Arquivo da categoria: Romance

Nasce uma Estrela (2018)

Padrão

Nasce uma EstrelaDe: Lucian, 23/10/18

Para: Lucian, para relembrar, para nunca esquecer

Este é um texto pessoal, longo e cheio de spoilers. É uma carta pra mim mesmo, que compartilho com você com uma única condição: não julgue 🙂

Ano passado, este blog morreu junto com o Chester Bennington, ex vocalista do Linkin Park. Em minha confusa, trôpega e sincera nota de despedida, eu reuni forças para reconhecer que o meu coração não estava mais aqui. Resumidamente, eu assistia um filme e, no lugar de me divertir e/ou aprender com a história, eu me sentia culpado. Culpado? Sim, caras. Sofri com inúmeros bloqueios criativos oriundos de uma rotina cansativa e estressante. Para vocês terem ideia, eu passei cerca de 3 dias tentando escrever, sem sucesso, a resenha do Homem Aranha – De Volta Ao Lar. Não saiu. Fui ao cinema, revi o filme, voltei para o computador e… nada. A sensação perturbadora de que eu “não tinha mais nada a dizer” cresceu dentro de mim, e foi aí que o Chester se foi. Eu fiquei assustado.

Há, claro, a tristeza e a incredulidade do fã que perde o ídolo. Ainda acho complicado acreditar que nunca mais ouvirei a voz do vocalista em uma música nova. O mais difícil, porém, foi enxergar-me na tragédia daquele ser humano, um homem que gritava (e como gritava!) com seus demônios (no caso, coisas tenebrosas envolvendo abuso sexual e vício em drogas) e que foi vencido por eles. Perguntei-me: se até ele, o poderoso frontman de uma das bandas mais bem sucedidas do milênio, não conseguiu suportar o fardo, o que sobraria pra mim, menino chinfrim que vez ou outra reclamava da vida em um blog obscuro de cinema? A gente sente-se pequeno demais quando testemunha um gigante cair. Foi por isso que parei de escrever: para alcançar minha própria sanidade mental e evitar o colapso, eu precisava descansar a cabeça e investir meu pouco tempo livre em atividades simples e prazerosas. Parei, e até que no começo foi bom.

Nasce uma Estrela - Cena 6

Depois da tempestade, porém, veio mais tempestade, e foi das brabas. Além de não conseguir investir meu tempo ocioso em coisas legais e produtivas, eu me endividei e vi o meu casamento de mais de 4 anos acabar no meio de um turbilhão de mentiras, decepções e ressentimentos. Vi-me sozinho, amparado pela família e por alguns poucos amigos, é verdade, mas sozinho. Todos os dias, após cumprir duas jornadas de trabalho, eu voltava pra casa cansado e, quando abria a porta, encontrava um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelos “MIAU MIAU” da minha gatinha (a Fufu) e pelo som da televisão, que eu ligava com o único intuito de fazer barulho e trazer um pouco de vida para aquele ambiente melancólico. Procurei um psicólogo e tentei tocar a vida, mas a minha força de vontade durou apenas duas semanas: diante de seguidas negativas da minha ex-esposa em reatar a reação, cogitei ir dar um abraço no Chester, e foi por muito pouco que eu escapei do pior.

Lembro perfeitamente da sensação. Era sábado e eu iria sair à noite para um showzinho com um amigo. Lavei roupa, limpei a casa, fiz compras, me arrumei e saí. Aí meu amigo me mandou mensagem relatando um imprevisto e cancelando a saída. Aí começou a chover. Eu estava de moto, caras: fiquei COMPLETAMENTE encharcado e com frio. Liguei para a ex: mais um fora. Voltei a dirigir e passei ao lado de um caminhão. Pronto, era só dar um leve toque no guidão para a direita e… hasta la vista, baby! Não sei ao certo de onde tirei forças para não fazer o pior, mas o fato é que eu apenas dei um grito de desespero, me recompus e toquei a moto até a casa da minha vó, que me recebeu com uma xícara de café e um colo afetuoso.

Nasce uma Estrela - Cena

*Os dias passaram e o espírito oscilou. Vi o céu e o inferno, vi pessoas (algumas delas saídas diretamente do inferno), vi shows, perdi 5kg, joguei videogame, dei conselhos genéricos para um amigo que me procurou para dizer que estava com depressão, saí para correr e bebi. Bebi muito. Num determinado dia, bêbado, liguei novamente pra ela: outro fora? Sim, o quarto. Percebendo que eu estava caminhando a passos largos para outro momento de desespero, decidi tentar algo inédito: procurei uma religião. Eu, que até então me declarava agnóstico, entrei todo vergonhoso em um centro espírita e sentei num banquinho, lá no fundo da sala, e esperei que alguém viesse, sei lá, me “atender”. Enquanto esperava, decidi fechar os olhos e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Depois disso, veio a limpeza: senti alívio, mas também senti agonia, daí chorei, chorei muito. Conversaram comigo, me aconselharam, me deram o “passe” e um livro do Evangelho Segundo o Espiritismo caso eu quisesse estudar a doutrina.

Muita coisa aconteceu depois disso e, se nem todas foram boas, ao menos todas foram feitas de forma consciente. Quando reconheci minha incapacidade de lidar sozinho com minhas angústias e busquei amparo espiritual, consegui olhar para mim mesmo e ver o quão cheio de defeitos eu sou. É claro que ninguém muda de um dia para o outro e eu não serei hipócrita de dizer que “me converti” à doutrina, mas o simples fato de ir ao encontro daquelas pessoas uma vez por semana e, principalmente, “rezar” à noite e prestar contas das minhas faltas para Deus (ou para a minha própria consciência) me ajudou a ficar longe de muita coisa errada e improdutiva. Essa mudança foi concreta, foi real.

Nasce uma Estrela - Cena 3

Coincidência ou não, depois que decidi ter fé, amor próprio e me respeitar mais, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Voltei a escrever, resolvi alguns problemas financeiros antigos e… ela apareceu. Saímos, conversamos e tomamos água. Num outro dia, saímos e conversamos de novo, mas aí tomamos vinho. Na terceira vez, convite dela, fomos ao cinema ver esse Nasce Uma Estrela. Foi ali, num lugar que frequentamos centenas de vezes ao longo do nosso relacionamento, que a mágica aconteceu. Antes de fechar esta parte da catarse, porém, faço uma pequena pausa para falar do filme (finalmente!).

Nasce Uma Estrela é a versão do ator e diretor Bradley Cooper para uma história que Hollywood já contou 3 vezes (1937, 1954 e 1976). Acabei de colocar a versão de 1954 para download e, daqui algum tempo, vejo e digo para vocês quais são as semelhanças entre os longas, mas por ora vamos com esse lançamento. Jack (Cooper) é um cantor de country/blues (ou seja lá qual estilo seja aquele rs) famoso e talentoso. Entre um show e outro, porém, Jack dá muito trabalho para seu irmão e empresário, Bobby (Sam Elliot). Jack é alcoólatra, e é a necessidade de encher a cara que leva-o até uma boate GLS na qual ele vê uma desconhecida cantar. Ally (Lady Gaga) tem a voz de um anjo e a performance de palco de uma diva, mas a insegurança com a própria aparência impede-a de voar mais alto. O alcoólatra e a introvertida aproximam-se e se completam, e o poder das músicas que eles compõe daí em diante só compara-se ao inevitável abismo que a fama e as brigas constantes cria entre eles.

Nasce uma Estrela - Cena 4

Tecnicamente, é difícil olhar para Nasce uma Estrela e dizer que ele é o produto do debut de um diretor. Os bons enquadramentos, a fotografia (tentem reparar em uma cena onde a lateral do ônibus de Jack mistura-se com o por-do-sol) e o ritmo da trama remetem a trabalhos de mestres como Clint Eastwood. Parabéns para o Bradley Cooper. E, claro, temos o som também. O filme não chega a ser um musical daqueles onde, “do nada”, os atores começam a dançar e a cantar, mas eles cantam sim, e quando isso acontece dá vontade de bater cabeça com os riffs selvagens da guitarra de Jack ou encolher-se em posição fetal na cadeira e chorar com as interpretações poderosas de Ally. O IMDB diz que as músicas foram gravadas ao vivo, e é realmente esta a sensação que se tem, pois o som está alto e visceral tal qual o de um bom show. Gostei tanto de faixas como Shallow, Black Eyes e I’ll Never Love Again que acabei baixando a trilha sonora completa.

Jack é autodestrutivo e isso faz com que ele vá afundando-se aos poucos ao longo da trama até que, no clímax, ele comete suicídio. Essa cena é MUITO pesada e precisa ser vista com certa parcimônia, visto que o ato é um pouco romantizado por sua consequência: Jack decide dar cabo de si mesmo para aliviar o fardo de Ally, cuja carreira solo patinou devido aos escândalos públicos do marido com drogas e álcool. SUICÍDIO NÃO É OPÇÃO: PODE E DEVE SER EVITADO. Todo caso, é difícil conter as lágrimas na ultima cena, quando Gaga empresta seu vozeirão para Ally homenagear o esposo falecido numa apresentação cheia de emoção, e a sensação que a gente tem quando os créditos sobem é a de que vivenciamos uma experiência incrivelmente poderosa e intimista.

Nasce uma Estrela - Cena 5

E foi assim, com o rosto molhado de lágrimas e abraçado com a pessoa que eu conheci em 2010 e me casei em 2013, que terminei de assistir Nasce uma Estrela. Fui tomado por uma alegria sem precedentes e agradeci a Deus por, no meu momento de desespero naquele sábado chuvoso, ter me acalmado e me guiado para fora daquela escuridão. Hoje, só me interessa reforçar meus votos e reconstruir minha família. Obrigado por deixar a porta aberta, Rê. “Nós estamos longe do que é raso agora”

Este seria um fim perfeito para esta resenha, mas infelizmente ainda tem mais. Um dia após o cinema, recebi a notícia que um amigo cometeu suicídio. Se vocês puderem, voltem o texto e releiam o parágrafo onde eu disse que um alguém me procurou para dizer que estava com depressão (eu coloquei um * no início para facilitar). No olho da tempestade, até tentei apoiar, mas não encontrei forças. Aqui, não trata-se de assumir responsabilidades pelas decisões dos outros, visto que todos tem livre arbítrio, mas está difícil não pensar que eu poderia ter feito mais, falado mais, ouvido mais. Eu falhei. Perder o Chester (e o Chris Cornell), pelo amor que eu tinha ao trabalho deles, foi doloroso, mas perder esse amigo… aquele cara legal que parecia o Rob Thomas do Matchbox Twenty (foi a primeira coisa que eu falei pra ele), que gostava de cerveja preta e do Misfits, o cara que saiu lá de Florianópolis para me embebedar de Bacardi no dia do meu casamento… isso foi como perder um pedaço de mim e da minha história de vida.

Escrevi este texto como um aviso para mim mesmo. De quando em quando, voltarei aqui para lembrar dessa fase da minha vida, porque não quero esquecer e não quero repetir. Aproveito o espaço e o coração aberto, porém, para dirigir-lhe estas últimas palavras, meu querido amigo: esteja você onde estiver, me perdoe! Naquele momento, eu lhe dei tudo o que eu tinha, mas sei que foi pouco! Te juro que eu queria ter feito mais por você! Você estava longe, em outro estado, mas eu deveria ter ido aí, olhado nos seus olhos e lhe dito o quão foda você era! Eu acreditei, cara, me resignei e tive fé e a vida sorriu pra mim… é muito doloroso pensar que você não conseguiu forças para fazer o mesmo! Te prometo, em respeito a sua memória, viver a minha ao máximo daqui pra frente e nunca, nunca mais, me oferecer pela metade para alguém que se abra comigo. Faço-te esta promessa: farei-me porto seguro para quem precisar de mim, ouvirei e dedicarei tempo, como forma de homenagear sua memória e transformar o seu exemplo em algo construtivo.

Descanse em paz, meu querido, nos encontramos em outra oportunidade! “O estimado para 5 fora é aos…”

Nasce uma Estrela - Cena 2.jpg

Anúncios

Audição (1999)

Padrão

AudiçãoAudição tem pedigree. Numa entrevista sobre filmes das décadas de 90/10, o diretor Quentin Tarantino referiu-se a ele como “uma verdadeira obra prima” do período. O também diretor e músico Rob Zombie disse que Audição é “o filme de terror mais assustador e inquietante que ele já assistiu”. Pra quem não for capaz de ligar “o nome aos bois”, temos aí duas das maiores autoridades em sanguinolência/podreira cinematográfica contemporâneas elogiando o trabalho do diretor japonês Takashi Miike. Obrigatório ver, né?

Coloquei o filme pra rodar ontem a tarde e, vencida a primeira metade, fiquei sem entender o porque do mesmo ser classificado como terror. Pausei, saí, tomei sustos reais com as filas pra comprar cerveja de um festival local (média de 40min pra pegar um copo) e hoje à tarde terminei de assistir. Já tem bem umas 5 horas que os créditos finais subiram e meu estômago ainda está embrulhado. O texto conterá SPOILERS.

Eis o roteiro: Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi) é um homem de meia idade que vê-se sozinho com um filho para criar após o falecimento de sua esposa. Anos depois, respeitado o luto e com o filho já adolescente, Shigeharu decide que é hora de encontrar uma nova companheira. Para tal, um amigo da indústria do cinema convida-o para ajuda-lo em uma audição para um filme, oportunidade onde várias moças apresentam-se aos entrevistadores em busca de um papel. É nesse cenário que o personagem conhece a bela e misteriosa Asami Yamazaki (Eihi Shiina).

Até o temporizador contabilizar os primeiros 60 minutos (de um total de 01h55min), Audição é um drama/romance com pitadas de humor. A sequência que mostra as entrevistas das moças, por exemplo, foi montada de forma a nos fazer rir com as bizarrices das candidatas, fórmula que programas de auditório como o “Ídolos” sempre utilizam em seus inícios de temporada. Depois disso, resta a fofura do amor de Shigeharu por Asami. O cara, um cinquentão, fica todo nervoso quando está perto da personagem, faz planos de futuro com ela e sofre ao lado do telefone, contendo-se para não ligar de minuto em minuto. Asami, que revela-se uma pessoa solitária, também mostra-se interessada em um relacionamento, logo vemos sorrisos, olhares sonhadores e passeios de mãos dadas. Esse clima leve dura até o momento…

Audição - Cena 2

…. em que o diretor Takashi Miike nos mostra Asami sentada no chão, descabelada e com a coluna completamente curvada, olhando obsessivamente para o telefone. “Mas que diabos é isso?” Em sua “segunda parte”, Audição explora o passado de Asami para revelar uma história tenebrosa de abuso físico e psicológico. Criada no seio de uma família disfuncional, a infância da personagem foi marcada por barbáries como ter suas pernas marcadas com ferro quente por um padrasto doentio. Não é à toa que, adulta, Asami mente quando perguntada sobre seus parentes e demonstra preocupação sobre as intenções de Shigeharu com ela.

Todo caso, não é só a exposição do passado de Asami que deixa a gente chocado. A coisa é feia, mas lá no começo eu disse que fiquei com o estômago embrulhado. No primeiro parágrafo, aliás, eu também disse que Audição foi elogiado pelo Tarantino, e é nos últimos minutos do longa que eu entendi o porque dessa admiração: temos aqui uma história clássica de vingança, tema favorito do diretor de Kill Bill e Django Livre. Shigeharu e Asami hospedam-se em um hotel. Conversa vai, conversa vem, ela tira a roupa e decide entregar-se ao sujeito. O que acontece em seguida é deveras confuso, porque a gente não sabe ao certo se trata-se de um sonho ou de realidade (é preciso ver o filme para entender esta dúvida), mas é violento o suficiente pra fazer a gente contorcer-se na cadeira e querer tirar os olhos da tela de 5 em 5 segundos.

Audição - Cena

Shigeharu é um senhor legal em busca de um amor? Sim, mas ele também é um velho safado que valeu-se de um ambiente podre para selecionar uma esposa. Podre? Sim, de engraçado as tais audições não tem nada: mulheres humilham-se diante de homens indiferentes aos seus sonhos, homens que estão mais interessados em seus corpos do que em seus talentos. Shigeharu até interessa-se por Asami devido a tragicidade de sua história, mas ele também seleciona-a por sua beleza, juventude e mansidão. Essa mudança de ponto de vista do relacionamento do casal culmina na vingança de Asami, que realiza um acerto de contas com o passado e faz de Shigeharu um exemplo para os outros homens que tratam mulheres como objeto.

Audição - Cena 4

“No fundo, bem lá fundo” e “Esse arame pode cortar carne e osso facilmente” são duas frases que eu demorarei um bom tempo para esquecer. O que Asami faz com Shigeharu (ou que ele sonha que ela faz, não importa) é explícito demais, perturbador demais. Pra piorar, enquanto joga sangue na nossa cara, o diretor Takashi Miike coloca Asami no centro da tela, com um sorriso demoníaco de criança arteira, sussurrando e explicando o passo a passo de sua tortura. “Você não poder ir a lugar algum sem os pés”. Puta que pariu!

Tenho que concordar com o Tarantino: dentro do que esse propõe, Audição é realmente uma obra-prima. Fora a angústia absoluta que a última cena é capaz de provocar, bato palmas também para a engenhosidade do roteiro, que consegue nos mostrar pontos de vista distintos sobre a relação dos personagens e que transita bem entre gêneros tão díspares como romance e terror. Recomendadíssimo.

Obs.1: Não assistam depois do almoço. É sério.

Obs.2: O clipe Honey, This Mirror Isn’t Big Enough for the Two of Us do My Chemical Romance é baseado no roteiro de Audição.

Audição - Cena 3

A Bela e a Fera (2017)

Padrão

Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

Padrão

Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

La La Land: Cantando Estações (2016)

Padrão

Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

la-la-land-cena-4

  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

la-la-land-cena

Sing Street (2016)

Padrão

sing-streetUma das diferenças mais interessantes do Globo de Ouro em relação ao Oscar é a existência da categoria “Melhor Filme – Comédia/Musical”. A divisão confere personalidade para a premiação e até dá para entender que filmes leves e menos pretensiosos concorram separadamente daquelas produções mais sérias e politicamente engajadas, mas ao mesmo tempo não deixar de ser estranho que a qualidade de um longa seja julgada por gênero, como se um drama, por exemplo, fosse necessariamente “superior” a uma comédia. Outro ponto questionável dessa divisão é o critério utilizado para determinar em qual categoria os filmes concorrerão. Em 2015, o Birdman, que é um drama, concorreu como “Comédia/Musical”, mesma coisa que aconteceu na última edição com o Joy e o A Grande Aposta. Mais do que simples erros, essas trocas de categorias são frequentemente atribuídas à politicagem que envolve as premiações, com alguns filmes “trocando” de gênero para terem mais chances de vencerem.

Levando isso em consideração e analisando o histórico das edições do Globo de Ouro que acompanhei, não consigo levar a sério a categoria Melhor Filme – Comédia/Musical. Fora o aspecto político, sempre há um ou dois candidatos que estão bem abaixo dos outros em termos de qualidade e que, posteriormente, são ignorados pelo Oscar. Foi assim em 2015 com o Pride (Orgulho e Esperança) e o Um Santo Vizinho, já este ano os esquecidos foram o A Espiã que Sabia de Menos e o Descompensada, produções que eu nem me dei ao trabalho de ver. Eu não tenho a menor dúvida de que este Sing Street, concorrente a Melhor Comédia/Musical, seguirá o mesmo caminho do “esquecimento”, mas decidi assisti-lo tanto porque os outros indicados ainda não estão disponíveis quanto porque a sinopse é uma das coisas mais maluquetes que li nos últimos tempos. Observem só.

sing-street-cena-3É 1985 na Irlanda e uma crise econômica obrigou os pais de Conor (Ferdia Walsh-Peelo) a tirá-lo de um colégio particular e colocá-lo na rede pública. Enquanto lida com as costumeiras dificuldades de um novato (valentões e diretor autoritário), o personagem conhece e apaixona-se por Raphina (Lucy Boynton), uma garota descolada e independente. Para impressioná-la, ele monta uma banda de rock.

É isso aí mesmo. Como está bem resumido ali no pôster, “Garoto conhece garota, a garota não fica impressionada, o garoto monta uma banda”. É simples, funcional e gostoso de assistir, daqueles filmes que ficariam muitíssimo bem na grade de programas como Sessão da Tarde, mas não é uma produção para concorrer a Melhor Filme do ano. Todo caso, chega de questionar os critérios do Globo de Ouro: deixem-me contar pra vocês porque Sing Street (ainda sem título nacional) merece uma chance.

sing-street-cena-2Quem gosta e conhece um pouco da história do rock sabe que a década de 80 foi no mínimo especial para o estilo. O visual glam, a bateria eletrônica e os teclados onipresentes marcaram os principais grupos e hits do período, e esse filme capta com perfeição a essência dessa época ao mesmo tempo mágica e trash. A trilha sonora está repleta de clássicos de bandas como Motorhead , Genesis e Duran Duran, e tanto o visual quanto o estilo do som da banda de Conor (a Sing Street, daí o nome do filme) remetem diretamente ao que estava sendo produzido na época. As cenas que homenageiam o David Bowie e o A-ha devem agradar geral.

John Carney, o diretor e roteirista de Sing Street, também foi feliz em escolher o videoclipe como elemento importante de sua narrativa. A década de 80 produziu uma porção de pérolas audiovisuais (esse é DE LONGE o meu favorito) e, ciente disso, o diretor faz com que os personagens passem a maior parte do filme gravando clipes para as músicas dançantes da banda. É impossível não rir: Raphina, a musa de Conor, aparece em TODOS os clipes enquanto os garotos, vestidos com roupas engraçadíssimas, fingem que tocam seus instrumentos e fazem caras e bocas.

singstreetimage3-1024x576Sing Street concentra praticamente todas suas forças na parte musical (as músicas da banda são muito boas, do tipo de que dá vontade de ouvir em casa) e nas citações à outras obras (há um baile com referências ao De Volta Para o Futuro e ao Juventude Transviada). Como dito, isso torna o filme simpático e fácil de ser assistido, mas há pouco para ser absorvido além da diversão pura e simples. Atores veteranos como Aidan Gillen (do Game of Thrones) e Maria Doyle Kennedy até tentam dar alguma profundidade ao roteiro com uma trama sobre traição e divórcio e Brendan (Jack Reynor), irmão de Conor, tem uma ótima cena de desabafo, porém não há desenvolvimento dos outros membros da banda e conflitos sociais (preconceito, bullying, abuso de autoridade) são apenas sugeridos, de modo que fica patente que a mecânica aqui é realmente a do videoclipe: som, imagem e uma história de amor, rápido e direto ao ponto. É um ótimo filme para tu assistir depois de um dia exaustivo de trabalho, mas não é o tipo de produção que mereça ser consagrada em uma premiação.

sing-street-cena

Love (2015)

Padrão

LoveAno passado, um burburinho nas redes sociais disse que um filme “praticamente pornô” estrearia nos cinemas nacionais. Matérias, como esta que pode ser lida clicando aqui, diziam que a produção chamaria-se Transa 3D e, entre outras coisas, traria uma polêmica cena onde um pênis ejacularia em direção ao público. Cinematograficamente falando, o sexo pelo sexo não me interessa: há milhares de sites na internet onde é possível encontrar pornografia em suas mais variadas e bizarras formas (há vídeos com pôneis, caras!), de modo que eu não assistiria Love (felizmente, o título original foi mantido) apenas para ver alguns peitinhos. Uma informação da matéria citada, porém, me fez ficar imediatamente interessado na produção:

“Com cenas quentes, o vídeo contém vários flashes de vários momentos da trama, que é dirigida pelo francês (sic) Gaspar Noé.”

Deixando de lado o erro do colunista (o diretor é argentino, e não francês), encontrei nesse trecho tudo o que eu precisava saber sobre o filme para decidir assisti-lo. A obra do Gaspar Noé (Sozinho Contra Todos, Irreversível, Viagem Alucinante) é marcada por cenas polêmicas de incesto, estupro e abuso de drogas, temas repulsivos e desagradáveis aos olhos, mas ainda assim temas que precisam ser discutidos e que o diretor explora sem preocupar-se com as amarras do politicamente correto. Assim sendo, no que diz respeito ao sexo, desconfiei que o Noé faria mais do que simplesmente mostrar closes das genitálias dos atores e, tal qual o Lars von Trier fez no Ninfomaníaca, discutiria o assunto de forma adulta e sem evitar as polêmicas inerentes ao tema. Felizmente, é exatamente isso que acontece aqui, ou seja, Love não é indicado para quem tem o Cinquenta Tons de Cinza como referência de sexo e relacionamento.

Love - Cena 3A primeira cena do longa é o tipo de material capaz de fazer com que o público desavisado desista do filme. Deitados em uma cama, Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock) masturbam apaixonadamente um ao outro. Ao contrário do que geralmente acontece, a câmera do diretor não está posicionada para que você tenha apenas uma visão parcial do ato: lá está o pênis ereto do Murphy e a vagina cabeluda da Electra (rs). Na sequência, toda a química e felicidade do casal cede espaço para uma cena que acontece em outro local e num outro momento. Murphy acorda drogado e melancólico ao lado de Omi (Klara Kristin). No quarto ao lado, o bebê deles chora. O diretor então nos faz ouvir os pensamentos de Murphy e tudo o que ele faz é amaldiçoar a si mesmo e a vida que ele está levando.

O Gaspar Noé declarou que, com Love, a intenção dele era contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Casais se conhecem, apaixonam-se, casam e separam-se pelos motivos mais variados, e aqui ele queria contar uma história em que o sexo fosse fator preponderante para os sucessos e insucessos da relação. Devido a uma gravidez indesejada, Murphy precisou casar-se com Omi, mas ele nunca superou os dias intensos vividos ao lado de Electra. Quando o telefone toca e a mãe de sua ex-namorada pede ajuda para localizá-la, visto que ela está desaparecida, o rapaz não pensa duas vezes antes de abandonar a esposa e o filho para procurar aquela que fora seu verdadeiro amor.

Love - CenaNoé ignora a ordem cronológica dos acontecimentos para nos mostrar o casal em várias etapas de uma relação que deteriorou-se ao longo do tempo pelo mesmo motivo que fizeram-na dar certo no início: a liberdade. Murphy e Electra retiram tudo o que podem um do outro, depois partem para uma ménage à trois com Omi, veem o ciúme frustrar a tentativa de levar uma relação aberta, entregam-se a curiosidade de interagir com um travesti e, por fim, procuram casas de swing para experimentarem o voyeurismo e o desprendimento de ver o parceiro transar com outra pessoa. Electra interessa-se pelo lado sonhador e artístico de Murphy, Murphy interessa-se pela inteligência e pelo espírito livre de Electra, mas a relação deles é baseada principalmente no sexo, e é sexo que vemos na maior parte do tempo de Love.

Há muitas cenas de masturbação, sexo vaginal, oral e homossexualidade no filme, tudo real, tudo filmado de forma que tu possa ver coisas como penetração e gozo. Essas cenas são “gratuitas”? Não mesmo. Além do filme possuir um roteiro sólido sobre obsessão sexual, que é filmado por Noé utilizando as mais diversas técnicas cinematográficas, como quebra da linha temporal e a inserção de textos explicativos na tela (um, por exemplo, associando o nome de Murphy com a Lei de Murphy, é bastante elucidativo), cada uma das cenas de sexo de Love tem uma razão para estarem lá e servem para reforçar a relação de dependência dos personagens com o ato sexual. Se a gente vê Murphy e Electra transando seguidamente em corredores de boate em uma determinada parte do filme, por exemplo, acredito que o diretor não está simplesmente querendo que a gente veja putaria, mas sim que entendamos que, ali, os dois estão tentando reaproximar-se depois de um período turbulento. Não dá para contar uma história de amor do ponto de vista sexual sem sexo, certo?

Love - Cena 2É claro que o diretor, depois de trabalhos como Irreversível (que traz uma longa cena onde a atriz Monica Bellucci é estuprada) sabe que está trabalhando com um tabu e que ele usa isso a seu favor, tanto para chocar o público quanto para atrair atenção do mesmo para o filme, mas não acredito que a intenção dele seja simplesmente fazer barulho. O Noé coloca-se muito em seus trabalhos (no Viagem Alucinante, por exemplo, ele fala da vida pós-morte, tema pelo qual ele sempre diz ter interesse) e aqui, além do diretor aparecer como o personagem Noe, ele ainda dá seu outro nome (Gaspar) para o bebê de Murphy e Omi, indícios de que muitas das angústias vividas na trama por seus protagonistas lhe são caras e, provavelmente, baseados em suas próprias experiências.

Love não é só um filme “praticamente pornô”. Se retirássemos dele todas as cenas de sexo, ainda assim ele chamaria a atenção por trazer uma história de amor cheia de elementos reais facilmente reconhecidos pelo público, coisas como a empolgação do início do relacionamento, as brigas (aquela do táxi me deixou bem pra baixo =/), o abuso de bebidas e drogas para mascarar uma realidade insatisfatória e o vazio que dá quando perdemos alguém que amamos devido aos nossos próprios excessos. As cenas de sexo poderiam ter ficado de fora, mas, cá entre nós, melhor com elas, não é mesmo? rs

Love - Cena 4