Bohemian Rhapsody (2018)

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Bohemian RhapsodyI work hard (he works hard) every day of my life: A última semana foi infernal. Resumidamente, moto e chuva não combinam. Capa de chuva? Embuste! Molhei no caminho de casa para o serviço e, lá e de volta outra vez, molhei mais ainda, totalizando 35km diários de molhança e absolutamente nenhum ânimo para escrever. Hoje, porém, o sol está brilhando e eu estou de folga. Coloquei as roupas para lavar, passei um pano nos móveis, preparei as aulas da semana e agora, obrigações cumpridas, sentei aqui no meu quartinho para escrever a resenha do Bohemian Rhapsody. Antes de falar do filme, no entanto, vou gastar um parágrafo para contar a minha história de amor com o Queen.

And everything I had to know, I heard it on my radio: Conheci o Queen em algum ponto da década de 90. Eu estava ouvindo rádio e alguém ligou e pediu para tocar Bohemian Rhapsody. O radialista, ao vivo, falou que a música era “grande demais” para a programação, deu uma enrolada no cara e tocou I Want to Break Free. Dessa experiência, lembro de 2 coisas: gostei muito do refrão e odiei o solo. Na minha opinião (e que um dia eu seja perdoado por ter pensado assim), a guitarra tava com uma distorção meio brega e cafona. Todo caso, no final de semana seguinte, fui na feira do bairro, comi um pastel com Guaraná Mineiro e comprei um CD do Queen, uma dessas coletâneas que vinham no saquinho plástico e que custavam 3-5 reais. Bons tempos: como tínhamos acesso a um número menor de músicas (hoje, programas de download e aplicativos como o Spotfy dão acesso a milhares de títulos com apenas um clique), acabávamos valorizando mais cada uma das faixas disponíveis, decorando letras e tudo mais. Fiquei apaixonado pelo que ouvi, aprendi o nome dos integrantes da banda, pedi desculpas mentais para o Brian May e, finalmente, ouvi a magnânima Bohemian Rhapsody: passados quase 20 anos da primeira audição, ainda considero aquela parte que vem depois da sessão operística (So you think you can stone me and spit in my eyes?) como um dos momentos mais inspirados do rock ‘n roll de todos os tempos. As músicas do Queen estiveram no meu casamento (Love of my Life, lógico), estão nos vídeos que faço todo fim de ano para os meus alunos (no último, foi We Believe, do projeto recente com o Paul Rodgers) e estão sempre na minha playlist (atualmente, tô com Fat Bottomed Girls e I’m Going Slighty Mad). A Rainha é foda ❤

Bohemian Rhapsody - Cena

Are you ready, hey, are you ready for this?: Daí sai a notícia que fariam um filme sobre o frontman da banda, Freddie Mercury. Surtei total. Qualquer medo de que o trabalho não fizesse justiça a grandiosidade do vocalista e da banda foram deixados de lado quando os primeiros trailers foram divulgados. No que dava para ver ali, todos os integrantes estavam perfeitamente caracterizados e a encenação de episódios antológicos da história da música, como a gravação dos “Galileo’s” da Bohemian Rhapsody e da apresentação da banda no Live Aid, garantiriam nostalgia e momentos para cantar junto. Felizmente, o filme entregou exatamente o que prometeu: uma história relativamente linear, focada na trajetória do Freddie (Rami Malek), mas que dá a devida atenção para o talento do Brian May (Gwilym Lee), para a energia criativa do Roger Taylor (Ben Hardy) e para o pragmatismo e solidez do John Deacon (Joseph Mazzelo).

Love of my life, you’ve hurt me: Dirigido pelo Bryan Singer, Bohemian Rhapsody homenageia o gênio musical, o artista que conseguia conduzir uma plateia como ninguém (Eh ôh, eh ôhhhhh!), mas também há espaço para falar do homem que, apesar de todo o talento e fortuna, teve dificuldade para amar. Amantes não faltaram (certa vez ele disse que os teve mais do que a Elizabeth Taylor, uma mulher que casou 8 vezes rs), mas sua bissexualidade afastaram-no de sua esposa, Mary Austin (Lucy Boynton), e seu estilo de vida orgiástico impediu por muitos anos que ele se aproximasse de seu verdadeiro companheiro, Jim Hutton (Aaron McCusker). A solidão do personagem foi bastante explorada (gostei muito da cena do abajur), mas, numa decisão questionável, o Bryan Singer optou por tratar com parcimônia os últimos dias do cantor, falando pouco e de forma superficial da AIDS, doença que, associada a uma broncopneumonia, vitimou Freddie no dia 24 de novembro de 1991. Este caminho deixa a produção mais leve e pop, tal qual um hit radiofônico do Queen como A Kind of Magic, mas também impede que o material atinja a grandeza de produções mais complexas como Innuendo.

Bohemian Rhapsody - Cena 2

I consider it a chalenge before all the human race and I ain’t gonna lose: Se o drama sobre a vida pessoal do personagem poderia ter sido um pouco mais explorado, não há absolutamente mais nada a reclamar do filme. A caracterização dos personagens, por exemplo, é assombrosa. Não há dúvidas de que o destaque seja mesmo do Rami Malek, que capturou com perfeição o espírito e trejeitos do Freedie, mas, puta que pariu, olhem aquele John Deacon! Tá igual! Sobre a parte musical, celebro a decisão do diretor de revisitar o ambiente de gravação do clipe da I Want to Break Free, escancarar as brigas com empresários e de mostrar o momento que alguns hits (We Will  Rock You e Another One Bites the Dust) foram pensados. Também agrada muito a presença de piadas conhecidas sobre a banda (todas aquelas que envolvem a letra da I’m in Love With my Car) e a recriação quase na íntegra da apresentação do Queen no Live Aid, show que ainda hoje permanece como um das maiores transmissões ao vivo de todos os tempos. Poderíamos ter o David Bowie, a jaqueta amarela e mais algumas músicas, como Stone Cold Crazy? Claro que poderíamos, mas ainda sim o resultado é muito bom.

Bohemian Rhapsody - Cena 3

Why can’t we give love? Give love, give love, give love: Li em redes sociais que houveram registros de pessoas vaiando as cenas de homossexualidade do filme. Quando procurei fontes sobre o ocorrido, no entanto, encontrei apenas um print pouco confiável do Twitter. Registro aqui o que vi: sempre quando o Freddie beijava ou atracava-se com alguém, era notório o burburinho na sala. Num determinado momento (se não me falha a memória, foi quando ele passa a mão no derrière do Jim Hutton), ouvi alguém dizer “tomar no cu com essa viadagem”. Complicado, né? Não digo isso nem pelo fato da homossexualidade do cantor ser pública e notória, mas também pela insistência de algumas pessoas em querer opinar sobre decisões que não lhes dizem respeito. Todo caso, termino este texto relatando outra coisa que vi na sessão, esta sim emocionante: bem no fim do filme, quando a banda está executando a We Are The Champions no Live Aid, vi, nas cadeiras inferiores, uma velhinha levantando e balançando os braços na hora do refrão, prova irrefutável da atemporalidade e grandeza da música do Queen.

Queen é amor, e o amor, este sim, está acima de tudo e de todos.

Bohemian Rhapsody - Cena 4

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Halloween (2018)

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Halloween 2018Ode à tolerância: tenho MUITA birra com atraso. Marcar algo comigo e chegar mais de 10min depois do horário combinado (sem uma boa explicação) é pedir para me encontrar de cara amarrada. Numa sexta feira aí (26/10), porém, fui beneficiado por um atraso. Após um compromisso que acabou durando mais do que o esperado, corri em direção a um dos shoppings da cidade com a intenção de pegar a sessão do Halloween das 15hrs. Estaciona, sobe a escada rolante naquele pique de academia, vai até a máquina de autoatendimento e… 15hrs15min. “Putz, perdi os trailers e o início do filme”, pensei. Como a merda já estava feita, ainda gastei mais uns 5min comprando pipoca e refrigerante antes de entrar na sala do cinema, momento em que imaginei que já veria o Michael Myers enfiando a faca em alguém mas que, para a minha surpresa (e alegria!), os trailers estavam apenas começando. A sessão atrasou. Ri sozinho pensando no quanto já fiquei puto de raiva porque alguém me deixou 10/15min esperando. São nessas pequenas ironias de vida que a gente vai colocando o pé no chão e amadurecendo.

A fé nesse novo Halloween era pouca. Terminei meu último texto da série dizendo que eu torcia pela produção, mas a verdade é que, após muitas decepções, eu já havia desistido de ver algo que fizesse justiça à criação do John Carpenter. O saldo cinematográfico do assassino de Haddonfield, depois de porcarias como A Última Vingança, é muito negativo. Tendo como base o que vi aqui, porém, há razões para acreditar que o jogo poder virar. Assinado pelo diretor David Gordon Green, Halloween é um passo inteligente para o reboot da franquia, pois, ao ignorar todas as sequências do orignal, ele apresenta uma continuação direta dos eventos vistos no filme de 1978, decisão que garante uma boa dose de nostalgia e que abre caminho para novas e revitalizadas produções com o Myers.

Halloween 2018 - Cena 3

A trama respeita o tempo passado no mundo real e também acontece 40 anos depois (1978-2018) do primeiro confronto entre os irmãos Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Michael Myers. Ele foi internado em um hospital psiquiátrico, ela teve uma vida marcada pelo trauma daquela fatídica noite de Halloween. Laurie até tentou seguir a vida: casou, teve uma filha e ganhou uma neta, mas a obsessão que ela desenvolveu com um possível retorno do irmão transformaram-na em uma pessoa paranoica e indesejável. Isolada da família, Laurie opta por viver em uma casa no campo, casa que ela transforma em uma fortaleza na expectativa de, um dia, enfrentar Michael novamente.

A inevitável “reunião” começa a tomar forma quando um casal de jornalistas visita Michael no hospital psiquiátrico. Eles, que são do tipo que ganham a vida resgatando casos polêmicos do passado, pretendiam obter alguma informação do famoso assassino de Haddonfield. A cena onde a “entrevista” acontece é boa demais: aquele pátio enorme, com o Michael preso em correntes e cercado por um bando de desajustados, é, fácil, um dos melhores cenários já vistos na franquia. Ali, acontece o erro que trará destruição e morte para um número sem fim de pessoas: na ânsia de arrancar alguma palavra ou confissão do assassino, o jornalista mostra-lhe a famosa máscara (isso mesmo, a tal baseada no rostinho bonito do William Shatner). Big mistake, motherfucker: o cara fica possesso e, no dia seguinte, aproveita a transferência dos internos para fugir.

Halloween 2018 - Cena 4

A fuga, como não poderia deixar de ser, acontece no dia de Halloween. Primeiro, Michael trata de recuperar sua máscara e de conseguir uma faca gigante, depois, ele anda novamente pelas ruas de Haddonfield matando pessoas aleatórias que participam do “doces ou travessura”. É nesse ínterim que o assassino vai atrás não de sua irmã, que estava trancada em uma fortaleza na floresta, mas de sua inocente e avoada sobrinha, Allyson (Andi Matichak), o que obriga Laurie a abandonar o isolamento e tomar medidas para proteger sua família.

O diretor David Gordon Green atualizou a linguagem de Halloween acrescentando no longa a violência gráfica explícita típica de produções recentes do gênero. A cena em que o Myers pisoteia a cabeça de um infeliz até transformá-la em uma massa disforme de carne e ossos, por exemplo, não deve nada para “filmes podreiras” como O Albergue e Jogos Mortais. A utilização de elementos do presente ainda garante uma cena sinistra e espetacular com um sensor de movimento em um jardim (pobre gordinho!), mas também há espaço para o material clássico, a começar pela abertura. A fonte do título, a abóbora em stop motion e a musiquinha infernal: está tudo lá. Os fãs mais hardcore ainda notarão semelhanças com os outros longas da série que, apesar de não serem incluídos na cronologia, foram homenageados pelo diretor com a inclusão de diversos easter eggs: particularmente, gostei da recriação da cena em que o Michael consegue a faca na cozinha (Halloween 2) e das fantasias das crianças na rua (Halloween 3). Também chama a atenção a semelhança/homenagem com o roteiro do Psicose, quando personagens importantes são eliminados no meio da trama, deixando a gente sem reação.

Halloween 2018 - Cena 2

Ainda no campo da nostalgia, é muito bom que tenham resetado a linha do tempo para que a Jamie Lee Curtis pudesse voltar a interpretar a Laurie Strode. Depois de ser descartada da forma mais idiota do mundo no Halloween: Ressurreição, a personagem volta para um pega pra capar épico com seu algoz. Rola de tudo: arremessos, tiro na cara, tiro nos dedos, incineração e desrespeito. Mas não é Laurie Strode que protagoniza a melhor cena de Halloween. Numa ousadia com poucos precedentes, o diretor David Gordon Green teve culhões para colocar o Myers enfrentando uma criança. O resultado não é bom apenas pela coragem do cineasta de enfrentar um dos maiores tabus do cinema, mas também por toda a construção do clima sombrio da cena. Saca só:

“Pai e filho num carro na estrada à noite. Acidente de ônibus bloqueando a via. A gente SABE que o Myers estava no ônibus. O pai sai para verificar a situação e NÃO VOLTA. O menino, que a poucos instantes estava dizendo que só queria fazer aulas de dança, pega uma espingarda e desce do carro, gritando pelo nome do pai. Escuridão TOTAL. O Myers aparece.

Foda, né? Halloween é muito bom. Esta resenha está saindo com um pouco de atraso (é a proximidade do fim do ano letivo acabando com o meu tempo livre), mas, se ainda for possível, tentem assisti-lo no cinema, vale muito a pena. Todo caso, se vocês perderem esse, não se preocupem, porque é praticamente impossível que não haja uma continuação, tanto porque a produção foi muitíssimo bem nas bilheterias quanto porque, nos créditos, confirma-se outra tradição da série: após tomar uma sova épica, a respiração ofegante de Myers confirma sua imortalidade e seu inevitável retorno. Pobre Laurie Strode! 😆

Halloween 2018 - Cena

Nasce uma Estrela (2018)

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Nasce uma EstrelaDe: Lucian, 23/10/18

Para: Lucian, para relembrar, para nunca esquecer

Este é um texto pessoal, longo e cheio de spoilers. É uma carta pra mim mesmo, que compartilho com você com uma única condição: não julgue 🙂

Ano passado, este blog morreu junto com o Chester Bennington, ex vocalista do Linkin Park. Em minha confusa, trôpega e sincera nota de despedida, eu reuni forças para reconhecer que o meu coração não estava mais aqui. Resumidamente, eu assistia um filme e, no lugar de me divertir e/ou aprender com a história, eu me sentia culpado. Culpado? Sim, caras. Sofri com inúmeros bloqueios criativos oriundos de uma rotina cansativa e estressante. Para vocês terem ideia, eu passei cerca de 3 dias tentando escrever, sem sucesso, a resenha do Homem Aranha – De Volta Ao Lar. Não saiu. Fui ao cinema, revi o filme, voltei para o computador e… nada. A sensação perturbadora de que eu “não tinha mais nada a dizer” cresceu dentro de mim, e foi aí que o Chester se foi. Eu fiquei assustado.

Há, claro, a tristeza e a incredulidade do fã que perde o ídolo. Ainda acho complicado acreditar que nunca mais ouvirei a voz do vocalista em uma música nova. O mais difícil, porém, foi enxergar-me na tragédia daquele ser humano, um homem que gritava (e como gritava!) com seus demônios (no caso, coisas tenebrosas envolvendo abuso sexual e vício em drogas) e que foi vencido por eles. Perguntei-me: se até ele, o poderoso frontman de uma das bandas mais bem sucedidas do milênio, não conseguiu suportar o fardo, o que sobraria pra mim, menino chinfrim que vez ou outra reclamava da vida em um blog obscuro de cinema? A gente sente-se pequeno demais quando testemunha um gigante cair. Foi por isso que parei de escrever: para alcançar minha própria sanidade mental e evitar o colapso, eu precisava descansar a cabeça e investir meu pouco tempo livre em atividades simples e prazerosas. Parei, e até que no começo foi bom.

Nasce uma Estrela - Cena 6

Depois da tempestade, porém, veio mais tempestade, e foi das brabas. Além de não conseguir investir meu tempo ocioso em coisas legais e produtivas, eu me endividei e vi o meu casamento de mais de 4 anos acabar no meio de um turbilhão de mentiras, decepções e ressentimentos. Vi-me sozinho, amparado pela família e por alguns poucos amigos, é verdade, mas sozinho. Todos os dias, após cumprir duas jornadas de trabalho, eu voltava pra casa cansado e, quando abria a porta, encontrava um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelos “MIAU MIAU” da minha gatinha (a Fufu) e pelo som da televisão, que eu ligava com o único intuito de fazer barulho e trazer um pouco de vida para aquele ambiente melancólico. Procurei um psicólogo e tentei tocar a vida, mas a minha força de vontade durou apenas duas semanas: diante de seguidas negativas da minha ex-esposa em reatar a reação, cogitei ir dar um abraço no Chester, e foi por muito pouco que eu escapei do pior.

Lembro perfeitamente da sensação. Era sábado e eu iria sair à noite para um showzinho com um amigo. Lavei roupa, limpei a casa, fiz compras, me arrumei e saí. Aí meu amigo me mandou mensagem relatando um imprevisto e cancelando a saída. Aí começou a chover. Eu estava de moto, caras: fiquei COMPLETAMENTE encharcado e com frio. Liguei para a ex: mais um fora. Voltei a dirigir e passei ao lado de um caminhão. Pronto, era só dar um leve toque no guidão para a direita e… hasta la vista, baby! Não sei ao certo de onde tirei forças para não fazer o pior, mas o fato é que eu apenas dei um grito de desespero, me recompus e toquei a moto até a casa da minha vó, que me recebeu com uma xícara de café e um colo afetuoso.

Nasce uma Estrela - Cena

*Os dias passaram e o espírito oscilou. Vi o céu e o inferno, vi pessoas (algumas delas saídas diretamente do inferno), vi shows, perdi 5kg, joguei videogame, dei conselhos genéricos para um amigo que me procurou para dizer que estava com depressão, saí para correr e bebi. Bebi muito. Num determinado dia, bêbado, liguei novamente pra ela: outro fora? Sim, o quarto. Percebendo que eu estava caminhando a passos largos para outro momento de desespero, decidi tentar algo inédito: procurei uma religião. Eu, que até então me declarava agnóstico, entrei todo vergonhoso em um centro espírita e sentei num banquinho, lá no fundo da sala, e esperei que alguém viesse, sei lá, me “atender”. Enquanto esperava, decidi fechar os olhos e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Depois disso, veio a limpeza: senti alívio, mas também senti agonia, daí chorei, chorei muito. Conversaram comigo, me aconselharam, me deram o “passe” e um livro do Evangelho Segundo o Espiritismo caso eu quisesse estudar a doutrina.

Muita coisa aconteceu depois disso e, se nem todas foram boas, ao menos todas foram feitas de forma consciente. Quando reconheci minha incapacidade de lidar sozinho com minhas angústias e busquei amparo espiritual, consegui olhar para mim mesmo e ver o quão cheio de defeitos eu sou. É claro que ninguém muda de um dia para o outro e eu não serei hipócrita de dizer que “me converti” à doutrina, mas o simples fato de ir ao encontro daquelas pessoas uma vez por semana e, principalmente, “rezar” à noite e prestar contas das minhas faltas para Deus (ou para a minha própria consciência) me ajudou a ficar longe de muita coisa errada e improdutiva. Essa mudança foi concreta, foi real.

Nasce uma Estrela - Cena 3

Coincidência ou não, depois que decidi ter fé, amor próprio e me respeitar mais, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Voltei a escrever, resolvi alguns problemas financeiros antigos e… ela apareceu. Saímos, conversamos e tomamos água. Num outro dia, saímos e conversamos de novo, mas aí tomamos vinho. Na terceira vez, convite dela, fomos ao cinema ver esse Nasce Uma Estrela. Foi ali, num lugar que frequentamos centenas de vezes ao longo do nosso relacionamento, que a mágica aconteceu. Antes de fechar esta parte da catarse, porém, faço uma pequena pausa para falar do filme (finalmente!).

Nasce Uma Estrela é a versão do ator e diretor Bradley Cooper para uma história que Hollywood já contou 3 vezes (1937, 1954 e 1976). Acabei de colocar a versão de 1954 para download e, daqui algum tempo, vejo e digo para vocês quais são as semelhanças entre os longas, mas por ora vamos com esse lançamento. Jack (Cooper) é um cantor de country/blues (ou seja lá qual estilo seja aquele rs) famoso e talentoso. Entre um show e outro, porém, Jack dá muito trabalho para seu irmão e empresário, Bobby (Sam Elliot). Jack é alcoólatra, e é a necessidade de encher a cara que leva-o até uma boate GLS na qual ele vê uma desconhecida cantar. Ally (Lady Gaga) tem a voz de um anjo e a performance de palco de uma diva, mas a insegurança com a própria aparência impede-a de voar mais alto. O alcoólatra e a introvertida aproximam-se e se completam, e o poder das músicas que eles compõe daí em diante só compara-se ao inevitável abismo que a fama e as brigas constantes cria entre eles.

Nasce uma Estrela - Cena 4

Tecnicamente, é difícil olhar para Nasce uma Estrela e dizer que ele é o produto do debut de um diretor. Os bons enquadramentos, a fotografia (tentem reparar em uma cena onde a lateral do ônibus de Jack mistura-se com o por-do-sol) e o ritmo da trama remetem a trabalhos de mestres como Clint Eastwood. Parabéns para o Bradley Cooper. E, claro, temos o som também. O filme não chega a ser um musical daqueles onde, “do nada”, os atores começam a dançar e a cantar, mas eles cantam sim, e quando isso acontece dá vontade de bater cabeça com os riffs selvagens da guitarra de Jack ou encolher-se em posição fetal na cadeira e chorar com as interpretações poderosas de Ally. O IMDB diz que as músicas foram gravadas ao vivo, e é realmente esta a sensação que se tem, pois o som está alto e visceral tal qual o de um bom show. Gostei tanto de faixas como Shallow, Black Eyes e I’ll Never Love Again que acabei baixando a trilha sonora completa.

Jack é autodestrutivo e isso faz com que ele vá afundando-se aos poucos ao longo da trama até que, no clímax, ele comete suicídio. Essa cena é MUITO pesada e precisa ser vista com certa parcimônia, visto que o ato é um pouco romantizado por sua consequência: Jack decide dar cabo de si mesmo para aliviar o fardo de Ally, cuja carreira solo patinou devido aos escândalos públicos do marido com drogas e álcool. SUICÍDIO NÃO É OPÇÃO: PODE E DEVE SER EVITADO. Todo caso, é difícil conter as lágrimas na ultima cena, quando Gaga empresta seu vozeirão para Ally homenagear o esposo falecido numa apresentação cheia de emoção, e a sensação que a gente tem quando os créditos sobem é a de que vivenciamos uma experiência incrivelmente poderosa e intimista.

Nasce uma Estrela - Cena 5

E foi assim, com o rosto molhado de lágrimas e abraçado com a pessoa que eu conheci em 2010 e me casei em 2013, que terminei de assistir Nasce uma Estrela. Fui tomado por uma alegria sem precedentes e agradeci a Deus por, no meu momento de desespero naquele sábado chuvoso, ter me acalmado e me guiado para fora daquela escuridão. Hoje, só me interessa reforçar meus votos e reconstruir minha família. Obrigado por deixar a porta aberta, Rê. “Nós estamos longe do que é raso agora”

Este seria um fim perfeito para esta resenha, mas infelizmente ainda tem mais. Um dia após o cinema, recebi a notícia que um amigo cometeu suicídio. Se vocês puderem, voltem o texto e releiam o parágrafo onde eu disse que um alguém me procurou para dizer que estava com depressão (eu coloquei um * no início para facilitar). No olho da tempestade, até tentei apoiar, mas não encontrei forças. Aqui, não trata-se de assumir responsabilidades pelas decisões dos outros, visto que todos tem livre arbítrio, mas está difícil não pensar que eu poderia ter feito mais, falado mais, ouvido mais. Eu falhei. Perder o Chester (e o Chris Cornell), pelo amor que eu tinha ao trabalho deles, foi doloroso, mas perder esse amigo… aquele cara legal que parecia o Rob Thomas do Matchbox Twenty (foi a primeira coisa que eu falei pra ele), que gostava de cerveja preta e do Misfits, o cara que saiu lá de Florianópolis para me embebedar de Bacardi no dia do meu casamento… isso foi como perder um pedaço de mim e da minha história de vida.

Escrevi este texto como um aviso para mim mesmo. De quando em quando, voltarei aqui para lembrar dessa fase da minha vida, porque não quero esquecer e não quero repetir. Aproveito o espaço e o coração aberto, porém, para dirigir-lhe estas últimas palavras, meu querido amigo: esteja você onde estiver, me perdoe! Naquele momento, eu lhe dei tudo o que eu tinha, mas sei que foi pouco! Te juro que eu queria ter feito mais por você! Você estava longe, em outro estado, mas eu deveria ter ido aí, olhado nos seus olhos e lhe dito o quão foda você era! Eu acreditei, cara, me resignei e tive fé e a vida sorriu pra mim… é muito doloroso pensar que você não conseguiu forças para fazer o mesmo! Te prometo, em respeito a sua memória, viver a minha ao máximo daqui pra frente e nunca, nunca mais, me oferecer pela metade para alguém que se abra comigo. Faço-te esta promessa: farei-me porto seguro para quem precisar de mim, ouvirei e dedicarei tempo, como forma de homenagear sua memória e transformar o seu exemplo em algo construtivo.

Descanse em paz, meu querido, nos encontramos em outra oportunidade! “O estimado para 5 fora é aos…”

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Getúlio (2014)

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GetúlioO quarto bimestre do calendário letivo de 2018 começou e, após aprenderem sobre os governos totalitários europeus e a Segunda Guerra Mundial, chegou a hora dos meus alunos do 3º ano do ensino médio voltarem-se para a história de seu próprio país para conhecerem o controverso Getúlio Vargas. Como gosto de aliar o tradicional “quadro/saliva” com outros tipos de mídia (há 2 anos uso um retroprojetor para filmes, textos e músicas), assisti Getúlio para selecionar alguma cena de peso para mostrar pra galera, visto que a aula de 45 minutos dificilmente permite a exibição de um longa completo.

Este filme, que foi produzido pela Globo filmes e que está disponível no catálogo da Netflix (checado 16/10/18), dá conta dos últimos dias do governo eleito de Getúlio (Tony Ramos), que foi de 1951 até 1954. Enfraquecido e pressionado a renunciar após o atentado da Rua Tonelero, episódio em que balearam seu principal opositor, o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), e mataram Rubens Florentino Vaz, major da FAB, o presidente cometeu suicídio na madrugada de 24 de agosto de 1954. Getúlio, que é assinado pelo diretor João Jardim, triunfa ao recriar com maestria o cenário de um dos momentos mais emblemáticos do Brasil republicano, mas o destaque mesmo é a abordagem do conflito psicológico do ex-ditador que “saiu da vida para entrar na história” num ato extremo para desvencilhar-se da imagem de caudilho.

Em linhas gerais (e com a profundidade que uma resenha de filme permite), a história nos conta que, após perder as eleições de 1930 para o paulista Júlio Prestes, Getúlio e os membros da Aliança Liberal (mineiros, militares do Movimento Tenentista e o paraibano João Pessoa) tomaram o poder através de um golpe militar. Este ato ficou conhecido como Revolução de 30 devido ao rompimento com a política do Café com Leite (esquema baseado em eleições viciadas e fraudulentas que elegia, alternadamente, candidatos de São Paulo e Minas), mas é fato que Getúlio não chegou ao poder através das vias legais. Governou de forma “provisória” até 1934 (enfrentando e vencendo o Movimento Constitucionalista em 1932), quando aprovou uma nova Constituição e foi eleito presidente de forma indireta. Em 1937, a divulgação do famigerado Plano Cohen (comunistas, caras!) criou o ambiente para um novo golpe e uma nova Constituição: nasceu assim o Estado Novo, governo autoritário de Getúlio, que subjugou o legislativo e o judiciário ao executivo, retirou direitos individuais (direito de greve), fechou partidos políticos e estabeleceu a pena de morte. O fim da Segunda Guerra e o apelo à democracia fizeram Getúlio renunciar ao cargo de presidente em 1945, o que pôs fim ao Estado Novo e levou ao poder, através de eleições diretas, o General Eurico Gaspar Dutra. Tivemos então uma nova Constituição, em 1946 e, nas eleições de 1950, Getúlio chega à presidência de forma democrática pela primeira, ao vencer o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes. Foram anos de fogo.

Getúlio - Cena

O último parágrafo, além de um exercício pessoal de síntese (professor nunca para de aprender), também é uma importante contextualização para entender o que é mostrado em Getúlio, visto que o diretor João Jardim já começa o filme no atentado contra Carlos Lacerda, valendo-se apenas de um rápido monólogo do presidente para resgatar sua trajetória até o cargo. O atentado, aliás, é mostrado da mesma forma que a história o registra: de forma obscura. Consta oficialmente que, no dia 5 de agosto de 1954, um homem feriu Carlos Lacerda com um tiro no pé e assassinou um major da FAB na rua Tonelero. Este homem seria Alcino João Nascimento, membro da guarda pessoal de Getúlio (a chamada Guarda Negra). Se até hoje existem dúvidas sobre o que realmente aconteceu ali (há especulações de que Lacerda, além de não ter sido ferido, matou o major), não é aqui que elas são sanadas: a cena do atentado é escura, confusa, com cortes abruptos e muita, muita correria e gritaria. Ao meu ver, o diretor acertou nessa.

Getúlio - Cena 3

O que vem na sequência, porém, é mais factual: Lacerda, que já atacava diariamente Getúlio, ganhou força após o atentado e ditou o tom do Inquérito Policial Militar que conduziu as investigações: Vargas, que não tinha controle nem mesmo sobre sua guarda pessoal, não tinha mais condições de governar, restando a ele apenas a saída “honrosa” da renúncia em nome do bem e da ordem nacional. Não acho que, fisicamente, o Tony Ramos tenha sido uma boa escolha para o papel. Não olho para ele e lembro do Getúlio. É inegável, porém, que o ator encarnou bem o político: o gestual está fantástico e aqueles longos silêncios contemplativos captam muitíssimo bem o tal conflito psicológico ao qual eu me referi anteriormente. Getúlio SABIA que, assim como fizera no passado, ele poderia ter silenciado Lacerda, Eduardo Gomes e seus demais opositores com o uso da força, mas o desejo de afastar-se da imagem de ditador fez com que ele se calasse e deixasse que o povo falasse por ele, tanto na comoção que tomou as ruas do país em seu funeral quanto nas eleições seguintes, onde seus adversários, mais uma vez, foram derrotados por um de seus “herdeiros políticos”, Juscelino Kubitschek.

Aos alunos, pretendo apresentar a cena do suicídio. É um momento visual e emocionalmente impactante e que, em 2018, ainda pode ser sentido de várias formas. A mais direta, lógico, é na sempre válida visita ao Palácio do Catete no Rio de Janeiro, “casa” do presidente que ainda conserva o cenário da morte de Vargas (pijama com mancha de sangue, a cama e a arma usada). A outra, está no nosso dia a dia, ao alcance de um click em qualquer rede social: entre atentados, conspirações, corrupção, discursos de ódio, oposição “auto-sabotagem” e golpes militares, continuamos construindo a história do nosso país. Glória!? Glória a Deux!

Getúlio - Cena 2

Audição (1999)

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AudiçãoAudição tem pedigree. Numa entrevista sobre filmes das décadas de 90/10, o diretor Quentin Tarantino referiu-se a ele como “uma verdadeira obra prima” do período. O também diretor e músico Rob Zombie disse que Audição é “o filme de terror mais assustador e inquietante que ele já assistiu”. Pra quem não for capaz de ligar “o nome aos bois”, temos aí duas das maiores autoridades em sanguinolência/podreira cinematográfica contemporâneas elogiando o trabalho do diretor japonês Takashi Miike. Obrigatório ver, né?

Coloquei o filme pra rodar ontem a tarde e, vencida a primeira metade, fiquei sem entender o porque do mesmo ser classificado como terror. Pausei, saí, tomei sustos reais com as filas pra comprar cerveja de um festival local (média de 40min pra pegar um copo) e hoje à tarde terminei de assistir. Já tem bem umas 5 horas que os créditos finais subiram e meu estômago ainda está embrulhado. O texto conterá SPOILERS.

Eis o roteiro: Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi) é um homem de meia idade que vê-se sozinho com um filho para criar após o falecimento de sua esposa. Anos depois, respeitado o luto e com o filho já adolescente, Shigeharu decide que é hora de encontrar uma nova companheira. Para tal, um amigo da indústria do cinema convida-o para ajuda-lo em uma audição para um filme, oportunidade onde várias moças apresentam-se aos entrevistadores em busca de um papel. É nesse cenário que o personagem conhece a bela e misteriosa Asami Yamazaki (Eihi Shiina).

Até o temporizador contabilizar os primeiros 60 minutos (de um total de 01h55min), Audição é um drama/romance com pitadas de humor. A sequência que mostra as entrevistas das moças, por exemplo, foi montada de forma a nos fazer rir com as bizarrices das candidatas, fórmula que programas de auditório como o “Ídolos” sempre utilizam em seus inícios de temporada. Depois disso, resta a fofura do amor de Shigeharu por Asami. O cara, um cinquentão, fica todo nervoso quando está perto da personagem, faz planos de futuro com ela e sofre ao lado do telefone, contendo-se para não ligar de minuto em minuto. Asami, que revela-se uma pessoa solitária, também mostra-se interessada em um relacionamento, logo vemos sorrisos, olhares sonhadores e passeios de mãos dadas. Esse clima leve dura até o momento…

Audição - Cena 2

…. em que o diretor Takashi Miike nos mostra Asami sentada no chão, descabelada e com a coluna completamente curvada, olhando obsessivamente para o telefone. “Mas que diabos é isso?” Em sua “segunda parte”, Audição explora o passado de Asami para revelar uma história tenebrosa de abuso físico e psicológico. Criada no seio de uma família disfuncional, a infância da personagem foi marcada por barbáries como ter suas pernas marcadas com ferro quente por um padrasto doentio. Não é à toa que, adulta, Asami mente quando perguntada sobre seus parentes e demonstra preocupação sobre as intenções de Shigeharu com ela.

Todo caso, não é só a exposição do passado de Asami que deixa a gente chocado. A coisa é feia, mas lá no começo eu disse que fiquei com o estômago embrulhado. No primeiro parágrafo, aliás, eu também disse que Audição foi elogiado pelo Tarantino, e é nos últimos minutos do longa que eu entendi o porque dessa admiração: temos aqui uma história clássica de vingança, tema favorito do diretor de Kill Bill e Django Livre. Shigeharu e Asami hospedam-se em um hotel. Conversa vai, conversa vem, ela tira a roupa e decide entregar-se ao sujeito. O que acontece em seguida é deveras confuso, porque a gente não sabe ao certo se trata-se de um sonho ou de realidade (é preciso ver o filme para entender esta dúvida), mas é violento o suficiente pra fazer a gente contorcer-se na cadeira e querer tirar os olhos da tela de 5 em 5 segundos.

Audição - Cena

Shigeharu é um senhor legal em busca de um amor? Sim, mas ele também é um velho safado que valeu-se de um ambiente podre para selecionar uma esposa. Podre? Sim, de engraçado as tais audições não tem nada: mulheres humilham-se diante de homens indiferentes aos seus sonhos, homens que estão mais interessados em seus corpos do que em seus talentos. Shigeharu até interessa-se por Asami devido a tragicidade de sua história, mas ele também seleciona-a por sua beleza, juventude e mansidão. Essa mudança de ponto de vista do relacionamento do casal culmina na vingança de Asami, que realiza um acerto de contas com o passado e faz de Shigeharu um exemplo para os outros homens que tratam mulheres como objeto.

Audição - Cena 4

“No fundo, bem lá fundo” e “Esse arame pode cortar carne e osso facilmente” são duas frases que eu demorarei um bom tempo para esquecer. O que Asami faz com Shigeharu (ou que ele sonha que ela faz, não importa) é explícito demais, perturbador demais. Pra piorar, enquanto joga sangue na nossa cara, o diretor Takashi Miike coloca Asami no centro da tela, com um sorriso demoníaco de criança arteira, sussurrando e explicando o passo a passo de sua tortura. “Você não poder ir a lugar algum sem os pés”. Puta que pariu!

Tenho que concordar com o Tarantino: dentro do que esse propõe, Audição é realmente uma obra-prima. Fora a angústia absoluta que a última cena é capaz de provocar, bato palmas também para a engenhosidade do roteiro, que consegue nos mostrar pontos de vista distintos sobre a relação dos personagens e que transita bem entre gêneros tão díspares como romance e terror. Recomendadíssimo.

Obs.1: Não assistam depois do almoço. É sério.

Obs.2: O clipe Honey, This Mirror Isn’t Big Enough for the Two of Us do My Chemical Romance é baseado no roteiro de Audição.

Audição - Cena 3

Venom (2018)

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Venom“Honesto”, eis a melhor palavra para definir Venom. Se fosse para dar uma nota, seria “7/10”. E o que isso quer dizer? Quer dizer que o filme poderia ser melhor (e abaixo explicarei o porquê), mas também significa que o diretor Ruben Fleischer realizou um bom trabalho, distanciando-se de produções como Quarteto Fantástico, X-Men: O Confronto Final e Homem Aranha 3, conhecidos desastres protagonizados por personagens da Marvel quando tratados por mãos alheias. Antes do bate e assopra, porém, vamos à sinopse.

Regressando à terra, uma nave espacial sofre um acidente pouco antes de reentrar na atmosfera. Os destroços do veículo caem na Malásia, e a investigação, que é conduzida sigilosamente pela empresa Fundação Vida, revela que parte do conteúdo transportado foi perdido. E não trata-se de um conteúdo qualquer: a mando do presidente da fundação, o visionário/lunático Carlton Drake (Riz Ahmed), a tripulação estava transportando simbiontes, formas de vida alienígena que o empresário pretendia utilizar em seu projeto de desbravamento espacial.

Paralelamente ao acidente, conhecemos Eddie Brock (Tom Hardy), repórter investigativo que ganha a vida revelando ao mundo a faceta podre da cidade norte-americana de São Francisco. Em sua busca pela verdade, Eddie apresenta poucos escrúpulos, e é assim que ele invade o computador de sua própria noiva, a advogada Anne Weying (Michelle Williams), e descobre informações assustadoras sobre a Fundação Vida: ao que tudo indica, a empresa está ocultando a morte de seres humanos que foram utilizados em testes obscuros. Eddie confronta Carlton Drake e perde: além do presidente valer-se de sua influência para fazê-lo ser demitido, Eddie é abandonado por Anne, que sente-se traída no caso do computador. Pobre Eddie.

E o pobre, no caso, também tem sentido literal: sem emprego e sem mulher, o cara passa a viver na pior, morando num muquifo e tendo seu currículo recusado por todos os jornais da cidade. Pausa para um elogio: não que isso seja novidade para alguém, mas o Tom Hardy mostra nessa parte inicial da história o porque de ele ser um dos grandes nomes de sua geração. É impressionante o quanto ele transita bem entre o drama e o humor inerentes ao fundo do poço que Eddie encontra-se, fora que o preparo físico do cara continua invejável. Voltando, o link para a ação acontece quando Eddie é procurado por uma funcionária da Fundação Vida, que convence-o a vasculhar o local em busca de pistas que possam incriminar Carlton Drake. Durante a incursão, Eddie é “contaminado” por um simbionte, adquirindo poderes sobre-humanos mas perdendo parte de sua autonomia para a entidade alienígena autodenominada Venom.

Venom - Cena

Venom divide-se claramente em 2 partes, uma séria e uma de pancadaria pura, com a aparição do protagonista (uma belezura em CGI) como divisor de águas. Da primeira, não há o que reclamar: os diálogos são bons, o humor está bem dosado e o Tom Hardy, conforme dito, está tinindo. A introdução, resumindo, foi muitíssimo bem executada, tanto na apresentação dos personagens quanto na criação de um clima para a história, que é majoritariamente noturna e numa pegada investigativa. Já a parte “POW BANG ZAPT” merece algumas ressalvas, a começar pela mudança de tom.

É sabido que um dos maiores trunfos da Marvel no cinema é o humor. No meio de um diálogo e outro, uma cena engraçadinha pra fazer a gente rir. Eu gosto. Venom peca nesse aspecto não pelo exagero, mas pela distribuição estranha. Depois que o simbionte aparece, o volume cresce exponencialmente. De certa forma, isso faz com que o clima mais “adulto” construído durante a introdução perca-se rapidamente. Outro problema trazido pelo início da pancadaria é a simplificação excessiva de pontos centrais do roteiro, sendo que a mais significativa é a motivação do Venom para, digamos, optar por ficar na Terra e, de uma forma bastante pessoal, combater o mal. É muito repentino e pouco convincente.

Venom (2018)

As cenas de ação são bastante criativas. Fora aquela perseguição de moto que o trailer já havia entregado, há ainda embates menores entre o simbionte e capangas genéricos de Carlton Drake e um “pega pra capar” entre o personagem e o verdadeiro antagonista da trama que o filme revela já próximo ao final. O diretor Ruben Fleischer mostra várias das habilidades de Venom, como poder reconstituir partes do próprio corpo e transformar seus membros e tronco em armas letais. Isso tudo é bem legal, mas o fato do “uniforme” do personagem ser preto/azul escuro, combinado com a ambientação noturna e a edição frenética deixaram o visual bagunçado demais. Já ouviram falar na expressão “briga de foices no escuro”? O desfecho de Venom é tipo isso aí.

Todo caso, comemoremos. A primeira cena pós-crédito (são duas) indicam tanto o início de uma franquia quanto um tom mais sombrio para a continuação. É bom dar risada vendo o Venom atormentar o Eddie Brock? Até é, mas legal mesmo é quando ele ameaça transformar um trombadinha em um “troço sem braços e sem pernas rolando por aí como bosta”. Tomara que sigam por esse rumo.

Venom - Cena 3

Crianças Lobo (2012)

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Crianças LoboCerta vez, o diretor Mamoru Hosoda perguntou para alguém: “E aí, como é criar uma criança?” A resposta, contam, foi encorajadora: “É como se você tivesse um monstro ou um animal selvagem dentro de casa”. É impressionante como as pessoas conseguem nos deixar animados, não é mesmo? 😆 O fato é que, baseando-se nessa conversa, o cara roteirizou este Crianças Lobo, anime que mistura drama e fantasia para contar uma história familiar até bonitinha, mas que peca um pouco no ritmo e na falta de cenas impactantes.

Hana conhece e apaixona-se por um lobisomem. Do amor dos casal, nascem Yuki e Ame. Infelizmente, o tal lobisomem morre logo em seguida, deixando Hana com dois filhos pequenos para cuidar.

Crianças Lobo, conforme é dito logo na abertura, é um filme sobre Hana. Ao contrário de seu amado e de sua prole, Hana não consegue transformar-se em lobo, mas isso não faz dela uma pessoa menos fantástica do que os outros personagens da animação. Ainda criança, ela aprendeu com o pai que, diante de qualquer adversidade, o mais importante era colocar um sorriso no rosto e não desanimar. Assim sendo, quando o seu marido morre (em uma cena extremamente bizarra, diga-se de passagem), Hana opta por resignar-se e criar os filhos da melhor forma possível. A  energia e o amor que ela coloca nessa tarefa é algo muito mais impressionante e sobre-humano do que as transformações caninas de seus familiares.

Crianças Lobo - Cena

O diretor Mamoru Hosoda realizou uma ode a educação infantil, utilizando a parte fantástica do lobisomem para fazer alegorias ao crescimento e formação de personalidade. Ame e Yuki (curiosidade: Chuva e Neve em japonês, respectivamente) são vistos fazendo coisas de crianças normais, como comer demais (e vomitar tudo), chorar, ficar doente, dar os primeiros passos, etc, e coisas “esperadas” de crianças-lobo, como brincar/brigar e, no processo, destruir a casa toda. Novamente, a paciência de Hana com a bagunça provocada por eles é algo invejável, qualquer outra pessoa ficaria louca naquele ambiente. Quando crescem e passam a frequentar a escola, os personagens enfrentam o desafio de terem que escolher entre sua humanidade e seu lado animalesco, visto que o convívio em sociedade não permite o uso de suas “habilidades”. Esse conflito, que acaba opondo Ame e Yuki, não deixa de ser uma representação da escolha que todo adolescente, mais cedo ou mais tarde, precisa tomar: adaptar-se para ser aceito no grupo ou desenvolver, tendo muitas vezes apenas a solidão como companheira, a própria personalidade.

A ideia é boa, o traço do anime é bom e, por já ter trabalhado com educação infantil, eu me interesse pelo tema, mas mesmo assim eu não consegui ficar muito empolgado com Crianças Lobo. Entendo que o amor e a paciência de Hana com os filhos seja uma homenagem as milhares de mães solteiras reais que enfrentam batalhas hercúleas para criarem os filhos sozinhas. Isto posto, sei que seria complicado mostra-la fraquejando e castigando (verbal ou fisicamente) os filhos, mas a formula “sorriso no rosto, custe o que custar” acaba afastando-a demais do mundo real, tornando difícil exercitar a empatia. Numa determinada cena, por exemplo, Ame e Yuki destroem TODA a casa após uma discussão relativamente boba. Hana apenas sorri. O “lobo” que eu lembrei nesse momento, com o perdão da referência tosca, foi o “lobotomizado”.

Crianças Lobo - Cena 2

Temos, portanto, uma animação em que o grosso do tempo é investido em cenas de cotidiano voltadas a 1) mostrar o desenvolvimento das crianças 2) enaltecer as qualidades maternas de Hana. O segundo ponto, conforme opinado no parágrafo anterior, eu achei exagerado. O primeiro é até legal e bem feito, chegando ao nível de ser até mesmo didático para quem quer saber como é cuidar de uma criança (lembrando: é como ter um monstro ou animal selvagem dentro de casa), mas as quase 2 horas do filme acabam fatalmente tornando enfadonhas coisas como Hana amamentando ou desdobrando-se para que as crianças não derrubem os armários.

A cena final, que poderia render um conteúdo emocionalmente mais carregado, acaba transformando-se em um anticlímax devido a sutilidade usada por Hosoda. Por outro lado, fica uma dica: caso vocês assistam, não deixem de ver os créditos finais. Com uma música bonitinha tocando ao fundo, o diretor fez uma compilação das melhores cenas do anime, material que acaba sendo melhor e mais empolgante do que o próprio filme em si 😆

Crianças Lobo - Cena 3