradante”. A onda de ódio e intolerância propagada pelo Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, acabaria atingindo a própria Lou, que teve sua biblioteca confiscada pela Gestapo sob acusação de conter material ligado à “ciência judaica”.

Vi este filme no último domingo e só agora encontrei tempo para finalizar o texto. O fim do terceiro bimestre está próximo, logo estou correndo para manter os diários atualizados e para confeccionar as avaliações dos alunos. Todo caso, lembro de ter achado Lou bem fluído (eu ainda gosto muito de filosofia), tanto que foi relativamente fácil assisti-lo sem interrupções para mexer no celular, vício que reconheci e que estou lutando para combater. Sigo.

Lou - Cena 3

Chevalier (2015)

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chevalier_Strand_PrintTenho uma pasta no notebook com filmes que guardei para assistir desde o ano passado quando encerrei o blog. São indicações de amigos, títulos que foram cotados/selecionados para concorrer ao Oscar/Globo de Ouro, séries que eu estava cobrindo no período (Halloween), etc. Esta semana cheguei em casa cansado (ainda estou trabalhando em 2 empregos #Julius), abri a tal pasta e procurei o filme de menor duração. 01h55min… não. 02hrs30min… de jeito nenhum. 01h45min? É, pode ser.  Chevalier foi o título selecionado pela Grécia para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017. Além de não ter figurado entre os 5 finalistas da disputa, o trabalho da diretora Athina Rachel Tsangari me fez apertar o pause 30min depois do início da sessão e ir dormir. Terminei de assistir, com um bocado de bocejos e dificuldades, só no dia seguinte.

Os bocejos são normais para quem acordou antes das 06 da manhã, mas as tais “dificuldades” merecem um pequeno parágrafo. Caras, o tal do celular virou uma desgraça na vida da gente! A facilidade que os smartphones tem para alternar de um aplicativo para o outro e as notificações constantes que recebemos de redes sociais como Instagram e Facebook tornam praticamente impossível manter a concentração a longo prazo em qualquer coisa. Já tem um bom tempo que notei o quão viciado estou em celular, pegando o aparelho de minuto em minuto para checar os aplicativos em busca de atualizações, mas só agora decidi adotar medidas concretas para controlar o vício. De hoje em diante, sempre que eu for assistir um filme, colocarei o celular em algum lugar longe do meu alcance. Acredito que conseguirei sobreviver sem ver coisas como “fulano de tal está ao vivo” ou “fulano começou a usar o Messenger”.

Chevalier - Cena

Mas e o filme? O roteiro de Chevalier é do grego Efthymis Filippou. Não sabem quem é? É o cara que escreveu o Kynodontas. Não viram? Bem, basta vocês saberem que é um filme onde pessoas vivem dentro de uma casa, sem contato com o mundo exterior, andando de 4 e latindo. O roteirista parte do bizarro e do experimentalismo para retratar aspectos do comportamento humano, e o resultado é um filme que tem mais compromisso com a arte em si do que com o entretenimento do público geral. Seguramente, não é o tipo de material que você vai querer assistir após um longo e cansativo dia de serviço.

Flippou não faz maiores concessões em Chevalier. A história acompanha um grupo de 6 amigos confinados em um barco de luxo no meio do oceano. Entre pescarias e mergulhos, eles decidem iniciar uma disputa para ajudar a passar o tempo. Chamado “O Melhor em Tudo”, o jogo consiste em atribuir ou tirar pontos do adversário baseando-se em aspectos aleatórios e subjetivos como falar alto/baixo, mostrar os dentes ao sorrir (!!!), formas de pensar, etc. Quem ganhar, além do título, receberá o direito de utilizar o anel Chevalier, distinção que geralmente é dada aos membros da ordem DeMolay. O filme é isso: um bando de marmanjos em um barco, cada um com um bloquinho de anotações, atribuindo notas um ao outro para ver quem deles é o “melhor em tudo”. Legal né?

Chevalier - Cena 3

Não, não é legal. A proposta de Chevalier é fazer humor com a fragilidade do ego humano, utilizando situações cômicas para nos mostrar o quão inseguros somos e o quanto dependemos da opinião de terceiros para nos sentirmos bem. Nisso, vemos os personagens fazendo várias coisas do estilo “olha eu”: um cara corre até quase morrer após dizerem que ele está com o colesterol alto, um cara monta um cubo mágico em 18seg (!!!) e um outro, na cena mais bizarra do filme, fica com o pau duro e sai batendo de porta em porta para que alguém veja a sua “linda, prolongada e encorpada ereção”. Teoricamente, a gente deveria “rir do outro para rir de si mesmo”, mas as cenas estão muito mais no campo do bizarro do que do humor. Único momento que eu esbocei um sorriso foi quando o gordinho nerd do grupo faz uma apresentação cheia de fogos com a música Lovin You da Minnie Riperton, mas mesmo isso é estranho demais, “sei lá” demais.

Típico caso em que uma ideia boa rendeu um filme ruim ou será que o autor da resenha anda mal humorado e não conseguiu ver graça em um senhor de pau duro perguntando “Quer que eu coma você?” para outro senhor? Vocês decidem. O fato é que eu fiquei aliviado quando Chevalier acabou e eu pude checar, pela centésima vez no dia, que aquela pessoa não havia mandando mensagem no Whatsapp.

Chevalier - Cena 2

T2 Trainspotting (2017)

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Quase 20 dias sem postar e só posso pensar em 2 culpados:

  • Final Fantasy Brave Exvius: Estou completamente viciado nesse jogo da Square Enix. Maldito seja o infeliz que teve a ideia de reunir, numa mesma história, personagens de todos os games da série Final Fantasy. Comecei de leve, fazendo apenas as missões diárias, e hoje, cerca de um ano depois que instalei o aplicativo, estou acordando durante a madrugada para jogar e vendo itens do mesmo aparecerem na minha fatura de cartão de crédito. Droga!
  • Final de bimestre: Nas últimas duas semanas, eu precisei dedicar grande parte do meu tempo livre para elaborar/corrigir provas, atualizar diários e ouvir as muitas e comoventes histórias dos meus alunos que, pelos mais incríveis e inacreditáveis motivos, não conseguiram apresentar os trabalhos solicitados a tempo.

O cansaço físico e mental é grande, mas as férias estão chegando e, aos poucos, eu vou conseguindo encontrar tempo para voltar a assistir filmes e atualizar o blog com regularidade.

O último título que consegui ver, aliás, foi esse T2 Trainspotting, continuação do diretor inglês Danny Boyle para o icônico trabalho que o apresentou para o mundo em 1996. Boyle imaginou como estariam Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) 20 anos após os eventos do primeiro filme e realizou uma sequência que, mesmo sem provocar o mesmo impacto do original, certamente agrada aos fãs do clássico pela nostalgia e pela atualização do discurso irônico e afiado contra os vícios da modernidade.

Depois de roubar os amigos e fugir com o dinheiro que eles haviam ganhado numa venda de drogas, Renton escolheu viver. Ele escolheu um serviço, uma família e, muito provavelmente, ele comprou uma televisão grande pra caralho. A felicidade, no entanto, não veio. O emprego não deu certo, a família acabou e a TV de muitas polegadas continuou exibindo os mesmos e velhos programas chatos de auditório. Foi aí que Renton resolveu largar tudo (ou o pouco que havia sobrado) e retornar para a Escócia para encontrar seus velhos amigos.

T2 Trainspotting faz esse movimento legal de mostrar um personagem que conseguiu o que queria (uma vida responsável, séria e estável longe das drogas), não gostou (ou não aproveitou bem a oportunidade) e então decidiu recorrer ao passado que ele havia negado como forma de recomeçar. É como se Renton tivesse largado um relacionamento ruim, começado outro e então tivesse sentido falta da ex. E voltar com ex, meus amigos, é aquele negócio: no começo pode até ser bom, pela familiaridade e tal, mas logo logo os problemas reaparecem e você lembra do porque havia terminado.

Renton queria rever Spud, saber o que o cara havia feito com a  grana que ele havia lhe deixado, mas o encontro acontece da pior forma possível. Numa daquelas coincidências pontuais do cinema, o personagem abre a porta de um apartamento velho e sujo bem no momento em que o amigo estava tentando suicidar-se. Renton salva Spud da morte, mas, em troca, ouve uma cacetada: “Você arruinou minha vida! Você deu 4.000 libras para um viciado! O que você pensou que eu fosse fazer?”. Não era bem o que ele esperava.

Renton queria rever Simon, mas ele sabia que não seria um encontro fácil. Na última vez que estiveram juntos, Renton deixou o amigo dormindo e fugiu levando o dinheiro que eles deveriam dividir. O reencontro acontece num velho pub, local que Simon herdou do pai e que agora ele toca para ganhar uns trocados. Conversa vai, conversa vem, Simon bate com um taco de sinuca nas costelas de Renton e inicia uma briga que destrói boa parte da mobília do bar. “16 mil libras! Seu ladrão desgraçado!”. Expurgado o ressentimento, os dois personagens reatam a amizade e voltam a fazer planos juntos, mas Simon revela para sua namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova), que ele ainda pretende vingar-se de amigo.

Renton certamente não queria rever Begbie. Um cara que não acha difícil bater com uma caneca de cerveja no rosto de um estranho pode até ser útil em determinadas situações, mas definitivamente não é alguém pra você ter como inimigo. Renton roubou Begbie e foi indiretamente responsável por sua prisão (o cara quebrou um quarto de hotel inteiro quando ficou sabendo que fora passado para trás), logo ele sabia que era bom evitar o sujeito. Tal tarefa não parecia muito difícil, visto que o cara estava preso, mas, noutra dessas coincidências pontuais do cinema, a chegada de Renton na cidade coincide com a fuga de Begbie da prisão (e a cena em que isso acontece não deve nada para as antigas loucuras do personagem) e aí o acerto de contas passa a ser apenas uma questão de tempo.

Renton é o protagonista de T2 Trainspotting e o foco aqui, tal qual foi no primeiro filme, são as relações intensas porém efêmeras do personagem com seus amigos e com o meio em que eles vivem. Danny Boyle revisita o discurso “Choose Life” para atacar os novos vícios da sociedade (redes sociais, pornô, reality shows) e vale-se de uma edição audaciosa (adorei aquele ‘elevador’ artificial no prédio do Spud) e de uma trilha sonora onipresente para dar leveza e humor a um tema que é bastante sério. Talvez os três grandes momentos do filme sejam a cantoria no clube dos patriotas, a reedição da cena do “atropelamento” do Renton e o confronto final entre os personagens e Begbie, mas o que eu mais gostei foram os arcos da história que envolvem o Spud.

Desde o primeiro Trainspotting, o Spud era aquele cara engraçadão, doido e gente boa que todo mundo gosta mas que ninguém leva muito a sério. Me assustou, portanto, ver o cara tentando cometer suicídio no início desse filme. Ao escrever para a mulher antes de enfiar a cabeça dentro de um saco e asfixiar-se, Spud diz: “Eu sei que você e nosso filho estão em um mundo melhor sem todo o meu caos”. Caralho, caras. A personalidade expansiva e o jeito brincalhão do cara, no fim, revelaram-se disfarces para um vazio existencial que ele não suportou carregar. Quando Renton encontra-o e impede que ele se mate, Spud inicia um processo difícil de tentar canalizar o vício em drogas para outras atividades. Ele tenta correr, lutar boxe… tudo sem sucesso. Finalmente, quando parecia não haver mais esperanças, Spud encontra na escrita algo que ele gosta de fazer. E Spud começa a escrever sobre seu passado insano ao lado de Renton, Simon e Begbie e, para sua própria surpresa, ele vê que é bom no que faz. E é assim, canalizando suas energias e impulsos para algo produtivo e prazeroso, que o legalzão Spud começa a reencontrar seu caminho. Eu, que também tenho meus problemas, tenho jogado bastante. Pretendo voltar a escrever com regularidade também.

Silêncio (2016)

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Tenho ido bastante ao cinema. Dos meus últimos 10 posts, 8 foram sobre filmes vistos no escurinho comendo pipoca e bebendo refrigerante. Isso é bom, mas tenho sentido falta de procurar títulos de diretores/atores/temas que me interessam, logo optei por ficar uma semana longe das salas de projeção e escolher algo para ver no conforto do sofá da minha casa.

Apesar de ser assinado pelo consagradíssimo Martin Scorsese, Silêncio não teve uma grande distribuição nas redes de cinemas nacionais. Aqui em Uberlândia-MG, por exemplo, ele nem entrou em cartaz. Não é difícil imaginar o porquê. Com quase 3 horas de duração (2h40min) e baseado em um livro que explora aspectos pouco ortodoxos do cristianismo (obra do japonês Shûsaku Endô), Silêncio não teria grandes chances nas bilheterias contra produções como Velozes e Furiosos 8. Pessoalmente, porém, acredito que não há o que lamentar: as questões levantadas pelo Scorsese neste longa despertam uma vontade enorme de comentar na hora, tão logo a cena acaba. Como gente educada não conversa dentro do cinema, assistir o filme em casa acaba sendo bem mais legal e produtivo.

*Pausa na resenha para um agradecimento (Caso você queira ler só sobre o filme, pule o próximo parágrafo)* Este texto ficou parado neste ponto por mais de uma semana. Estou num período complicado, organizando viagens, corrigindo provas e resolvendo algumas coisas em casa, mas a verdade é que eu cansei um pouco de escrever. Não é a primeira vez que isso acontece e certamente não será a última, porém dessa vez a vontade de deixar o blog de lado foi bastante tentadora. Já são quase 7 anos dedicados a essa página e 848 textos publicados, daí eu me peguei pensando no quão mais leve os meus dias seriam sem essa “obrigação” de resenhar todos os filmes que eu assisto. Geralmente, quando bate esse desânimo, é a minha esposa quem me faz lembrar o porque de eu ter começado isso aqui (ter um espaço só meu para falar de algo que eu amo), mas desta vez, por mais que ela tenha feito a parte dela, eu encontrei forças mesmo foi nas palavras carinhosas e inesperadas de um amigo. Eu conheço o Luiz (ou Sir Luiz, como ele é chamado por aqui) há uns 6 anos e sempre o admirei pelo bom coração e pela autenticidade (ele usa ‘saia’, faz slav squat e tem uma Suzuki Intruder legalzona), mas mesmo assim eu fiquei sem reação quando fui cumprimentá-lo na saída de um bar e vi ele falando para uma galera sobre o meu blog. Qualquer elogio sempre é bem vindo, mas o cara estava falando sobre o meu estilo de escrever, algo que dá a entender que ele realmente lê e gosta do que eu faço ao ponto de já ter identificado um padrão (salvo engano, ele estava comentando o começo deste texto aqui). Isso me deixou feliz demais. Muito obrigado, Sir! É muito bom saber que tem alguém aí do outro lado notando o que eu faço e, graças as suas palavras, cá estou eu com o ânimo renovado escrevendo novamente 🙂

Silêncio retrata parte da história do catolicismo romano no Japão e, caso você queira mais informações sobre o tema, há um artigo do Wikipédia bastante completo sobre o assunto. Resumidamente, o que aconteceu foi que, após obterem um relativo sucesso no século XVI, as missões catequizadoras, em sua maioria portuguesas, foram combatidas pelo governo japonês ao longo do século XVII, que considerava-as nocivas à estabilidade política e econômica do país. Assim sendo, as missões foram proibidas e os missionários foram obrigados a apostatar-se (desertar) da religião católica sob pena de morte.

Ferreira (Liam Neeson) foi um padre que viu-se na difícil situação de precisar abandonar sua fé para salvar a própria vida e dos kirishitan (japoneses convertidos ao cristianismo) que o seguiam. Tal acontecimento teve uma grande repercussão em sua terra natal, Portugal, visto que ele era uma figura bastante conhecida e respeitada dentro da igreja. Interessados em saber o que realmente aconteceu com o padre, os missionários Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) conseguem permissão para ir até o Japão investigar o caso e darem seguimento a missão catequizadora.

Apesar de possuírem objetivos comuns, porém, nota-se que os missionários tem formas bastante distintas de lidarem com a fé e de ensina-la para os japoneses. Garupe parece ser mais pragmático. Ele vê dificuldades onde há dificuldades e não aceita, mesmo em nome da conversão, que os kirishitans façam distorções e adaptações do texto bíblico para a realidade deles. Rodrigues, por outro lado, é um católico fervoroso cujo amor por Cristo lhe dá forças para lidar com qualquer tipo de situação sem perder a alegria. Seguro de sua fé e de seus propósitos, ele arrisca-se sem pestanejar através de territórios hostis para levar a palavra de Cristo até os japoneses.

Como dito, assisti Silêncio em casa e fui comentando o que eu via com a minha esposa ao longo da sessão. Espectador gosta de torcer por alguém, e nós nos afeiçoamos bastante com o o tal Rodrigues. A beleza da fé inabalável dele contrasta demais com o pessimismo e com a feiura do Adam Driver, daí nós ficamos do lado dele em praticamente todos os conflitos entre os missionários que surgem na primeira metade do filme. Foi aí que, como geralmente acontece em filmes conduzidos por grandes diretores, o roteiro apresentou uma reviravolta e nos fez ver um outro ângulo da história. Segundo o próprio Scorsese, Silêncio é sobre a “necessidade de acreditar conflitando com a voz da experiência”. Rodrigues “conversa” com Deus e vê sinais de manifestação divina em quase tudo (numa imagem na água, por exemplo), mas a gente vai notando aos poucos que há um pouco de egoísmo nessa comunhão dele. O personagem, que inicialmente preferira não acreditar que o padre Ferreira havia apostatado, passa a criticar o seu velho amigo pela abdicação da fé quando a verdade finalmente surge. Rodrigues não vê (ou não quer ver) que Ferreira fez o que fez (pisar em cima de uma imagem da Virgem como gesto simbólico de rejeição do cristianismo) para salvar outros cristãos. Rodrigues prefere ver pessoas morrendo (e as cenas onde isso acontece são bastante traumáticas) do que ceder. Nisso, deixei de ver a beleza do sacrifício, da fé e da coerência e passei a ver o ego, a vaidade e a prepotência.

Silêncio tem essas e outras questões espinhosas (os japoneses precisavam mesmo do catolicismo?) e, claro, a direção impecável do Scorsese. Como elogiar o trabalho do cara nessas alturas do campeonato é meio que chover no molhado, vou contentar-me em chamar a atenção de vocês para duas coisas que ele fez aqui que me agradaram muito. Uma é o tal silêncio que dá título ao filme. Notem toda a frustração de Rodrigues quando, em resposta a suas orações, um silêncio constrangedor preenche a tela. O outro ponto é a cena em que Rodrigues e Garupe conversam com alguns japoneses no meio de um matagal. A câmera está posicionada em cima dos atores, estática, mostrando-os quase que como insetos do ponto de vista de alguém superior e indiferente ao sofrimento deles. Esses artifícios falam mais da posição do diretor sobre o tema abordado do que qualquer diálogo poderia fazer e colocam Silêncio em pé de igualdade com outros clássicos do diretor como Os Bons Companheiros e Taxi Driver. Que bom que o Scorsese continua firme e forte nesse negócio de fazer a gente gostar de cinema.