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Nasce uma Estrela (2018)

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Nasce uma EstrelaDe: Lucian, 23/10/18

Para: Lucian, para relembrar, para nunca esquecer

Este é um texto pessoal, longo e cheio de spoilers. É uma carta pra mim mesmo, que compartilho com você com uma única condição: não julgue 🙂

Ano passado, este blog morreu junto com o Chester Bennington, ex vocalista do Linkin Park. Em minha confusa, trôpega e sincera nota de despedida, eu reuni forças para reconhecer que o meu coração não estava mais aqui. Resumidamente, eu assistia um filme e, no lugar de me divertir e/ou aprender com a história, eu me sentia culpado. Culpado? Sim, caras. Sofri com inúmeros bloqueios criativos oriundos de uma rotina cansativa e estressante. Para vocês terem ideia, eu passei cerca de 3 dias tentando escrever, sem sucesso, a resenha do Homem Aranha – De Volta Ao Lar. Não saiu. Fui ao cinema, revi o filme, voltei para o computador e… nada. A sensação perturbadora de que eu “não tinha mais nada a dizer” cresceu dentro de mim, e foi aí que o Chester se foi. Eu fiquei assustado.

Há, claro, a tristeza e a incredulidade do fã que perde o ídolo. Ainda acho complicado acreditar que nunca mais ouvirei a voz do vocalista em uma música nova. O mais difícil, porém, foi enxergar-me na tragédia daquele ser humano, um homem que gritava (e como gritava!) com seus demônios (no caso, coisas tenebrosas envolvendo abuso sexual e vício em drogas) e que foi vencido por eles. Perguntei-me: se até ele, o poderoso frontman de uma das bandas mais bem sucedidas do milênio, não conseguiu suportar o fardo, o que sobraria pra mim, menino chinfrim que vez ou outra reclamava da vida em um blog obscuro de cinema? A gente sente-se pequeno demais quando testemunha um gigante cair. Foi por isso que parei de escrever: para alcançar minha própria sanidade mental e evitar o colapso, eu precisava descansar a cabeça e investir meu pouco tempo livre em atividades simples e prazerosas. Parei, e até que no começo foi bom.

Nasce uma Estrela - Cena 6

Depois da tempestade, porém, veio mais tempestade, e foi das brabas. Além de não conseguir investir meu tempo ocioso em coisas legais e produtivas, eu me endividei e vi o meu casamento de mais de 4 anos acabar no meio de um turbilhão de mentiras, decepções e ressentimentos. Vi-me sozinho, amparado pela família e por alguns poucos amigos, é verdade, mas sozinho. Todos os dias, após cumprir duas jornadas de trabalho, eu voltava pra casa cansado e, quando abria a porta, encontrava um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelos “MIAU MIAU” da minha gatinha (a Fufu) e pelo som da televisão, que eu ligava com o único intuito de fazer barulho e trazer um pouco de vida para aquele ambiente melancólico. Procurei um psicólogo e tentei tocar a vida, mas a minha força de vontade durou apenas duas semanas: diante de seguidas negativas da minha ex-esposa em reatar a reação, cogitei ir dar um abraço no Chester, e foi por muito pouco que eu escapei do pior.

Lembro perfeitamente da sensação. Era sábado e eu iria sair à noite para um showzinho com um amigo. Lavei roupa, limpei a casa, fiz compras, me arrumei e saí. Aí meu amigo me mandou mensagem relatando um imprevisto e cancelando a saída. Aí começou a chover. Eu estava de moto, caras: fiquei COMPLETAMENTE encharcado e com frio. Liguei para a ex: mais um fora. Voltei a dirigir e passei ao lado de um caminhão. Pronto, era só dar um leve toque no guidão para a direita e… hasta la vista, baby! Não sei ao certo de onde tirei forças para não fazer o pior, mas o fato é que eu apenas dei um grito de desespero, me recompus e toquei a moto até a casa da minha vó, que me recebeu com uma xícara de café e um colo afetuoso.

Nasce uma Estrela - Cena

*Os dias passaram e o espírito oscilou. Vi o céu e o inferno, vi pessoas (algumas delas saídas diretamente do inferno), vi shows, perdi 5kg, joguei videogame, dei conselhos genéricos para um amigo que me procurou para dizer que estava com depressão, saí para correr e bebi. Bebi muito. Num determinado dia, bêbado, liguei novamente pra ela: outro fora? Sim, o quarto. Percebendo que eu estava caminhando a passos largos para outro momento de desespero, decidi tentar algo inédito: procurei uma religião. Eu, que até então me declarava agnóstico, entrei todo vergonhoso em um centro espírita e sentei num banquinho, lá no fundo da sala, e esperei que alguém viesse, sei lá, me “atender”. Enquanto esperava, decidi fechar os olhos e rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Depois disso, veio a limpeza: senti alívio, mas também senti agonia, daí chorei, chorei muito. Conversaram comigo, me aconselharam, me deram o “passe” e um livro do Evangelho Segundo o Espiritismo caso eu quisesse estudar a doutrina.

Muita coisa aconteceu depois disso e, se nem todas foram boas, ao menos todas foram feitas de forma consciente. Quando reconheci minha incapacidade de lidar sozinho com minhas angústias e busquei amparo espiritual, consegui olhar para mim mesmo e ver o quão cheio de defeitos eu sou. É claro que ninguém muda de um dia para o outro e eu não serei hipócrita de dizer que “me converti” à doutrina, mas o simples fato de ir ao encontro daquelas pessoas uma vez por semana e, principalmente, “rezar” à noite e prestar contas das minhas faltas para Deus (ou para a minha própria consciência) me ajudou a ficar longe de muita coisa errada e improdutiva. Essa mudança foi concreta, foi real.

Nasce uma Estrela - Cena 3

Coincidência ou não, depois que decidi ter fé, amor próprio e me respeitar mais, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Voltei a escrever, resolvi alguns problemas financeiros antigos e… ela apareceu. Saímos, conversamos e tomamos água. Num outro dia, saímos e conversamos de novo, mas aí tomamos vinho. Na terceira vez, convite dela, fomos ao cinema ver esse Nasce Uma Estrela. Foi ali, num lugar que frequentamos centenas de vezes ao longo do nosso relacionamento, que a mágica aconteceu. Antes de fechar esta parte da catarse, porém, faço uma pequena pausa para falar do filme (finalmente!).

Nasce Uma Estrela é a versão do ator e diretor Bradley Cooper para uma história que Hollywood já contou 3 vezes (1937, 1954 e 1976). Acabei de colocar a versão de 1954 para download e, daqui algum tempo, vejo e digo para vocês quais são as semelhanças entre os longas, mas por ora vamos com esse lançamento. Jack (Cooper) é um cantor de country/blues (ou seja lá qual estilo seja aquele rs) famoso e talentoso. Entre um show e outro, porém, Jack dá muito trabalho para seu irmão e empresário, Bobby (Sam Elliot). Jack é alcoólatra, e é a necessidade de encher a cara que leva-o até uma boate GLS na qual ele vê uma desconhecida cantar. Ally (Lady Gaga) tem a voz de um anjo e a performance de palco de uma diva, mas a insegurança com a própria aparência impede-a de voar mais alto. O alcoólatra e a introvertida aproximam-se e se completam, e o poder das músicas que eles compõe daí em diante só compara-se ao inevitável abismo que a fama e as brigas constantes cria entre eles.

Nasce uma Estrela - Cena 4

Tecnicamente, é difícil olhar para Nasce uma Estrela e dizer que ele é o produto do debut de um diretor. Os bons enquadramentos, a fotografia (tentem reparar em uma cena onde a lateral do ônibus de Jack mistura-se com o por-do-sol) e o ritmo da trama remetem a trabalhos de mestres como Clint Eastwood. Parabéns para o Bradley Cooper. E, claro, temos o som também. O filme não chega a ser um musical daqueles onde, “do nada”, os atores começam a dançar e a cantar, mas eles cantam sim, e quando isso acontece dá vontade de bater cabeça com os riffs selvagens da guitarra de Jack ou encolher-se em posição fetal na cadeira e chorar com as interpretações poderosas de Ally. O IMDB diz que as músicas foram gravadas ao vivo, e é realmente esta a sensação que se tem, pois o som está alto e visceral tal qual o de um bom show. Gostei tanto de faixas como Shallow, Black Eyes e I’ll Never Love Again que acabei baixando a trilha sonora completa.

Jack é autodestrutivo e isso faz com que ele vá afundando-se aos poucos ao longo da trama até que, no clímax, ele comete suicídio. Essa cena é MUITO pesada e precisa ser vista com certa parcimônia, visto que o ato é um pouco romantizado por sua consequência: Jack decide dar cabo de si mesmo para aliviar o fardo de Ally, cuja carreira solo patinou devido aos escândalos públicos do marido com drogas e álcool. SUICÍDIO NÃO É OPÇÃO: PODE E DEVE SER EVITADO. Todo caso, é difícil conter as lágrimas na ultima cena, quando Gaga empresta seu vozeirão para Ally homenagear o esposo falecido numa apresentação cheia de emoção, e a sensação que a gente tem quando os créditos sobem é a de que vivenciamos uma experiência incrivelmente poderosa e intimista.

Nasce uma Estrela - Cena 5

E foi assim, com o rosto molhado de lágrimas e abraçado com a pessoa que eu conheci em 2010 e me casei em 2013, que terminei de assistir Nasce uma Estrela. Fui tomado por uma alegria sem precedentes e agradeci a Deus por, no meu momento de desespero naquele sábado chuvoso, ter me acalmado e me guiado para fora daquela escuridão. Hoje, só me interessa reforçar meus votos e reconstruir minha família. Obrigado por deixar a porta aberta, Rê. “Nós estamos longe do que é raso agora”

Este seria um fim perfeito para esta resenha, mas infelizmente ainda tem mais. Um dia após o cinema, recebi a notícia que um amigo cometeu suicídio. Se vocês puderem, voltem o texto e releiam o parágrafo onde eu disse que um alguém me procurou para dizer que estava com depressão (eu coloquei um * no início para facilitar). No olho da tempestade, até tentei apoiar, mas não encontrei forças. Aqui, não trata-se de assumir responsabilidades pelas decisões dos outros, visto que todos tem livre arbítrio, mas está difícil não pensar que eu poderia ter feito mais, falado mais, ouvido mais. Eu falhei. Perder o Chester (e o Chris Cornell), pelo amor que eu tinha ao trabalho deles, foi doloroso, mas perder esse amigo… aquele cara legal que parecia o Rob Thomas do Matchbox Twenty (foi a primeira coisa que eu falei pra ele), que gostava de cerveja preta e do Misfits, o cara que saiu lá de Florianópolis para me embebedar de Bacardi no dia do meu casamento… isso foi como perder um pedaço de mim e da minha história de vida.

Escrevi este texto como um aviso para mim mesmo. De quando em quando, voltarei aqui para lembrar dessa fase da minha vida, porque não quero esquecer e não quero repetir. Aproveito o espaço e o coração aberto, porém, para dirigir-lhe estas últimas palavras, meu querido amigo: esteja você onde estiver, me perdoe! Naquele momento, eu lhe dei tudo o que eu tinha, mas sei que foi pouco! Te juro que eu queria ter feito mais por você! Você estava longe, em outro estado, mas eu deveria ter ido aí, olhado nos seus olhos e lhe dito o quão foda você era! Eu acreditei, cara, me resignei e tive fé e a vida sorriu pra mim… é muito doloroso pensar que você não conseguiu forças para fazer o mesmo! Te prometo, em respeito a sua memória, viver a minha ao máximo daqui pra frente e nunca, nunca mais, me oferecer pela metade para alguém que se abra comigo. Faço-te esta promessa: farei-me porto seguro para quem precisar de mim, ouvirei e dedicarei tempo, como forma de homenagear sua memória e transformar o seu exemplo em algo construtivo.

Descanse em paz, meu querido, nos encontramos em outra oportunidade! “O estimado para 5 fora é aos…”

Nasce uma Estrela - Cena 2.jpg

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