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Millennium: A Garota na Teia de Aranha (2018)

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Millennium - A Garota na Teia de AranhaAssisti este novo Millennium na semana passada, no Playarte Multiplex Bristol da Avenida Paulista, pouco depois de sair da sessão do Museu. Demorei para resenhar porque, conforme já dito em outros textos, o final do ano letivo (eu sou professor) está consumindo praticamente todo o meu tempo livre. Mas vamos lá, devagar e sempre.

A primeira coisa que precisa ser dita sobre A Garota na Teia de Aranha é que ele não é uma continuação direta do Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Cronologicamente, isso quer dizer que a iniciativa hollywoodiana de adaptar a obra literária do sueco Stieg Larsson ignorou 2 livros (A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar) e pulou direto para o último título que chegou nas livrarias, trabalho que o escritor David Lagercrantz conduziu com base em anotações deixadas pelo Larsson, que faleceu em 2004.

Resumindo: descontinuaram o trabalho de adaptação iniciado com maestria pelo diretor David Fincher lá em 2011 para dar ao público um produto mais recente relacionado à série. É uma decisão que só poder ser compreendida levando em conta o aspecto financeiro: deve ser difícil (e arriscado $$$) apresentar uma continuação 7 anos após o lançamento do original. Compreendo, mas lamento: além da troca do elenco ser traumática, ignorar 2 livros inteiros subjugou o roteiros às cenas de ação exageradas e peripécias tecnológicas que o diretor Fede Alvarez prioriza em detrimento da pegada mais investigativa e dramática do Fincher.

Não que Alvarez desconsidere completamente o que foi feito em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. A abertura, aliás, é praticamente uma reedição daquela loucura orgiástica misturando petróleo, fogo e cabos que o Fincher utilizou em 2011 para introduzir o mundo cyberpunk de Millennium. Sem a música do Led Zeppelin, porém, o impacto do CGI não é o mesmo. Em seguida, outra referência-continuidade: a cena em que Lisbeth Salander (Claire Foy) aprisiona e pune um torturador de mulheres, tanto no conteúdo quanto no visual, remete diretamente ao longa anterior quando ela vinga-se de seu guardião legal após ser sexualmente abusada. Depois disso, Alvarez segue seu próprio (e sinuoso) caminho numa trama deveras manjada.

2119167 - Girl In The Spiders Web

Numa reminiscência da Guerra Fria, A Garota na Teia de Aranha apoia-se na ideia da existência de um programa de computador norte americano (Firefall) capaz de armar e disparar todas as ogivas nucleares existentes no mundo. Lisbeth é contactada por um agente do governo e encarregada de roubar o tal programa, tarefa que ela realiza sem maiores problemas devido a sua habilidade invejável de informática, mas aí a própria Lisbeth é roubada: um grupo misterioso, cujo líder tem uma tatuagem de aranha, invade e destrói o apartamento da personagem, levando o Firefall. Lisbeth pede ajuda a Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason) e inicia a investigação que revelará a identidade de seu algoz e, consequentemente, a localização do programa.

Em sua busca, Lisbeth descobre que o programa só pode ser acessado com os conhecimentos de matemática de uma criança prodígio (!!!) e depara-se com uma vilã que está diretamente ligada a sua infância. Este mergulho no passado talvez seja a parte mais prejudicada pela ausência dos dois livros ignorados por essa sequência: o que é visto aqui carece de profundidade e dos detalhes que são esmiuçados no A Menina que Brincava com Fogo. Sobre a tal criança, a velocidade absurda com que ela realiza algumas operações só é superada pelas habilidades quase sobrenaturais de Lisbeth com tecnologia, e isso também incomoda um pouco.

Millennium - A Garota na Teia de Aranha - Cena 3

Filmes não precisam obedecer a realidade. Frequentemente, a graça deles é exatamente a possibilidade da fuga. A série Millennium, porém, com sua ambientação jornalística e tecnológica, é construída dentro de uma realidade crível e bem próxima daquela que vivemos. Isto posto, não dá para ignorar os exageros das soluções e ferramentas utilizadas por Lisbeth para enfrentar seus inimigos, coisas que vão desde acessar câmeras de vigilância nas ruas até operar carros e pontes remotamente com o uso de um celular ou computador. Na sessão em que eu estava, uma velhinha passou o filme todo rindo desses exageros. “GENTE, ELA É HACKER!” Impagável 😆

Clarie Foy não é uma Lisbeth Salander ruim (o Gudnason é um Blomkvist ruim), mas ela está bem abaixo da Rooney Mara e da Noomi Rapace, tanto no visual, que está mais contido (sdds moicano), quanto na atuação, que é menos selvagem e provocativa. A Garota na Teia de Aranha é ruim? Longe disso, o ritmo é bom e as cenas de ação, exagero à parte, são muito bem executadas, mas a fonte onde o diretor Fede Alvarez bebeu certamente poderia ter rendido um material muito mais denso não fosse a evidente preocupação com as cifras.

Millennium - A Garota na Teia de Aranha - Cena 2

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Museu (2018)

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MuseuEstive na cidade de São Paulo nesta última semana e aproveitei para revisitar o Cine Belas Artes, local aconchegante e barato (ingresso inteira = R$22/combo pipoca+refrigerante = R$18,50) que realiza a importante tarefa de exibir produções alternativas que raramente são encontradas no circuito comercial.

Pela conveniência do horário e pela presença do ótimo Gael García Bernal no elenco, o filme escolhido foi este Museu, produção inspirada em fatos reais que conta a história de um dos crimes mais marcantes da história recente do México: na manhã do natal de 1985, a população foi surpreendida com a notícia de que mais de 140 peças do período pré-espanhol mesoamericano haviam sido furtadas do Museu Nacional de Antropologia e História. As investigação levaram a política até os estudantes Carlos Perches Treviño e Ramón Sardina García, que nesta produção do diretor Alonso Ruizpalacios atendem pelos nomes de Juan e Wilson e são interpretados, respectivamente, pelo Gael e pelo ator Leonardo Ortizgris.

A construção da história envolve uma série de flashbacks (que são introduzidos abruptamente, exigindo atenção do espectador) e gira em torno do “porquê” motivador do roubo. A resposta ao tal mistério, aliás, nem é das melhores (o final tem um quê de anticlímax), mas a jornada de pouco mais de 2 horas até o desfecho tem lá seus bons momentos.

Juan, o protagonista, é um desses caras simpáticos que veem no Papai Noel um símbolo da exploração capitalista e que, nas festas de família,  constrange todo mundo com a exposição de algum ponto de vista polêmico. Trabalhar, Juan trabalha apenas para conseguir a grana para o baseado, visto que sua família é financeiramente estável. Juan, porém, é um idealista. Talvez por influência do pai, que é um homem intelectual, o personagem desenvolve uma espécie de sentimento nacionalista para com a cultura mexicana, o que leva-o a criticar a forma como alguns objetos foram, ao longo dos anos, “surrupiados de seu povo para encherem as prateleiras dos museus”.

Museu - Cena 3

A história de Museu é contada do ponto de vista do amigo de Juan, Wilson, e isso poderia romantizar o episódio do furto, mas não é isso que acontece. Conforme descrito no parágrafo anterior, o diretor Alonso Ruizpalacios criou um protagonista mimado, antissocial e ufanista, um humano demasiadamente humano. É verdade que não é fácil afeiçoar-se e torcer por alguém assim, mas não é completamente impossível: em muitos aspectos, Juan é gente como a gente, a começar pela inocência e inexperiência.

Pensem o seguinte: vocês roubam algo extremamente valioso (só pensem, hein? Por favor 😆 ). O que fazer em seguida? Vender, pegar a grana e curtir a vida adoidado, certo? Tal qual é revelado, Juan e Wilson passaram muito tempo planejando o assalto (a forma como eles livram-se do sistema de proteção das vidraças é profissional), mas preocuparam-se pouco com o dia seguinte. Quanto mais eles tentam vender as peças, mais eles se enrolam. Entre inventar nomes falsos e comprar ternos baratos para tentar passarem-se por negociantes, a dupla atravessa o país de carro, briga entre si e, num momento que certamente será mágico para todo mundo que cresceu assistindo Chaves, acaba indo parar na cidade de Acapulco. O amadorismo dos personagens coloca-os em diversas situações vexatórias, coisas como serem  enxotados por um negociante de artes e apanharem num cabaré durante um striptease. Em certos aspectos, é como se o roteiro de Museu fosse construído sobre o simplismo de “o crime não compensa”, visto a quantidade de enrascadas que o Ruizpalacios prepara para os personagens após o furto.

Museu - Cena 2

Naquela que talvez seja a única exceção dessa desgraceira toda, o diretor permite que Juan encontre-se com Sherezada, uma atriz de softporn mexicana que certamente inspirou as madrugadas do personagem na adolescência. Drogas, bebida barata, praia e uma barriga que era bem menor na TV: eis a última noite de Juan no paraíso. Depois disso, é encarar a família, a polícia e o peso de seu ato ousado e criminoso.

E porque Juan fez o que fez? Bem, aí vocês terão que assistir o filme para saber, mas não esperem motivações muito nobres. Em sua síntese, Museu parece dizer que são sentimentos muito fúteis e mesquinhos que movem o mundo. Difícil discordar, né? O filme em si não é lá uma obra prima, mas a atuação do Gael, os cenários/cultura mexicana (a música tema, A Noite dos Maias, é maravilhosa) e, no meu caso, a estrutura do Cine Belas Artes, fizeram a sessão ser agradável.

Museu - Cena

Bohemian Rhapsody (2018)

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Bohemian RhapsodyI work hard (he works hard) every day of my life: A última semana foi infernal. Resumidamente, moto e chuva não combinam. Capa de chuva? Embuste! Molhei no caminho de casa para o serviço e, lá e de volta outra vez, molhei mais ainda, totalizando 35km diários de molhança e absolutamente nenhum ânimo para escrever. Hoje, porém, o sol está brilhando e eu estou de folga. Coloquei as roupas para lavar, passei um pano nos móveis, preparei as aulas da semana e agora, obrigações cumpridas, sentei aqui no meu quartinho para escrever a resenha do Bohemian Rhapsody. Antes de falar do filme, no entanto, vou gastar um parágrafo para contar a minha história de amor com o Queen.

And everything I had to know, I heard it on my radio: Conheci o Queen em algum ponto da década de 90. Eu estava ouvindo rádio e alguém ligou e pediu para tocar Bohemian Rhapsody. O radialista, ao vivo, falou que a música era “grande demais” para a programação, deu uma enrolada no cara e tocou I Want to Break Free. Dessa experiência, lembro de 2 coisas: gostei muito do refrão e odiei o solo. Na minha opinião (e que um dia eu seja perdoado por ter pensado assim), a guitarra tava com uma distorção meio brega e cafona. Todo caso, no final de semana seguinte, fui na feira do bairro, comi um pastel com Guaraná Mineiro e comprei um CD do Queen, uma dessas coletâneas que vinham no saquinho plástico e que custavam 3-5 reais. Bons tempos: como tínhamos acesso a um número menor de músicas (hoje, programas de download e aplicativos como o Spotfy dão acesso a milhares de títulos com apenas um clique), acabávamos valorizando mais cada uma das faixas disponíveis, decorando letras e tudo mais. Fiquei apaixonado pelo que ouvi, aprendi o nome dos integrantes da banda, pedi desculpas mentais para o Brian May e, finalmente, ouvi a magnânima Bohemian Rhapsody: passados quase 20 anos da primeira audição, ainda considero aquela parte que vem depois da sessão operística (So you think you can stone me and spit in my eyes?) como um dos momentos mais inspirados do rock ‘n roll de todos os tempos. As músicas do Queen estiveram no meu casamento (Love of my Life, lógico), estão nos vídeos que faço todo fim de ano para os meus alunos (no último, foi We Believe, do projeto recente com o Paul Rodgers) e estão sempre na minha playlist (atualmente, tô com Fat Bottomed Girls e I’m Going Slighty Mad). A Rainha é foda ❤

Bohemian Rhapsody - Cena

Are you ready, hey, are you ready for this?: Daí sai a notícia que fariam um filme sobre o frontman da banda, Freddie Mercury. Surtei total. Qualquer medo de que o trabalho não fizesse justiça a grandiosidade do vocalista e da banda foram deixados de lado quando os primeiros trailers foram divulgados. No que dava para ver ali, todos os integrantes estavam perfeitamente caracterizados e a encenação de episódios antológicos da história da música, como a gravação dos “Galileo’s” da Bohemian Rhapsody e da apresentação da banda no Live Aid, garantiriam nostalgia e momentos para cantar junto. Felizmente, o filme entregou exatamente o que prometeu: uma história relativamente linear, focada na trajetória do Freddie (Rami Malek), mas que dá a devida atenção para o talento do Brian May (Gwilym Lee), para a energia criativa do Roger Taylor (Ben Hardy) e para o pragmatismo e solidez do John Deacon (Joseph Mazzelo).

Love of my life, you’ve hurt me: Dirigido pelo Bryan Singer, Bohemian Rhapsody homenageia o gênio musical, o artista que conseguia conduzir uma plateia como ninguém (Eh ôh, eh ôhhhhh!), mas também há espaço para falar do homem que, apesar de todo o talento e fortuna, teve dificuldade para amar. Amantes não faltaram (certa vez ele disse que os teve mais do que a Elizabeth Taylor, uma mulher que casou 8 vezes rs), mas sua bissexualidade afastaram-no de sua esposa, Mary Austin (Lucy Boynton), e seu estilo de vida orgiástico impediu por muitos anos que ele se aproximasse de seu verdadeiro companheiro, Jim Hutton (Aaron McCusker). A solidão do personagem foi bastante explorada (gostei muito da cena do abajur), mas, numa decisão questionável, o Bryan Singer optou por tratar com parcimônia os últimos dias do cantor, falando pouco e de forma superficial da AIDS, doença que, associada a uma broncopneumonia, vitimou Freddie no dia 24 de novembro de 1991. Este caminho deixa a produção mais leve e pop, tal qual um hit radiofônico do Queen como A Kind of Magic, mas também impede que o material atinja a grandeza de produções mais complexas como Innuendo.

Bohemian Rhapsody - Cena 2

I consider it a chalenge before all the human race and I ain’t gonna lose: Se o drama sobre a vida pessoal do personagem poderia ter sido um pouco mais explorado, não há absolutamente mais nada a reclamar do filme. A caracterização dos personagens, por exemplo, é assombrosa. Não há dúvidas de que o destaque seja mesmo do Rami Malek, que capturou com perfeição o espírito e trejeitos do Freedie, mas, puta que pariu, olhem aquele John Deacon! Tá igual! Sobre a parte musical, celebro a decisão do diretor de revisitar o ambiente de gravação do clipe da I Want to Break Free, escancarar as brigas com empresários e de mostrar o momento que alguns hits (We Will  Rock You e Another One Bites the Dust) foram pensados. Também agrada muito a presença de piadas conhecidas sobre a banda (todas aquelas que envolvem a letra da I’m in Love With my Car) e a recriação quase na íntegra da apresentação do Queen no Live Aid, show que ainda hoje permanece como um das maiores transmissões ao vivo de todos os tempos. Poderíamos ter o David Bowie, a jaqueta amarela e mais algumas músicas, como Stone Cold Crazy? Claro que poderíamos, mas ainda sim o resultado é muito bom.

Bohemian Rhapsody - Cena 3

Why can’t we give love? Give love, give love, give love: Li em redes sociais que houveram registros de pessoas vaiando as cenas de homossexualidade do filme. Quando procurei fontes sobre o ocorrido, no entanto, encontrei apenas um print pouco confiável do Twitter. Registro aqui o que vi: sempre quando o Freddie beijava ou atracava-se com alguém, era notório o burburinho na sala. Num determinado momento (se não me falha a memória, foi quando ele passa a mão no derrière do Jim Hutton), ouvi alguém dizer “tomar no cu com essa viadagem”. Complicado, né? Não digo isso nem pelo fato da homossexualidade do cantor ser pública e notória, mas também pela insistência de algumas pessoas em querer opinar sobre decisões que não lhes dizem respeito. Todo caso, termino este texto relatando outra coisa que vi na sessão, esta sim emocionante: bem no fim do filme, quando a banda está executando a We Are The Champions no Live Aid, vi, nas cadeiras inferiores, uma velhinha levantando e balançando os braços na hora do refrão, prova irrefutável da atemporalidade e grandeza da música do Queen.

Queen é amor, e o amor, este sim, está acima de tudo e de todos.

Bohemian Rhapsody - Cena 4

Halloween (2018)

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Halloween 2018Ode à tolerância: tenho MUITA birra com atraso. Marcar algo comigo e chegar mais de 10min depois do horário combinado (sem uma boa explicação) é pedir para me encontrar de cara amarrada. Numa sexta feira aí (26/10), porém, fui beneficiado por um atraso. Após um compromisso que acabou durando mais do que o esperado, corri em direção a um dos shoppings da cidade com a intenção de pegar a sessão do Halloween das 15hrs. Estaciona, sobe a escada rolante naquele pique de academia, vai até a máquina de autoatendimento e… 15hrs15min. “Putz, perdi os trailers e o início do filme”, pensei. Como a merda já estava feita, ainda gastei mais uns 5min comprando pipoca e refrigerante antes de entrar na sala do cinema, momento em que imaginei que já veria o Michael Myers enfiando a faca em alguém mas que, para a minha surpresa (e alegria!), os trailers estavam apenas começando. A sessão atrasou. Ri sozinho pensando no quanto já fiquei puto de raiva porque alguém me deixou 10/15min esperando. São nessas pequenas ironias de vida que a gente vai colocando o pé no chão e amadurecendo.

A fé nesse novo Halloween era pouca. Terminei meu último texto da série dizendo que eu torcia pela produção, mas a verdade é que, após muitas decepções, eu já havia desistido de ver algo que fizesse justiça à criação do John Carpenter. O saldo cinematográfico do assassino de Haddonfield, depois de porcarias como A Última Vingança, é muito negativo. Tendo como base o que vi aqui, porém, há razões para acreditar que o jogo poder virar. Assinado pelo diretor David Gordon Green, Halloween é um passo inteligente para o reboot da franquia, pois, ao ignorar todas as sequências do orignal, ele apresenta uma continuação direta dos eventos vistos no filme de 1978, decisão que garante uma boa dose de nostalgia e que abre caminho para novas e revitalizadas produções com o Myers.

Halloween 2018 - Cena 3

A trama respeita o tempo passado no mundo real e também acontece 40 anos depois (1978-2018) do primeiro confronto entre os irmãos Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Michael Myers. Ele foi internado em um hospital psiquiátrico, ela teve uma vida marcada pelo trauma daquela fatídica noite de Halloween. Laurie até tentou seguir a vida: casou, teve uma filha e ganhou uma neta, mas a obsessão que ela desenvolveu com um possível retorno do irmão transformaram-na em uma pessoa paranoica e indesejável. Isolada da família, Laurie opta por viver em uma casa no campo, casa que ela transforma em uma fortaleza na expectativa de, um dia, enfrentar Michael novamente.

A inevitável “reunião” começa a tomar forma quando um casal de jornalistas visita Michael no hospital psiquiátrico. Eles, que são do tipo que ganham a vida resgatando casos polêmicos do passado, pretendiam obter alguma informação do famoso assassino de Haddonfield. A cena onde a “entrevista” acontece é boa demais: aquele pátio enorme, com o Michael preso em correntes e cercado por um bando de desajustados, é, fácil, um dos melhores cenários já vistos na franquia. Ali, acontece o erro que trará destruição e morte para um número sem fim de pessoas: na ânsia de arrancar alguma palavra ou confissão do assassino, o jornalista mostra-lhe a famosa máscara (isso mesmo, a tal baseada no rostinho bonito do William Shatner). Big mistake, motherfucker: o cara fica possesso e, no dia seguinte, aproveita a transferência dos internos para fugir.

Halloween 2018 - Cena 4

A fuga, como não poderia deixar de ser, acontece no dia de Halloween. Primeiro, Michael trata de recuperar sua máscara e de conseguir uma faca gigante, depois, ele anda novamente pelas ruas de Haddonfield matando pessoas aleatórias que participam do “doces ou travessura”. É nesse ínterim que o assassino vai atrás não de sua irmã, que estava trancada em uma fortaleza na floresta, mas de sua inocente e avoada sobrinha, Allyson (Andi Matichak), o que obriga Laurie a abandonar o isolamento e tomar medidas para proteger sua família.

O diretor David Gordon Green atualizou a linguagem de Halloween acrescentando no longa a violência gráfica explícita típica de produções recentes do gênero. A cena em que o Myers pisoteia a cabeça de um infeliz até transformá-la em uma massa disforme de carne e ossos, por exemplo, não deve nada para “filmes podreiras” como O Albergue e Jogos Mortais. A utilização de elementos do presente ainda garante uma cena sinistra e espetacular com um sensor de movimento em um jardim (pobre gordinho!), mas também há espaço para o material clássico, a começar pela abertura. A fonte do título, a abóbora em stop motion e a musiquinha infernal: está tudo lá. Os fãs mais hardcore ainda notarão semelhanças com os outros longas da série que, apesar de não serem incluídos na cronologia, foram homenageados pelo diretor com a inclusão de diversos easter eggs: particularmente, gostei da recriação da cena em que o Michael consegue a faca na cozinha (Halloween 2) e das fantasias das crianças na rua (Halloween 3). Também chama a atenção a semelhança/homenagem com o roteiro do Psicose, quando personagens importantes são eliminados no meio da trama, deixando a gente sem reação.

Halloween 2018 - Cena 2

Ainda no campo da nostalgia, é muito bom que tenham resetado a linha do tempo para que a Jamie Lee Curtis pudesse voltar a interpretar a Laurie Strode. Depois de ser descartada da forma mais idiota do mundo no Halloween: Ressurreição, a personagem volta para um pega pra capar épico com seu algoz. Rola de tudo: arremessos, tiro na cara, tiro nos dedos, incineração e desrespeito. Mas não é Laurie Strode que protagoniza a melhor cena de Halloween. Numa ousadia com poucos precedentes, o diretor David Gordon Green teve culhões para colocar o Myers enfrentando uma criança. O resultado não é bom apenas pela coragem do cineasta de enfrentar um dos maiores tabus do cinema, mas também por toda a construção do clima sombrio da cena. Saca só:

“Pai e filho num carro na estrada à noite. Acidente de ônibus bloqueando a via. A gente SABE que o Myers estava no ônibus. O pai sai para verificar a situação e NÃO VOLTA. O menino, que a poucos instantes estava dizendo que só queria fazer aulas de dança, pega uma espingarda e desce do carro, gritando pelo nome do pai. Escuridão TOTAL. O Myers aparece.

Foda, né? Halloween é muito bom. Esta resenha está saindo com um pouco de atraso (é a proximidade do fim do ano letivo acabando com o meu tempo livre), mas, se ainda for possível, tentem assisti-lo no cinema, vale muito a pena. Todo caso, se vocês perderem esse, não se preocupem, porque é praticamente impossível que não haja uma continuação, tanto porque a produção foi muitíssimo bem nas bilheterias quanto porque, nos créditos, confirma-se outra tradição da série: após tomar uma sova épica, a respiração ofegante de Myers confirma sua imortalidade e seu inevitável retorno. Pobre Laurie Strode! 😆

Halloween 2018 - Cena

Venom (2018)

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Venom“Honesto”, eis a melhor palavra para definir Venom. Se fosse para dar uma nota, seria “7/10”. E o que isso quer dizer? Quer dizer que o filme poderia ser melhor (e abaixo explicarei o porquê), mas também significa que o diretor Ruben Fleischer realizou um bom trabalho, distanciando-se de produções como Quarteto Fantástico, X-Men: O Confronto Final e Homem Aranha 3, conhecidos desastres protagonizados por personagens da Marvel quando tratados por mãos alheias. Antes do bate e assopra, porém, vamos à sinopse.

Regressando à terra, uma nave espacial sofre um acidente pouco antes de reentrar na atmosfera. Os destroços do veículo caem na Malásia, e a investigação, que é conduzida sigilosamente pela empresa Fundação Vida, revela que parte do conteúdo transportado foi perdido. E não trata-se de um conteúdo qualquer: a mando do presidente da fundação, o visionário/lunático Carlton Drake (Riz Ahmed), a tripulação estava transportando simbiontes, formas de vida alienígena que o empresário pretendia utilizar em seu projeto de desbravamento espacial.

Paralelamente ao acidente, conhecemos Eddie Brock (Tom Hardy), repórter investigativo que ganha a vida revelando ao mundo a faceta podre da cidade norte-americana de São Francisco. Em sua busca pela verdade, Eddie apresenta poucos escrúpulos, e é assim que ele invade o computador de sua própria noiva, a advogada Anne Weying (Michelle Williams), e descobre informações assustadoras sobre a Fundação Vida: ao que tudo indica, a empresa está ocultando a morte de seres humanos que foram utilizados em testes obscuros. Eddie confronta Carlton Drake e perde: além do presidente valer-se de sua influência para fazê-lo ser demitido, Eddie é abandonado por Anne, que sente-se traída no caso do computador. Pobre Eddie.

E o pobre, no caso, também tem sentido literal: sem emprego e sem mulher, o cara passa a viver na pior, morando num muquifo e tendo seu currículo recusado por todos os jornais da cidade. Pausa para um elogio: não que isso seja novidade para alguém, mas o Tom Hardy mostra nessa parte inicial da história o porque de ele ser um dos grandes nomes de sua geração. É impressionante o quanto ele transita bem entre o drama e o humor inerentes ao fundo do poço que Eddie encontra-se, fora que o preparo físico do cara continua invejável. Voltando, o link para a ação acontece quando Eddie é procurado por uma funcionária da Fundação Vida, que convence-o a vasculhar o local em busca de pistas que possam incriminar Carlton Drake. Durante a incursão, Eddie é “contaminado” por um simbionte, adquirindo poderes sobre-humanos mas perdendo parte de sua autonomia para a entidade alienígena autodenominada Venom.

Venom - Cena

Venom divide-se claramente em 2 partes, uma séria e uma de pancadaria pura, com a aparição do protagonista (uma belezura em CGI) como divisor de águas. Da primeira, não há o que reclamar: os diálogos são bons, o humor está bem dosado e o Tom Hardy, conforme dito, está tinindo. A introdução, resumindo, foi muitíssimo bem executada, tanto na apresentação dos personagens quanto na criação de um clima para a história, que é majoritariamente noturna e numa pegada investigativa. Já a parte “POW BANG ZAPT” merece algumas ressalvas, a começar pela mudança de tom.

É sabido que um dos maiores trunfos da Marvel no cinema é o humor. No meio de um diálogo e outro, uma cena engraçadinha pra fazer a gente rir. Eu gosto. Venom peca nesse aspecto não pelo exagero, mas pela distribuição estranha. Depois que o simbionte aparece, o volume cresce exponencialmente. De certa forma, isso faz com que o clima mais “adulto” construído durante a introdução perca-se rapidamente. Outro problema trazido pelo início da pancadaria é a simplificação excessiva de pontos centrais do roteiro, sendo que a mais significativa é a motivação do Venom para, digamos, optar por ficar na Terra e, de uma forma bastante pessoal, combater o mal. É muito repentino e pouco convincente.

Venom (2018)

As cenas de ação são bastante criativas. Fora aquela perseguição de moto que o trailer já havia entregado, há ainda embates menores entre o simbionte e capangas genéricos de Carlton Drake e um “pega pra capar” entre o personagem e o verdadeiro antagonista da trama que o filme revela já próximo ao final. O diretor Ruben Fleischer mostra várias das habilidades de Venom, como poder reconstituir partes do próprio corpo e transformar seus membros e tronco em armas letais. Isso tudo é bem legal, mas o fato do “uniforme” do personagem ser preto/azul escuro, combinado com a ambientação noturna e a edição frenética deixaram o visual bagunçado demais. Já ouviram falar na expressão “briga de foices no escuro”? O desfecho de Venom é tipo isso aí.

Todo caso, comemoremos. A primeira cena pós-crédito (são duas) indicam tanto o início de uma franquia quanto um tom mais sombrio para a continuação. É bom dar risada vendo o Venom atormentar o Eddie Brock? Até é, mas legal mesmo é quando ele ameaça transformar um trombadinha em um “troço sem braços e sem pernas rolando por aí como bosta”. Tomara que sigam por esse rumo.

Venom - Cena 3

O Predador (2018)

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O PredadorO primeiro Predador, aquele de 1987 com o Schwarzenegger (como é difícil escrever esse nome 😀 ), foi um marco na minha infância. Contrariando as recomendações da minha avó, fiquei acordado até tarde assistindo o filme na Tela  Quente e, no outro dia, eu mal consegui sair de casa de tão assustado que eu estava. Não me julguem: eu tinha menos de 10 anos e estava de férias em uma fazenda. Tinha mato para todo lado e, no mato, CERTAMENTE tinha o Predador, aquele bicho feio que ficava camuflado aguardando a oportunidade para arrancar a medula dos outros.

Cresci, fiquei chato cético, arrumei contas para pagar e não voltei mais na tal fazenda. Nisso, o Predador também abandonou a floresta e foi para a cidade, primeiro naquela sequência esquecível de 1990, depois no Alien vs Predador 2, que é, disparado, a pior porcaria que já fizeram com o personagem. O “ugly motherfucker” (como ele é conhecido pelos fãs da série) ainda apareceu no Alien vs Predador (praticamente como coadjuvante do Alien e da moçoila lá) e no Predadores, filme que sofreu com uma censura “14 anos” (cadê o sangue?) e com um roteiro ruim (ou vai falar que vocês gostaram daquela mistura de BBB com No Limite?).

Resumindo, apesar de ter marcado minha infância, o Predador tornou-se uma fonte contínua de decepção na minha vida adulta. Assim sendo, fui assistir esse O Predador sem muitas expectativas, apenas torcendo para que o filme fosse ambientado em alguma floresta (Predador tem que ser no mato, caras). Sessão começou e, apesar do Cinemark ter me sacaneado (comprei legendado, o filme era dublado), fiquei empolgado com o que vi: após uma rápida batalha no espaço, a nave de um Predador cai em nosso planeta numa linda, escura e perigosa floresta *.* É uma pena que, após isso, a coisa desande totalmente.

Predador - Cena 3

Além de deslocar o cenário para a cidade, o filme do diretor Shane Black (que também comandou esta bomba aqui) requenta uma infinidade de clichês do gênero ação e falha miseravelmente em assustar quem tá pagando R$5,25 no litro da gasolina. Tão logo a nave do Predador cai na floresta, o atirador de elite Quinn McKenna (Boyd Holbrook) e seu pelotão chegam no local e tem um breve confronto com o monstro. Único a sobreviver ao massacre e temeroso que o governo apague sua memória, McKenna envia para sua casa, via correio (!!!), parte do equipamento do alienígena como prova do horror que ele viu. Paralelamente ao interrogatório ao qual o personagem é submetido, vemos que um segundo Predador, maior e mais forte do que o enfrentado por McKenna, chega ao planeta e inicia uma busca por seu semelhante.

O Predador tem uma criança super inteligente que fala coisas esquisitas, uma família separada que une-se devido a um conflito, uma cientista sexy empoderada (Olivia Munn) e um grupo de pessoas socialmente desajustadas que encarrega-se da tarefa de eliminar a ameaça alienígena. Sem nada de novo em sua estrutura dramática, o roteiro investe em expandir a mitologia de seu personagem principal, e o faz de forma bizarra: interessados em tonarem-se cada vez mais fortes, os saiyajins Predadores começam a misturar seu DNA com o de guerreiros fortes que eles encontram ao redor do universo, inclusive os humanos. Nisso, o filme nos apresenta um super Predador de quase 3 metros de altura, um híbrido extremamente letal que, junto com seus cachorros predadores, elevará a contagem de corpos estraçalhados na tela.

Predador - Cena 2

Não, vocês não leram errado. O diretor Shane Black utiliza “cachorros predadores” para aumentar a ação, ideia tão ruim quanto o fato da história, mais uma vez, desenvolver-se em ambiente urbano. Todo aquele clima de caça e terror presentes no primeiro filme (lembram do cara escondido num tronco dizendo ‘eu vejo ele’?) perdem-se quando vemos os personagens correndo de uma aberração canina dentro de uma casa. Pra piorar, as cenas de ação sempre vem acompanhadas de algum tipo de piadinha, mal este que não é exclusivo de O Predador: atualmente, quase todas as produções optam por quebrar a tensão de sequências perturbadoras com algum tipo de humor. Acho isso bosta demais.

Há sangue e vísceras em O Predador, mas a cena mais gore do longa mostra um sangue verde, produto do confronto entre os dois monstros (o predador normal e o predador bombadão). É muito pouco. Outro Predador, outra decepção. Na parte intermediária, alias, travei uma luta fodida contra o sono, que bateu impiedoso devido ao horário (peguei a primeira sessão após o almoço) e à falta de emoção do pacote. E se eu ainda tivesse 10 anos? Será que eu gostaria do filme e teria pesadelos com ele? Difícil imaginar: o que assusta uma geração acostumada a jogar Minecraft e a beber Fanta Guaraná? Cachorros predadores? Não mesmo.

Predador - Cena

A Freira (2018)

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A FreiraAno passado, quando eu estava cogitando encerrar o blog, umas das ideias que mais me seduziram a chutar o pau da barraca foi pensar que, se o fizesse, eu poderia ver quantos filmes eu quisesse sem a necessidade de, depois, gastar 4 horas escrevendo resenhas. Em meus devaneios, eu voltaria direto para 2010, época em que eu chegava a assistir 2-3 longas por dia. No início até deu certo: a série Invocação do Mal, por exemplo, eu maratonei numa tarde. Depois, progressivamente, meu interesse por cinema foi migrando para o videogame (comprei um PSP e um Playstation 4, além de gastar MUITAS horas no mobile Final Fantasy Brave Exvius) e, quando percebi, eu já estava passando meses inteiros sem ver um título sequer. O problema, como acabei percebendo, não era somente o cansaço de escrever: por mais chato que seja admitir, eu havia enjoado um pouco de filmes. Parar me fez bem.

Parei, descansei e voltei, e, mesmo não guardando boas recordações da série Invocação do Mal, (resumidamente, trata-se do que há de mais genérico na tradição derivada do O Exorcista), decidi aproveitar o feriado de 7 de setembro para assistir este A Freira, quinto (!!!) título da franquia. Sim, meus amigos, eu não tenho um pingo de amor próprio: eu fui no shopping, num feriado, assistir (na estreia!) um filme de terror para adolescente. Não tinha como dar certo e, de fato, não deu.

A Freira - Cena 3

O ano é 1952 e o lugar é a Romênia. 2 freiras são atacadas por uma força demoníaca: uma delas perece ao ser arrastada diretamente para a escuridão e a outra, para evitar ser possuída, comete suicídio saltando da janela da abadia com uma corda amarrada no pescoço. Um fazendeiro (Jonas Bloquet) encontra o corpo e a notícia acaba chamando a atenção do Vaticano, que designa o Padre Burke (Demián Bichir) para investigar o caso. Seguindo orientações superiores, o Padre parte para o local na companhia da Irmã Irene (Taissa Farmiga), noviça que ajudaria-o a encontrar o fazendeiro e explorar os arredores da abadia.

A Freira repete a fórmula do Annabelle ao pegar um personagem feioso de Invocação do Mal e dar-lhe um filme próprio para contar sua origem. E não é que o negócio começa bem? Gostei bastante do clima claustrofóbico da cena inicial e do som estouradão e perturbador da corda rangendo após o suicídio da freira. Depois disso, veio o divisor de águas de qualidade: a cena do fazendeiro, doravante Francês (é assim que ele é chamado na maior parte do tempo) no cemitério.

A Freira - Cena

O clima foi muitíssimo bem construído: noite, luz somente da lua e de um lampião que o sujeito, trêmulo, segura enquanto caminha no meio das lápides. O silêncio só é interrompido pela respiração ofegante do cara e por .. PQP! VTNC! O QUE É ISSO, CARALHO?! (CHUTA A CADEIRA DA FRENTE) Por mais que fosse óbvio que algo aconteceria naquele momento, a construção da cena foi tão primorosa que o cinema inteiro gritou tomado pelo pânico. Ponto para o diretor Corin Hardy. É uma pena, porém, que na sequência ele tenha optado por fazer o público rir. Após brigar com uma cria do demo, o Francês arranca uma cruz do chão e sai correndo, da forma mais cômica possível, rumo ao bar. Essa dinâmica (susto seguido de risada) é um truque velho dos filmes de terror (há até o subgênero terrir para classificar trabalhos assim), mas, ao meu ver, ela é a grande responsável por A Freira não funcionar: não dá para levar o filme a sério. Sempre que algo assustador acontece, logo em seguida vem uma piadinha para aliviar o clima. Pra piorar, nem os personagens ficam assustados com o que veem: num momento, o Padre está enterrado vivo dentro de um caixão, daí a cena corta e, na sequência, ele está andando e conversando como se nada tivesse acontecido. Haja sangue frio (ou talvez seja só problemas de continuidade mesmo).

A Freira - Cena 2

Pra finalizar, um comentário rápido sobre o tal “shopping no feriado”. A Freira é claramente um produto voltado para o público adolescente. O romancezinho, o tom leve das provocações religiosas (Meu Deus! Que pecado! Uma cruz invertida!) e as artimanhas baratas da maioria dos sustos (o vulto que aparece ao fundo e, sabe-se lá porquê, anda sempre pra esquerda, desaparecendo da tela) não são elementos pensados para quem luta no final do mês para pagar as contas. Quem é Valak perto da fatura do cartão de crédito? Todo caso, mesmo sabendo que eu era o “intruso” ali, não consegui deixar de reparar na falta de educação do público, que não só gritou e riu alto nas cenas que inspiravam tais reações, mas também conversou o tempo todo, mexeu no celular o tempo todo (é um ponto de luz num ambiente escuro, caras) e fez gracinha o tempo todo. “Olha o bicho vindo, meu irmão” (isso foi repetido 7x durante a sessão; sim, eu contei), “Ai, eu vou embora!” (não foi), “dá licença que nóis qué mijá” (citação ipsis litteris), “nunca mais venho no cinema” (duvido, mas amém). No fim, a experiência “Shopping no feriado” foi muito mais perturbadora do que o A Freira: adolescentes em bando fazendo gracinha dentro do cinema, eis a verdadeira manifestação do cão neste mundo ruim.

A Freira - Cena 4