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Venom (2018)

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Venom“Honesto”, eis a melhor palavra para definir Venom. Se fosse para dar uma nota, seria “7/10”. E o que isso quer dizer? Quer dizer que o filme poderia ser melhor (e abaixo explicarei o porquê), mas também significa que o diretor Ruben Fleischer realizou um bom trabalho, distanciando-se de produções como Quarteto Fantástico, X-Men: O Confronto Final e Homem Aranha 3, conhecidos desastres protagonizados por personagens da Marvel quando tratados por mãos alheias. Antes do bate e assopra, porém, vamos à sinopse.

Regressando à terra, uma nave espacial sofre um acidente pouco antes de reentrar na atmosfera. Os destroços do veículo caem na Malásia, e a investigação, que é conduzida sigilosamente pela empresa Fundação Vida, revela que parte do conteúdo transportado foi perdido. E não trata-se de um conteúdo qualquer: a mando do presidente da fundação, o visionário/lunático Carlton Drake (Riz Ahmed), a tripulação estava transportando simbiontes, formas de vida alienígena que o empresário pretendia utilizar em seu projeto de desbravamento espacial.

Paralelamente ao acidente, conhecemos Eddie Brock (Tom Hardy), repórter investigativo que ganha a vida revelando ao mundo a faceta podre da cidade norte-americana de São Francisco. Em sua busca pela verdade, Eddie apresenta poucos escrúpulos, e é assim que ele invade o computador de sua própria noiva, a advogada Anne Weying (Michelle Williams), e descobre informações assustadoras sobre a Fundação Vida: ao que tudo indica, a empresa está ocultando a morte de seres humanos que foram utilizados em testes obscuros. Eddie confronta Carlton Drake e perde: além do presidente valer-se de sua influência para fazê-lo ser demitido, Eddie é abandonado por Anne, que sente-se traída no caso do computador. Pobre Eddie.

E o pobre, no caso, também tem sentido literal: sem emprego e sem mulher, o cara passa a viver na pior, morando num muquifo e tendo seu currículo recusado por todos os jornais da cidade. Pausa para um elogio: não que isso seja novidade para alguém, mas o Tom Hardy mostra nessa parte inicial da história o porque de ele ser um dos grandes nomes de sua geração. É impressionante o quanto ele transita bem entre o drama e o humor inerentes ao fundo do poço que Eddie encontra-se, fora que o preparo físico do cara continua invejável. Voltando, o link para a ação acontece quando Eddie é procurado por uma funcionária da Fundação Vida, que convence-o a vasculhar o local em busca de pistas que possam incriminar Carlton Drake. Durante a incursão, Eddie é “contaminado” por um simbionte, adquirindo poderes sobre-humanos mas perdendo parte de sua autonomia para a entidade alienígena autodenominada Venom.

Venom - Cena

Venom divide-se claramente em 2 partes, uma séria e uma de pancadaria pura, com a aparição do protagonista (uma belezura em CGI) como divisor de águas. Da primeira, não há o que reclamar: os diálogos são bons, o humor está bem dosado e o Tom Hardy, conforme dito, está tinindo. A introdução, resumindo, foi muitíssimo bem executada, tanto na apresentação dos personagens quanto na criação de um clima para a história, que é majoritariamente noturna e numa pegada investigativa. Já a parte “POW BANG ZAPT” merece algumas ressalvas, a começar pela mudança de tom.

É sabido que um dos maiores trunfos da Marvel no cinema é o humor. No meio de um diálogo e outro, uma cena engraçadinha pra fazer a gente rir. Eu gosto. Venom peca nesse aspecto não pelo exagero, mas pela distribuição estranha. Depois que o simbionte aparece, o volume cresce exponencialmente. De certa forma, isso faz com que o clima mais “adulto” construído durante a introdução perca-se rapidamente. Outro problema trazido pelo início da pancadaria é a simplificação excessiva de pontos centrais do roteiro, sendo que a mais significativa é a motivação do Venom para, digamos, optar por ficar na Terra e, de uma forma bastante pessoal, combater o mal. É muito repentino e pouco convincente.

Venom (2018)

As cenas de ação são bastante criativas. Fora aquela perseguição de moto que o trailer já havia entregado, há ainda embates menores entre o simbionte e capangas genéricos de Carlton Drake e um “pega pra capar” entre o personagem e o verdadeiro antagonista da trama que o filme revela já próximo ao final. O diretor Ruben Fleischer mostra várias das habilidades de Venom, como poder reconstituir partes do próprio corpo e transformar seus membros e tronco em armas letais. Isso tudo é bem legal, mas o fato do “uniforme” do personagem ser preto/azul escuro, combinado com a ambientação noturna e a edição frenética deixaram o visual bagunçado demais. Já ouviram falar na expressão “briga de foices no escuro”? O desfecho de Venom é tipo isso aí.

Todo caso, comemoremos. A primeira cena pós-crédito (são duas) indicam tanto o início de uma franquia quanto um tom mais sombrio para a continuação. É bom dar risada vendo o Venom atormentar o Eddie Brock? Até é, mas legal mesmo é quando ele ameaça transformar um trombadinha em um “troço sem braços e sem pernas rolando por aí como bosta”. Tomara que sigam por esse rumo.

Venom - Cena 3

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O Regresso (2015)

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O RegressoE o Oscar vai para… Leonardo DiCaprio? Sim, ao que tudo indica, desta vez nada, nem mesmo um urso enfurecido, será capaz de impedir o triunfo do ator. DiCaprio, que já foi preterido pela Academia em outras 4 oportunidades, chega este ano como favorito para levar o Oscar de Melhor Ator depois de ter colecionado uma série de vitórias em outras importantes premiações organizadas pela indústria cinematográfica, entre elas o Globo de Ouro e o SAG (Screen Actors Guild).

Caso a tendência confirme-se e a estatueta dourada vá mesmo para as mãos do ator, será o fim de uma longa espera, mas não de uma espera injusta, como tem sido alardeado por aí. Nas outras vezes em que foi indicado, DiCaprio perdeu para as atuações irrepreensíveis do Tommy Lee Jones (O Fugitivo), Jamie Foxx (Ray), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) e Matthew McCounaughey (Clube de Compras Dallas), portanto trata-se muito mais de “azar” (visto que ele sempre enfrentou concorrentes fortíssimos) do que de injustiça. Vamos esclarecer a situação: a Academia não dará o Oscar para o DiCaprio para reparar erros do passado (como eles fizeram, por exemplo, com o Scorsese em 2007 pelo Os Infiltrados), ela o fará (aposto todas as minhas fichas nisso) porque o que ele faz nesse O Regresso é, inquestionavelmente, a melhor atuação masculina em um papel principal de 2015. Ele merece e ponto final.

O Regresso - Cena 2Exposto o que penso sobre o assunto mais óbvio envolvendo o novo trabalho do mexicano Alejandro González Iñárritu, pulo direto para o meu veredito sobre o filme: O Regresso é a produção mais completa dentre as concorrentes ao Oscar de Melhor Filme de 2016 e, já que considero que os divertidos Mad Max e Perdido em Marte não tem chances reais de ganhar, é bom que o prêmio vá para ele. Agora que vocês já sabem minhas opiniões e expectativas sobre a participação do DiCaprio e do filme na cerimônia do próximo dia 28, coloco o aviso de SPOILERS para comentar o que mais me intrigou em O Regresso: qual o significado daquele final inesperado?

Inspirado no livro The Revenant: A History of Revenge, romance baseado em fatos reais do escritor Michael Punke, O Regresso começa mostrando como a expedição do Capitão inglês Andrew Henry (Domhnall Gleeson) foi praticamente dizimada por uma emboscada fulminante feita pelos nativos americanos no século XIX. Encarregado de conduzir os sobreviventes de volta até as instalações inglesas, o guarda de fronteira Hugh Glass (DiCaprio) sugere que a comitiva siga pelo caminho mais longo, porém mais seguro, através das montanhas. A decisão é contestada com veemência pelo caçador de peles John Fitzgerald (Tom Hardy), que manifesta o desejo de utilizar o rio como atalho. Apoiado pelo Capitão, Glass vence o debate e inicia a jornada sob o castigo constante da neve e da chuva. É aí que, durante uma parada para descanso, o guia fica entre a vida e a morte após ser atacado por um urso.

O Regresso - Cena 4É difícil não concordar como o pragmatismo do Fitzgerald: carregar um homem ferido através de um território íngreme e hostil é algo que realmente pode colocar em risco a vida de todos os membros da comitiva. Novamente, porém, o caçador é silenciado, primeiro pelo Capitão, que é um homem responsável e temente a deus, depois por Hawk (Forrest Goodluck), indígena adotado por Glass que intercede para que o pai não seja deixado para trás. Acontece, porém, que Fitzgerald é um sobrevivente, um desses sujeitos que não pensam duas vezes antes de matar alguém para salvar a própria pele, e na primeira oportunidade ele dá um jeito de livrar-se tanto de Hawk quanto de Glass: o primeiro ele mata a facadas, o segundo ele enterra vivo.

O Regresso conta então como Glass levantou-se da sepultura, recuperou-se e atravessou um inferno de gelo para encontrar Fitzgerald e obter sua vingança. Ele, conforme o trailer anunciava, já havia “morrido uma vez” e nada seria capaz de parar um homem assim. Levando tudo isso em consideração, esperei ansioso por uma carnificina épica no final, mas não foi bem isso que aconteceu. Os personagens até mutilam-se mutuamente em uma cena brutal, dessas que fazem as esposas, mães e sogras tirarem os olhos da tela (fui acompanhado pelo trio rs), mas, no final, Glass decide perdoar seu inimigo sob a alegação de que “a vingança está nas mãos de deus, não nas dele”. Sim, depois de ter visto o filho ser assassinado, de ter sido enterrado vivo, de ter comido carne crua, de ter dormido dentro da carcaça de um cavalo e de ter esfaqueado Fitzgerald de todas as formas possíveis, Glass opta por não desferir o último golpe. E aí, o que devemos entender disso? A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena?

O Regresso - Cena 5A princípio, o desfecho de O Regresso parece pouco crível, mas, quando paramos para pensar nas imagens que Iñárritu nos mostra desde o início do filme, percebemos que o final faz bastante sentido. Através de flashbacks, Glass recorda-se constantemente de uma mulher que ele amou. Nessas cenas, ele compartilha com ela uma espécie de paraíso etéreo que contrasta significativamente com a desgraceira que ele está vivendo. A medida que o filme vai passando e o ódio dele por Fitgerald vai aumentando, porém, o tal paraíso vai ficando cada vez mais obscuro, culminando naquela cena com uma música de arrepiar em que ele sonha com o filho em uma igreja destruída. O que entendi é que o Glass de Iñárritu foi um homem religioso que teve sua fé testada por acontecimentos excepcionais. A vingança cegou o personagem durante muito tempo mas, no fim, tal qual aconteceu com o Jó bíblico (outro que perdeu tudo o que tinha), a confiança no julgamento divino salvou-o da perdição (reparem que, depois que ele desiste de matar Fitzgerald, a imagem sorridente da mulher volta a povoar seus pensamentos). A moral da história, acredito, é que sempre é possível perdoar, não para salvar o outro, mas para que o que há de bom na nossa alma não seja consumido pelo ódio.

O Regresso - Cena 3O Regresso, de certa forma, repete a mesma estrutura do Birdman, filme que deu ao Iñárritu o Oscar de Melhor Diretor no ano passado: apoiado em um espetáculo técnico primoroso, o diretor traz uma trama cujo significado será apreendido apenas por quem estiver disposto a pensar um pouco. O filme oferece experiências quase físicas, como a agonia da comentadíssima cena da luta do DiCaprio com o urso, que é de um realismo impressionante, e o nojo de ver o ator mastigando carne crua e ensanguentada, mas vê-lo apenas dessa forma, embrulhando o estômago e desviando o olhar da tela, seria um erro. Além da possibilidade de aprender com a história singular de autoconhecimento de um homem, O Regresso oferece ao espectador uma visão bela e amedrontadora da natureza, que é capturada com uma sensibilidade incrível pelas câmeras do diretor. Começando o longa com um plano sequência gigantesco e optando por filmar apenas com luz natural, utilizando o mínimo de efeitos especiais possíveis, Iñárritu executa outro trabalho técnico espetacular e presenteia nossos olhos com registros impressionantes da beleza mortal do inverno americano.

Mesmo estando disponível há um bom tempo na internet, esperei para ver O Regresso no cinema e não me arrependi: trata-se de um daqueles filmes que dá gosto pagar para assistir e que, independente dos Oscars que vencer, já garantiu um lugar na história do cinema.

O Regresso - Cena

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

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Mad Max - Estrada da FúriaJá tem uma semana que assisti Mad Max: Estrada da Fúria. Vi, aliás, TESTEMUNHEI o filme em 3D  na sala Xtreme do Cinemark local no dia da estréia e, como vocês perceberão nas linhas abaixo, eu não poderia ter ficado mais empolgado com esse novo episódio da franquia idealizada pelo australiano George Miller. Antes de compartilhar minha empolgação, porém, explico-lhes o justo motivo do atraso desse texto.

Quando escrevi sobre o primeiro Mad Max, eu disse que conhecia os outros dois filmes da série (A Caçada Continua e Além da Cúpula do Trovão) e que eu lembrava de algumas cenas deles. Não menti, mas foi só depois de assistir Estrada da Fúria, quando precisei pensar sobre a franquia como um todo para relatar o que vi, que me dei conta do quão pouco eu realmente recordava daqueles dois clássicos que foram tão presentes na minha adolescência. Assim sendo, resolvi revê-los antes de escrever esse texto para poder fazê-lo com um pouco mais de propriedade, daí o atraso. Da experiência, concluí o seguinte:

  • De fato, Estrada da Fúria não é um remake, mas sim um novo filme ambientado naquele cenário de escassez pós apocalíptico que reúne elementos de todos os seus antecessores.
  • A Caçada Continua é o melhor da trilogia original e, não por acaso, é o que tem a estrutura mais parecida com a desse novo filme.
  • Infelizmente, Além da Cúpula do Trovão é um filme ruim. Ok, ele tem uma música tema inesquecível e o começo, com aquela loucura envolvendo merda de porco e “dois homens entram, um homem sai”, é bem legal, mas pouco ou nada presta depois que Max é banido para o deserto. As cenas com as crianças parecem aquelas aventuras genéricas produzidas pelo Jerry Bruckheimer (uma amiga comparou-as acertadamente com os ‘filmes do Didi’) e a perseguição do final nada mais é do que uma reedição menos inspirada da conclusão do longa anterior.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 6Isto posto, dou logo o meu veredito: Estrada da Fúria é o melhor produto que já foi feito até agora com o título Mad Max. É preciso respeito com o passado, mas também é necessário coragem para afirmar que, 30 anos após sua última investida naquele universo, o Geroge Miller reciclou e aperfeiçoou sua própria fórmula de tal modo que os fãs da série não só ficarão satisfeitos com a fidelidade e dedicação do diretor a sua obra quanto reconhecerão que, de agora em diante, Mad Max sai do campo da nostalgia para voltar a ocupar o posto de referência dentro do gênero de ação.

Mad Max - Estrada da Fúria - CenaCuriosamente, porém, as cenas de ação brutais, estilosas e extremamente bem coreografadas, grande atrativo e característica mais marcante da série, parecem ter ficado em segundo plano nas discussões que o filme provocou. Nisso, vi mais comentários sobre as questões de gênero que o roteiro explora do que sobre, por exemplo, a insanidade que é você ter um personagem que tinge os dentes com um spray antes de atacar o inimigo no melhor estilo kamikase. Entendo que a força e determinação da Furiosa (Charlize Theron), bem como os diálogos das “noivas” que esbravejam contra a objetificação sexual que lhes é imposta pelo Imortal Joe (Hugh Keays-Byrne) seja visto como “propaganda feminista”. Entendo também que o fato de Max (Tom Hardy) bater em Furiosa e atirar contra uma mulher grávida provoque desconforto e seja interpretado como machismo. Entendo tudo isso, mas não vi e não abordarei Estrada da Fúria procurando pelo em ovo. Não que eu seja avesso a análises capilares, mas acho que o filme é competente e claro ao abordar os dois lados da questão: negar um em detrimento do outro é muito mais um sinal de desonestidade intelectual de quem o fizer do que a justa defesa de uma causa.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 5O que merece verdadeiramente ser comentado sobre o roteiro é a simplicidade e funcionalidade absurdas que ele atingiu. No rápido monólogo que abre o filme, Miller resume tudo o que aconteceu na vida de Max até ali: o cara perdeu a família e desde então passou a vagar no que restou do mundo lutando contra seus demônios internos e com tudo e todos que ameaçam sua sobrevivência. Trata-se de um sujeito que não tem mais nada para perder mas que nem por isso está disposto a cair diante de um idiota qualquer. Introdução feita, Max come um calango mutante (!!!), é capturado pelos capangas do Imortal Joe (adorei as cenas em que a imagem é ‘acelerada’) e pouco tempo depois já pode ser visto no meio de uma correria servindo de bolsa de sangue (!!!) para o personagem do ator Nicholas Hoult. É tudo muito rápido, doido, esquisito e incrivelmente fácil de compreender, tudo com o objetivo de nos levar para o que realmente importa aqui: as corridas/perseguições de veículos. Furiosa está fugindo através do deserto levando as noivas de Joe em um caminhão tanque. Joe reúne seus comandados e parte para capturá-la. Max escapa e decide ajudar Furiosa. Eis tudo o que você precisa saber sobre o roteiro de Estrada da Fúria antes de entregar-se as suas cenas de ação absurdamente legais.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 3O Max do Mel Gibson nunca foi um falastrão. No Além da Cúpula do Trovão chegam até a chamá-lo de “homem sem nome”, referência clara aos personagens do Clint Eastwood, caladão mor do cinema. Não estranhem, portanto, o fato do Tom Hardy passar a maior parte do filme em silêncio. É até coerente que assim seja, visto que uma pessoa que perdeu tudo e vive apenas para ver o dia seguinte não deve ter lá grandes afeições por discursos e teorias. Essa ausência de diálogos reflete diretamente no ritmo do filme, que é sobretudo visual. Convenhamos, não são precisas grandes digressões quando você tem pessoas explodindo umas as outras e veículos cheios de metrancas sendo levados ao limite em batalhas intermináveis. Também não são necessárias muitas palavras para explicar um sujeito tocando uma guitarra com lança chamas em cima de um caminhão enquanto os personagens quebram o pau: é foda e pronto.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 2Estrada da Fúria aproveita os eventos que traumatizaram Max e transformaram-no naquilo que ele é de Max Max, a estrutura “pouca conversa, muita ação” de A Caçada Continua e o visual punk  e o conceito de formação de uma nova sociedade em meio ao caos de Além da Cúpula do Trovão. O resultado é um clássico instantâneo do cinema de ação contemporâneo, um filme que explodirá a sua mente com sequências de pancadaria incríveis, um visual soberbo calcado em uma fotografia hiper colorida que destoa de outras produções pós apocalípticas e uma trilha sonora composta por riffs agressivos de heavy metal que poderiam estar em qualquer música do Sepultura. Partindo de uma ideia relativamente simples (jornada do herói + perseguição de veículos), Miller nos deu o filme de ação mais divertido e impressionante desse ano até o momento (desculpa, Era de Ultron, mas você já foi superado), fez justiça ao próprio legado e preparou sua expansão: Tom Hardy anunciou que deve assinar contrato para mais 3 filmes. Prevejo mais “lovely days” no horizonte para os fanáticos por ação.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 4

Os Infratores (2012)

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Os InfratoresA espécie humana, de formas um tanto quanto subjetivas e inconscientes, move-se através da história impulsionada por atos que visam sua autopreservação e perpetuação. No livro Leviatã, o autor Thomas Hobbes defende a idéia de que a vida em sociedade nasceu principalmente da necessidade de garantir-se condições para essa perpetuação. Para evitarmos um cenário onde todos guerreariam contra todos, abrimos mão da liberdade total e transferimos o poder de legislação para o ser artificial chamado Estado. O contrato social imaginário que, teoricamente, todos endossamos quando estamos dentro dos limites geográficos desse estado, é materializado na forma de leis, leis que sacrificam liberdades individuais em nome do bem comum. Os conflitos entre Estado e cidadão surgem principalmente quando esse “bem comum” não existe (ou não está suficientemente claro) ou quando o cidadão não está disposto a deixar o Estado interferir em suas decisões pessoais.

Entre os anos de 1920 e 1933, os Estados Unidos adotaram a Lei Seca Total, o que significa que ficou proibido a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas no país. Dentre os motivos conhecidos, atribui-se à lei a um movimento moralizante que considerava que o alcool, além de prejudicar a saúde física e psicológica, era socialmente degradante. Como essa opinião não era compartilhada por todos, em pouco tempo estabeleceu-se um gigantesco sistema de comércio ilegal de bebidas e o crime organizado instalou-se no país. O Estado, na ocasião diretamente representado pela polícia, primeiro combateu e depois passou a participar do esquema, cobrando propina para fazer “vista grossa”. É claro que nem todos os traficantes estavam dispostos a pagar pela proteção, afinal de contas eles eram o que eram justamente pela coragem de burlar a lei. Algumas pessoas, meus amigos, não se curvam para ninguém.

Os Bondurant

Os Bondurant

Jack (Shia LaBeouf), Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke), os irmãos Bondurant, fazem parte de uma família sobre a qual conta-se uma lenda de imortalidade. Tendo sobrevivido a afogamentos e até mesmo a terrível gripe espanhola, os Bondurant estabaleceram-se em uma pequena cidade do estado da Virgínia apoiados por sua resputação e pelo lucrativo comércio ilegal de bebidas caseiras. Diposto a controlar o contrabando, o violento capitão Rakes (Guy Pearce) chega na cidade e inicia uma “limpeza” que inclui a taxação das atividades e a eliminação dos descontentes. Os Bondurant, #chateados, optam por enfrentar as consequências.

Recordo-me de um monólogo no filme O Curioso Caso de Benjamin Button onde o personagem do Brad Pitt dizia que havia estado em vários lugares do mundo e que, independente das diferenças geográficas e culturais, todos os povos celebravam suas alegrias e tristezas bebendo. Degradante ou não, prejudicando ou não a saúde, embriagar-se para relaxar ou para fugir momentaneamente da realidade é uma opção cuja decisão, acredito, cabe tão e somente ao cidadão. Em um dos cartazes de Os Infratores, lê-se que “quando a lei torna-se corrupta, os fora-da-lei tornam-se heróis”. No caso, inverte-se a questão do mocinho x bandido não somente pelo policial interpretado brilhantemente pelo Guy Pearce ser o diabo em pessoa, mas também porque o estado americano, contrariando a máxima “it’s a free country” pelo qual o país é conhecido, tentou retirar um direito legítimo de seus cidadãos. O crime, então, assume contornos de uma genuína revolta contra o estado.

Forrest e Jack

Forrest e Jack

Os Infratores, filme comandado pelo diretor John Hillcoat e baseado em um livro escrito por um descendente da família Bondurant (Matt Bondurant), é um desses trabalhos que romantizam e tornam convidativa a vida vivida às margens da sociedade. Bebendo, acredito, na fonte chamada O Poderoso Chefão, Hillcoat caracteriza seus personagens e conduz a história aproveitando os caminhos trilhados pelo lendário Francis Coppola. Jack, com sua vontade de ingressar nos negócio da família eclipsada apenas por sua falta de coragem e decisão, é uma mistura de Michael e Fredo. Howard, assim como Sonny, é a brutalidade aliada a falta de bom senso. Forrest, por sua vez, tal qual o Don Corleone, é o cérebro da família, o sujeito forte e inteligente que, mesmo debilitado, consegue comandar os negócios e inspirar medo nos adversários. As semelhanças não param por aí: Jack compartilha o mesmo destino do personagem do Al Pacino quando recebe uma surra de um chefe de polícia e ainda é o membro da família responsável pelo romance da história. Forrest também recria a cena das laranjas do Marlon Brando quando é surpreendido em um bar por dois bêbados. Acreditem se quiserem, o que acontece com ele é ainda mais brutal do que a saraivada de tiros recebida pelo Don.

Argh!

Argh!

Particularmente, esses paralelos com o Chefão não me incomodaram. Ao contrário do que acontece em outros filmes que baseiam-se em clássicos de seu gênero, como o recente Oblivion, Os Infratores possui uma excelente história e não depende unicamente dessas referências para sustentar-se. Tom Hardy, que vem firmando-se como um dos grandes nomes dos atores de sua geração, está nada menos do que sensacional no papel de Forrest Bondurant, um sujeito frio e calculista que não admite precisar da ajuda de ninguém mas que durante a trama acaba dependendo da frágil personagem da Jessica Chastain para sustentar uma das muitas lendas que contam sobre si. Chama atenção ainda a participação do veterano Gary Oldman como o gangster Floyd Banner, praticamente um semi-deus dentro do mundo do crime que surge diante dos olhos espantados de Jack Bondurant metralhando um carro e, principalmente, a covardia desse último, algo que, de tão real, chega a dar raiva.

Os Infratores, além de trazer referências ao maior de todos os filmes de crime já feitos, tem uma narrativa fluída, que mistura bem cenas de violência (o ataque sofrido por Forrest) e humor (Jack e o amigo usando bebidas como combustível para o carro) e, definitivamente, coloca o nome Bondurant no hall de personagens cool dos filmes de gângster. Se, assim como eu, tu não conseguiu assistir esse no cinema, recomendo que tu procure por ele o quanto antes.

You're a Bondurant, and tou lay down for everybody

You’re a Bondurant, and you lay down for everybody

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

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NÃO RECOMENDO LER ANTES DE VER O FILME

Finalmente, finalmente! A espera por esse filme mexeu comigo ao ponto de eu sonhar com ele dias antes da estréia, uma loucura poética onde o Batman retirava o corpo morto do Coringa de dentro de um lago ao som de uma música clássica qualquer. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge não traz referências ao palhaço mas não deixa de ser um sonho que se realiza para quem esperava uma conclusão séria e sombria para a trilogia do Homem Morcego. Se é melhor do que O Cavaleiro das Trevas? Eu diria que NÃO, mas como não dá para responder isso de forma tão simplória, vamos logo a sinopse para depois explorar os defeitos e qualidades da conclusão da trilogia do Christopher Nolan.

A tragédia da queda do Cavaleiro Branco de Gotham, o promotor Harvey Dent, foi encoberta por uma mentira elaborada pelo Comissário Gordon (Gary Oldman) e pelo Batman (Christian Bale) e deram origem ao Ato Dent, uma lei que facilitou a prisão e julgamento dos criminosos da cidade. Oito anos após o caos provocado pelo Coringa, Gotham é uma cidade pacificada e o nome Batman é apenas uma lembrança distante: Bruce Wayne vive agora recluso em sua mansão e está fisicamente debilitado. Distante dali, o sequestro de um físico russo dá início a uma tempestade que lançará Gotham novamente nas sombras e testará seu vigilante pela última vez.

Considerando o histórico recente do Nolan, O Cavaleiro das Trevas Ressurge representava pra mim a promessa de um filme com um vilão com um propósito que fosse além do tradicional e infantilóide “dominar o mundo”. Bane (Tom Hardy) foi o escolhido para a ingrata tarefa de representar para esse filme o que o Coringa (Heath Ledger) foi para o Cavaleiro das Trevas. Personagens diferentes, atores diferentes, propostas diferentes, impossível fazer comparações qualitativas. O brutamontes de Hardy, um ex-membro da Liga das Sombras, não tem os diálogos elaborados e a insanidade do Coringa, mas não há dúvidas de que sua habilidade na luta e força física, bem como seu senso de planejamento, são tão perigosos quanto o caos provocados pelo palhaço. Como foi dito, são personagens diferentes e, mesmo que cada um possa preferir um ou outro, os dois foram muito bem elaborados e rivalizam com o personagem principal pela atenção do público.

Quanto ao tal “plano do vilão”, o roteiro também não decepciona. Fazendo links diretos com o Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas, Bane tenciona cumprir os planos de Ra’s Al Ghul (do primeiro filme) de trazer um suposto equilíbrio ao mundo. Concentrando suas atenções na sempre problemática Gotham, Bane sequestra um físico russo na sequência absolutamente espetacular que abre o filme e o leva até a cidade para que ele reprograme um reator das empresas Wayne de modo que ele transforme-se em uma bomba nuclear. Com essa arma nas mãos, o vilão discursa para Gotham (na também espetacular cena do estádio) sobre ter chegado o tempo em que não haveriam mais diferenças entre ricos e pobres, o tempo onde a população reaveria os bens e riquezas que eram seus por direito. Instala-se um governo popular baseado no terror dos tribunais que sentenciam sem rodeios os “ricos, corruptos e bandidos” a morte ou ao exílio e o caos impera com a falência dos serviços públicos básicos, como fornecimento de água, energia e alimento. Proibidos de abandonarem a cidade com a ameça da mesma ser explodida por Bane, os cidadãos de Gotham nem imaginam que essa nova “Revolução Francesa” tem data e hora para acabar: independente de ser acionada ou não, a bomba está programada para explodir quando seu contador zerar. O equilíbrio da Liga das Sombras é sobre exterminação, não sobre salvação.

Blake, Comissário Gordon, Batman, Bane e Mulher-Gato

Esse roteiro, além de reservar espaço para os desenvolvimento psicológico tanto do Batman quanto do Bane, ainda dá oportunidade para que personagens secundários, novos e antigos, apresentem seus conflitos e histórias. Nas quase 3 horas do filme, vemos as consequências que a história do Duas Caras trouxe para a vida do Comissário Gordon, o amor e dedicação do mordomo Alfred (Michael Caine) a seu patrão, os esforços de Lucius (Morgan Freeman) para manter as empresas Wayne na ausência de Bruce,o mistério que envolve a milionária Miranda (Marion Cotillard), a luta da ladra Selina Kyle (Anne Hathaway) para limpar seu nome e o surgimento de um novo herói sem máscara, o policial Blake (Joseph Gordon-Levitt), um rapaz que costuma desenhar pássaros e cujo primeiro nome começa com a letra R.

Bem, ao lado do vilão, da história e dos personagens secundários, eu também acrescento as cenas de ação como pontos positivo do filme. Ao contrário do que aconteceu no O Cavaleiro das Trevas, aqui o Batman realmente luta contra o seu inimigo e o combate é nada menos do que brutal. Bane, fisicamente superior a um Bruce Wayne enferrujado, literalmente quebra o Homem Morcego na recriação de uma das passagens mais emblemáticas das HQ’s do personagem. Destaque ainda para as já citadas cenas do avião e estádio e para a perseguição de moto no momento onde o Batman ressurge. “Segure-se e prepare-se para o show”, diz um personagem, e é exatamente isso que acontece quando aquela moto aparece na tela com o Cavaleiro das Trevas ressurgindo após 8 anos nas ruas de Gotham.

Infelizmente, mesmo que o Nolan tenha tido o cuidado de acrescentar detalhes para os fãs e procurado ser fiel aos quadrinhos, ele não consegue escapar do fato de estar lidando com uma das maiores franquias do cinema contemporâneo e da responsabilidade que isso obriga-o a ter com o grande público. Mesmo com todas as escolhas arriscadas que tomou durante o caminho, o diretor ainda recorre a diálogos “mastigados” para explicar coisas que deveriam ficar subentendidas (Bane e Miranda explicando seus planos, a revelação da identidade do Blake) e opta por um final um tanto quanto broxante perto daquilo que ele mesmo mostra que poderia ser. Não quero dizer que faltaram culhões para o mesmo diretor que explodiu hospitais, matou alguns personagens e mutilou outros, mas não pude esconder minha frustração.

Notem a estrutura desse texto: 4 parágrafos com elogios e 1 apontando detalhes que poderiam ser melhorados: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é exatamente isso aí, um filmão que destaca-se de tudo que tem sido feito devido a seu nível altíssimo de qualidade. Tem um ou outro defeito? Sim, mas isso é algo que tu perceberá após uma reflexão pós-filme, a sessão é de imersão total, tensa, sofrida, dolorosa e empolgante. Repito: não é melhor do que O Cavaleiro das Trevas, mas como há poucos filmes que podem ser classificados como tal, isso não é exatamente um demérito.

Guerreiro (2011)

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“Concentra no filme, no filme…”

… ok. Temos esse ex-fuzileiro naval, Tommy Conlon (Tom Hardy) que acabou de retornar da guerra. Sem o que fazer e consumido por uma raiva de raízes familiares, Tommy retoma o velho hábito de lutar e procura o pai (Nick Nolte em atuação indicada ao Oscar) para treiná-lo. Tommy quer participar do badalado torneio Sparta, oportunidade onde os 10 maiores casca-grossas do MMA do planeta irão reunir-se para quebrar alguns ossos. Além de poder descontar todas suas frustrações no lombo de alguém, Tommy espera ganhar o prêmio de 5 milhões de dólares oferecidos para ajudar a esposa de um amigo morto em combate no Iraque. Com a casa hipotecada, o professor de física Brendan Conlon (Joel Edgerton), irmão de Tommy, também começa a preparar-se para o torneio visto que, fora ensinar os alunos que F= M.A, Brendam também é um lutador talentoso e precisa de grana para salvar seu lar. Separados desde a adolescência devido a um trauma familiar, os dois irmãos terão no torneio a chance de resolverem suas diferenças. Isso, é claro, se eles conseguirem vencer o russo invencível, o truculento Koba.

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HELL YEAH, PORRADA! Esqueçam essa histórinha manjada de briga familiar, dentro do filme ela só serve para dar uma oportunidade ao veterano Nick Nolte de entregar uma bela atuação. Guerreiro, título deveras genérico que por pouco não matou meu interesse pelo longa, é a versão adulta do legalzão Gigantes de Aço, um filme onde o que verdadeiramente importa são as lutas e tudo aquilo que está relacionado a elas, como provocações, narradores sem noção (ACABOU!ACABOU!), músicas de entrada grandiosas e lutadores cujos músculos só não são maiores do que a arrogância com a qual eles dirigem-se aos adversários.

Enquanto o Joel Edgerton faz o tipo Rocky, o lutador capaz de apanhar mais do que qualquer outro ser humano e mesmo assim continuar de pé à espera da oportunidade de encaixar o golpe perfeito, o Tom Hardy é um bad boy completamente endemoniado, uma máquina de nocautes contra o qual ninguém consegue passar do 1º round. Em alguns momentos, o ator me lembrou o Wagner Moura no Tropa de Elite, parece que bateram na cara dele antes das cenas, o homem está louco e com sangue nos olhos.

Todas, digo TODAS as lutas do filme são bem coreografadas e emocionantes, mas arrisco a dizer que o combate entre Koba e Brendan vai para o lado de lutas como Rocky vs. Ivan Drago, Goku vs. Freeza e Ken vs. Chun Li (duvida? clique aqui ) no hall da história da pancadaria, empolguei-me ao ponto de roer as unhas ansioso pelo desfecho.

É invegável que o impacto de Guerreiro é maior devido a recente popularização do MMA no país, vemos as lutas e reprisamos mentalmente as emoções dos combates de Anderson Silva, Cigano e cia. Diverti-me com essa selvageria assinada pelo diretor Gavin O’Connor. É por esse tipo de filme que os testosteronas totais sempre terão um espaço no meu coração 🙂

Brendan Vs. Koba

O Espião Que Sabia Demais (2011)

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Recentemente estive em Belo Horizonte para fazer uma prova e reservei um tempo para ir ao cinema e ver como são as salas de exibição de outra cidade. Saindo do bairro Gameleira, peguei o metrô, desci na estação Santa Efigênia e fui até o Cineart do Boulevard Shopping. Acostumado que estou com a falta de organização do Cinemais, fiquei muito satisfeito com o sistema de compra de bilhetes que lhe permite escolher o número do assento, solução simples e prática para as filas intermináveis antes dos filmes e para os “fura filas”. Agrada ainda os estofados de couro, a forma como as cadeiras são distribuídas dentro da sala e a temperatura ambiente, tudo isso pagando meia entrada de 7 dinheiros em uma sexta-feira. Acorda pra vida, Cinemais!

Fiquei feliz com o atendimento do Cineart, mas não posso dizer o mesmo do filme que eu escolhi para assistir. O Espião Que Sabia Demais é daqueles filmes que possuem cartazes exibindo críticas positivas e comentários empolgados de veículos de comunicação importantes. Dirigido pelo sueco Tomas Alfredson (responsável pelo aclamado Deixe Ela Entrar), trazendo um elenco majoritariamente inglês e lidando um tema complexo envolvendo traição e espionagem na Guerra Fria, era de esperar-se uma narrativa complexa que fizesse justiça a esses elementos, um filme de aspecto “cerebral” cuja apreciação dependeria do espectador apreciar bons diálogos, atuações e construção de personagens. Bem, o filme não é uma decepção nesse ponto, mas …

A história acontece na Inglaterra da década de 70. Control (John Hurt), chefe da inteligência britânica, desconfia que há um espião russo entre os seus comandados e planeja uma missão em Budapeste para descobrir quem é. A missão dá errado e ele é forçado a entregar o cargo. Usando sua influência, Control pede para que o agente George Smiley (Gary Oldman) também saia da agência e continue a investigação, a qual depende da localização e das informações de outro agente, o misterioso Ricky Tarr (Tom Hardy).

Fiz um esforço mental aqui para lembrar onde eu li/ouvi que tudo que vem em uma frase antes do “mas” é mentira. Aplicando isso ao que eu disse dois parágrafos à cima (… o filme não é uma decepção, mas…), eu tenho que reconhecer que sim, eu fiquei decepcionado. Mesmo levando em consideração todas as informações relatadas sobre o que seria visto, eu esperava um filme de espionagem envolvente, com uma narrativa inteligente cujo final amarraria todas as pontas da história e daria aquela gostosa sensação de “ah, entendi!” tão agradável em filmes como o primeiro Jogos Mortais. Isso só não acontece quanto o diretor Alfredson parece esforçar-se para tornar a trama o mais complicada possível, há poucas passagens explicativas e os diálogos, em sua maioria sobre temas subjetivos relacionados a vida dos personagens, não contribuem para a elucidação do argumento. Imagine que você está sentado em uma mesa com dois estranhos conversando sobre assuntos e histórias que você não conhece. Foi mais ou menos assim que eu me senti assistindo O Espião Que Sabia Demais.

Voltando a minha afirmação de que “o filme não é uma decepção”, é necessário reconhecer que, tecnicamente, ele é uma variação válida e muito bem executada dos filmes de espionagem.

  • O cenário de conspirações e informações valiosas parecem muito mais reais do que Dry Martinis, Astons Martins e cenas de ação absurdas.
  • As atuações são excelentes, destaques para a imobilidade poderosa “a la Corleone” do Gary Oldman e para a eloquência do Colin Firth e seu sotaque delicioso.
  • A trilha sonora é inspiradíssima, as músicas indicadas ao Oscar compostas pelo Alberto Iglesias conferem um sempre bem vindo clima noir ao filme e a canção da última cena, La Mer, contribui para que o final seja um dos momentos mais inspirados do longa.

Infelizmente, a irrepreensível parte técnica não segura uma história confusa e demasiadamente lenta que arrasta-se por mais de duas horas. Quem viu Deixe Ela Entrar sabe que o diretor Tomas Alfredson tem muita lenha para queimar, mas aqui a direção dele contribuiu significativamente para a experiência tediosa que eu tive enquanto assistia.

Um deles é um traidor