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Halloween (2018)

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Halloween 2018Ode à tolerância: tenho MUITA birra com atraso. Marcar algo comigo e chegar mais de 10min depois do horário combinado (sem uma boa explicação) é pedir para me encontrar de cara amarrada. Numa sexta feira aí (26/10), porém, fui beneficiado por um atraso. Após um compromisso que acabou durando mais do que o esperado, corri em direção a um dos shoppings da cidade com a intenção de pegar a sessão do Halloween das 15hrs. Estaciona, sobe a escada rolante naquele pique de academia, vai até a máquina de autoatendimento e… 15hrs15min. “Putz, perdi os trailers e o início do filme”, pensei. Como a merda já estava feita, ainda gastei mais uns 5min comprando pipoca e refrigerante antes de entrar na sala do cinema, momento em que imaginei que já veria o Michael Myers enfiando a faca em alguém mas que, para a minha surpresa (e alegria!), os trailers estavam apenas começando. A sessão atrasou. Ri sozinho pensando no quanto já fiquei puto de raiva porque alguém me deixou 10/15min esperando. São nessas pequenas ironias de vida que a gente vai colocando o pé no chão e amadurecendo.

A fé nesse novo Halloween era pouca. Terminei meu último texto da série dizendo que eu torcia pela produção, mas a verdade é que, após muitas decepções, eu já havia desistido de ver algo que fizesse justiça à criação do John Carpenter. O saldo cinematográfico do assassino de Haddonfield, depois de porcarias como A Última Vingança, é muito negativo. Tendo como base o que vi aqui, porém, há razões para acreditar que o jogo poder virar. Assinado pelo diretor David Gordon Green, Halloween é um passo inteligente para o reboot da franquia, pois, ao ignorar todas as sequências do orignal, ele apresenta uma continuação direta dos eventos vistos no filme de 1978, decisão que garante uma boa dose de nostalgia e que abre caminho para novas e revitalizadas produções com o Myers.

Halloween 2018 - Cena 3

A trama respeita o tempo passado no mundo real e também acontece 40 anos depois (1978-2018) do primeiro confronto entre os irmãos Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Michael Myers. Ele foi internado em um hospital psiquiátrico, ela teve uma vida marcada pelo trauma daquela fatídica noite de Halloween. Laurie até tentou seguir a vida: casou, teve uma filha e ganhou uma neta, mas a obsessão que ela desenvolveu com um possível retorno do irmão transformaram-na em uma pessoa paranoica e indesejável. Isolada da família, Laurie opta por viver em uma casa no campo, casa que ela transforma em uma fortaleza na expectativa de, um dia, enfrentar Michael novamente.

A inevitável “reunião” começa a tomar forma quando um casal de jornalistas visita Michael no hospital psiquiátrico. Eles, que são do tipo que ganham a vida resgatando casos polêmicos do passado, pretendiam obter alguma informação do famoso assassino de Haddonfield. A cena onde a “entrevista” acontece é boa demais: aquele pátio enorme, com o Michael preso em correntes e cercado por um bando de desajustados, é, fácil, um dos melhores cenários já vistos na franquia. Ali, acontece o erro que trará destruição e morte para um número sem fim de pessoas: na ânsia de arrancar alguma palavra ou confissão do assassino, o jornalista mostra-lhe a famosa máscara (isso mesmo, a tal baseada no rostinho bonito do William Shatner). Big mistake, motherfucker: o cara fica possesso e, no dia seguinte, aproveita a transferência dos internos para fugir.

Halloween 2018 - Cena 4

A fuga, como não poderia deixar de ser, acontece no dia de Halloween. Primeiro, Michael trata de recuperar sua máscara e de conseguir uma faca gigante, depois, ele anda novamente pelas ruas de Haddonfield matando pessoas aleatórias que participam do “doces ou travessura”. É nesse ínterim que o assassino vai atrás não de sua irmã, que estava trancada em uma fortaleza na floresta, mas de sua inocente e avoada sobrinha, Allyson (Andi Matichak), o que obriga Laurie a abandonar o isolamento e tomar medidas para proteger sua família.

O diretor David Gordon Green atualizou a linguagem de Halloween acrescentando no longa a violência gráfica explícita típica de produções recentes do gênero. A cena em que o Myers pisoteia a cabeça de um infeliz até transformá-la em uma massa disforme de carne e ossos, por exemplo, não deve nada para “filmes podreiras” como O Albergue e Jogos Mortais. A utilização de elementos do presente ainda garante uma cena sinistra e espetacular com um sensor de movimento em um jardim (pobre gordinho!), mas também há espaço para o material clássico, a começar pela abertura. A fonte do título, a abóbora em stop motion e a musiquinha infernal: está tudo lá. Os fãs mais hardcore ainda notarão semelhanças com os outros longas da série que, apesar de não serem incluídos na cronologia, foram homenageados pelo diretor com a inclusão de diversos easter eggs: particularmente, gostei da recriação da cena em que o Michael consegue a faca na cozinha (Halloween 2) e das fantasias das crianças na rua (Halloween 3). Também chama a atenção a semelhança/homenagem com o roteiro do Psicose, quando personagens importantes são eliminados no meio da trama, deixando a gente sem reação.

Halloween 2018 - Cena 2

Ainda no campo da nostalgia, é muito bom que tenham resetado a linha do tempo para que a Jamie Lee Curtis pudesse voltar a interpretar a Laurie Strode. Depois de ser descartada da forma mais idiota do mundo no Halloween: Ressurreição, a personagem volta para um pega pra capar épico com seu algoz. Rola de tudo: arremessos, tiro na cara, tiro nos dedos, incineração e desrespeito. Mas não é Laurie Strode que protagoniza a melhor cena de Halloween. Numa ousadia com poucos precedentes, o diretor David Gordon Green teve culhões para colocar o Myers enfrentando uma criança. O resultado não é bom apenas pela coragem do cineasta de enfrentar um dos maiores tabus do cinema, mas também por toda a construção do clima sombrio da cena. Saca só:

“Pai e filho num carro na estrada à noite. Acidente de ônibus bloqueando a via. A gente SABE que o Myers estava no ônibus. O pai sai para verificar a situação e NÃO VOLTA. O menino, que a poucos instantes estava dizendo que só queria fazer aulas de dança, pega uma espingarda e desce do carro, gritando pelo nome do pai. Escuridão TOTAL. O Myers aparece.

Foda, né? Halloween é muito bom. Esta resenha está saindo com um pouco de atraso (é a proximidade do fim do ano letivo acabando com o meu tempo livre), mas, se ainda for possível, tentem assisti-lo no cinema, vale muito a pena. Todo caso, se vocês perderem esse, não se preocupem, porque é praticamente impossível que não haja uma continuação, tanto porque a produção foi muitíssimo bem nas bilheterias quanto porque, nos créditos, confirma-se outra tradição da série: após tomar uma sova épica, a respiração ofegante de Myers confirma sua imortalidade e seu inevitável retorno. Pobre Laurie Strode! 😆

Halloween 2018 - Cena

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Halloween: Ressurreição (2002)

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Halloween - RessurreiçãoCom mais um Halloween prestes a sair do forno (pasmem: será o décimo primeiro!), resolvi retomar minha cobertura da série e assisti esse Ressurreição, oitava episódio da saga do serial killer de Haddonfield. O texto conterá SPOILERS.

Façam-me um favor: olhem o poster ao lado. Em tradução livre, disseram que o filme é “aterrorizante” e “bom pra caralho”. Nada poderia ser mais distante da realidade. Ressurreição é um amontado de sem-vergonhices e ideias ruins que reuniram e resolveram chamar de Halloween, a começar pela “desculpa” que utilizaram para trazer o Michael Myers de volta.

O longa anterior, H20 – Vinte Anos Depois, terminou com a Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) arrancando a cabeça do Myers com um machado. Convenhamos que é um desfecho difícil de ser contornado, mas a solução encontrada beira o amadorismo: antes de confrontar sua irmã, Myers trocou de roupa com um paramédico, esmagando as cordas vocais do cara para que ele não pudesse denunciar sua identidade. Isso é explicado assim, PA, PA, POW! logo nos dois primeiros minutos. A gente não acredita nenhum pouco nisso, mas o filme segue mostrando que, após a luta, Laurie foi levada para um clínica. Lá está ela, entre o surto e o sedativo, quando Myers aparece novamente para atormentá-la. Dessa vez, porém, a mulher estava com o sangue quente: transcorrida uma rápida perseguição, ela consegue cercar e pendurar o cara num guindaste. Bastaria cortar uma corda e pronto, Myers descansaria até o próximo roteirista ruim (tanto no pessoal, quanto no profissional) revolver ressuscitá-lo. Neste momento, porém, acontece o improvável: afetada por algum tipo de sentimento fraternal, Laura vacila e é empurrada pelo irmão. Antes de cair, num misto de loucura e efeito especial ruim, uma frase de efeito: “Te vejo no inferno”. Segundo o IMDB, a Jamie Lee Curtis só participou de Ressurreição para garantir que seu personagem morreria e não retornaria mais para a série. Dica: ela está no elenco do filme que estreia mês que vem.

Halloween - Ressurreição - Cena 2

Sem Dr. Loomis e sem Laurie Strode, restou ao diretor Rick Rosenthal apresentar um novo grupo de personagens e inventar algo para relaciona-los com o Michael Myers. Esse “algo”, no caso, foi um…. reality show! A coisa funciona mais ou menos assim: um grupo de universitários capitaneados pela doce e inocente Sara (Bianca Kajlich) inscreve-se para participar de um novo programa de televisão cuja ideia é levar pessoas comuns para locais que foram palcos de grandes tragédias. Em sua estreia, o show comandado pelo excêntrico Freddie Harris (Busta Rhymes) visitará a casa da família Myers em Haddonfield. É ou não é a coisa mais absurda que alguém poderia fazer com a série Halloween?

Ressurreição é todo sobre atualizar a linguagem da série para a geração do novo milênio. Fora a proposta nojenta do reality show, o diretor ainda investe tempo em um relacionamento virtual e em mensagens de texto, recursos que Rosenthal utiliza até a exaustão no clímax do filme. Deixa eu contar o óbvio pra vocês: é lógico que o Myers reaparece em sua própria casa e passa a faca em todo mundo. É aí que Sara e Freddie, que estão sendo assistidos ao vivo pelo país inteiro, começa a receber mensagens de texto de seu crush virtual. Com informações valiosíssimas como “He’s in the house! (Ele está na casa!)”, o cara tenta ajudar a moçoila e seu amigo a escaparem do assassino. Fiquei dividido: ora eu ficava espantado com a canastrice do material, ora eu dava risadas do absurdo.

Halloween - Ressurreição - Cena

Falando em risadas, há algo no meio de todo o imbróglio que merece uma menção especial. O personagem Freddie, que é vivido pelo rapper Busta Rhymes, chama o Myers para o braço. É isso mesmo que vocês leram: conhecedor de uma arte marcial qualquer, o cara aplica uma série de golpes no serial killer, todos eles, lógico, acompanhados de gritinhos histéricos e caretas exageradas. Ao meu ver, este momento é o ponto mais baixo que a série chegou até aqui.

Ressurreição não é de todo ruim em seu conteúdo gráfico, já que o diretor não esconde sangue e peitos, mas nem o acerto nestes fundamentos do gênero terror salva o filme de ser, disparado, a pior coisa já feita com o título Halloween até então. Torço para que o próximo lançamento série, que marcará o aniversário de 40 anos do original, reserve algo melhor para o Myers e sua faca gigante.

Halloween - Ressurreição - Cena 3

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (1998)

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halloween-h20-vinte-anos-depoisQuando a série Halloween completou 20 anos em 1998 (o primeiro é de 1978), os produtores aproveitaram a data para revitalizar a franquia convidando a atriz Jamie Lee Curtis para voltar ao papel da icônica Laurie Strode.

Laurie, irmã de Michael Myers que acreditava-se ter morrido após o segundo filme, foi retirada do limbo pelos roteiristas de Hollywood que criaram para esta continuação uma história onde a personagem fingiu a própria morte para escapar do insistente assassino de Haddonfield. Com o nome de Keri Tate, ela mudou-se para a California, teve um filho (Josh Hartnett) e tentou continuar a vida, mas dia após dia as lembranças de Myers e sua faca gigante continuavam a atormentá-la. Laurie sabia que, mais cedo ou mais tarde, seu irmão apareceria para um acerto de contas definitivo com ela. A abertura de H20 mostra que esse momento chegou.

Como não poderia deixar de ser, o filme começa numa véspera de feriado de Halloween. As crianças estão correndo nas ruas, as abóboras estão sendo esculpidas e uma velha enfermeira, antiga colega de trabalho do finado Dr. Loomis no sanatório Smith’s Groove, está voltando para casa após um dia de trabalho. Na porta, ela encontra sinais de um possível arrombamento e chama a polícia. Diante da demora da viatura, a enfermeira pede para que alguns garotos da vizinhança (dentre eles, o ator Joseph Gordon-Levitt) ajudem-na a vistoriar a casa. Péssima escolha. Poucos minutos depois, Michael Myers sai do local com as informações que ele procurava sobre o paradeiro de sua irmã e com algumas mortes a mais no currículo.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cenaEm H20, vemos como o Myers foi para a Califórnia atormentar um pouco mais a pobre Laurie Stroder. Para tanto, o roteiro comandado pelo diretor Steve Miner ignora todas as loucuras que aconteceram do terceiro ao sexto filme da série (fábricas de máscaras assassinas, rituais celtas, etc) para concentrar-se no elemento familiar básico que ditou o ritmo dos dois primeiros títulos: Myers quer matar sua irmãzinha. Essa simplicidade, aliada ao retorno da Jamie Lee Curtis, poderia ter feito a série renascer após uma sequências de filmes ruins e inexpressivos, mas não foi bem isso que aconteceu. H20 é ruim demais e percorrer seus parcos 86min foi chatíssimo.

Para um filme que se propôs a celebrar os 20 anos do lançamento do original, é estranho notar o desapego do diretor e do roteiro por certas tradições da franquia. Abertura com a abóbora? Não. Música tema da série tocando insistentemente até quase explodir nossas cabeças? Não. Peitinhos? Não (e olha que a Michelle Williams está no elenco). Sequência rodada com uma câmera em primeira pessoa? Não. Cidade de Haddonfield? Também não. H20 tem o nome Halloween, mas, tirando o Myers e a Stroder, ele também poderia ter qualquer outro título que a gente não ligaria muito.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-3O retorno da Jamie Lee Curtis é outro ponto que não funcionou como esperado. A atriz, que debutou nos cinemas no A Noite do Terror, retornou para a série já consagrada após trabalhar com diretores importantes como o James Cameron, mas a real é que a nostalgia que a presença dela deveria provocar não dura mais do que uma cena. Além de não ter deixado o cabelo crescer para o papel (a Stroder original tinha o cabelo grande), a atriz parece estar atuando no automático, com má vontade. As discussões dela com o filho, por exemplo, cenas que poderiam ter uma carga emocional maior, são todas sofríveis.

H20 também peca muito no quesito violência. Seja por opção do diretor ou por censura, a maioria das mortes acontece fora das câmeras. Myers avista uma vítima, caminha em direção a ela, a cena é cortada e, em seguida, vemos um corpo ensanguentado caído no chão. A contagem de corpos também não ajuda: o assassino só começa a trabalhar pra valer depois de uma hora de filme e o rastro deixado por ele é deveras pequeno.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-4O último e inevitável confronto entre os irmãos não é dos piores. A forma como ele termina, aliás, é bem legal (e dolorosa), mas há tanta coisa ruim antes da Stroder entrar naquela ambulância que nem mesmo o final brutal salva o pacote. Eu já tinha ficado chateado com o Myers ladrão de carros. Eu já tinha torcido o nariz para a cena em que ele corta a perna de uma menina e a mesma foge sem nenhum pingo de emoção. Eu não gostei do humor bobo do zelador da escola. Mas nada, nada mesmo superou a frustração de ver o Myers tentando usar uma chave para abrir um portão. Isto é o tipo de coisa que você não deve colocar um dos maiores slashers da história do cinema para fazer.

Com 3 filmes bons (os dois primeiros e o quarto) e quatro ruins, o saldo da série volta a ficar negativo. O ponto bom é que agora faltam apenas mais 3 longas (não pretendo rever o remake de 2007 do Rob Zombie). O ruim é que o próximo, Halloween – Ressurreição, é o que tem a nota mais baixa dentre todos os títulos da franquia no IMDB (4.1) 😀

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-2

Halloween 2 – O Pesadelo Continua! (1981)

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Halloween 2 - O Pesadelo ContinuaRepetidas algumas das últimas cenas de seu predecessor, Halloween 2 (conforme anunciado no poster ao lado) passa a mostrar “mais da noite em que ELE voltou para casa”. Ele, no caso, é o doidão Michael Myers, o sujeito que ainda criança matou a irmã e, depois de 15 anos internado em um hospício, fugiu e retornou para a cidade de Haddonfield disposto a esfaquear alguns corpos adolescentes. Mesmo após ser alvejado várias vezes pela arma disparada pelo Dr. Sam Loomis (Donald Pleasance), Myers consegue escapar daquilo que parecia ser a morte certa e esta sequência dá conta do que aconteceu em seguida.

Gostei dessa proposta de roteiro que resgata a história exatamente do ponto em que ela havia parado. Via de regra, continuações costumam utilizar passagens de tempo que permitem que novos elementos/personagens surjam de modo a justificá-las, portanto é no mínimo interessante quando optam por um caminho diferente. É uma pena, no entanto, que a inventividade tenha resumido-se a esse recurso narrativo.

Halloween 2 é dirigido pelo estreante Rick Rosenthal, mas os créditos de produção e roteiro dados ao John Carpenter (diretor do primeiro) mostram quem, de fato, ditou as regras aqui. A impressão que tive é que Rosenthal fez pouco mais do que seguir uma cartilha que lhe foi imposta, tarefa que ele executou tão, mas TÃO bem que temos constantemente a sensação incômoda de estarmos assistindo não a um novo longa da série, mas sim uma espécie de compilação de cenas excluídas do filme anterior do Carpenter.

Halloween - O Pesadelo Continua - CenaQuando resenhei o Halloween, comentei empolgado sobre a cena de abertura, aquela inesquecível sequência em primeira pessoa em que o molecote Myers golpeia a própria irmã. Adivinhem só o que Carpenter Rosenthal nos mostra logo após concluir a recapitulação que abre o filme? EXATAMENTE a mesma coisa. Após ser alvejado por Loomis e cair da sacada de uma casa, Myers aparentemente havia desaparecido. Enquanto a polícia chega no local e a ambulância é chamada para socorrer Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), vemos que, na verdade, o assassino havia apenas escondido-se nas redondezas. É aí que, novamente através de uma câmera que simula aquilo que ele está vendo, vemo-lo deslocar-se sorrateiramente até uma casa próxima (onde um casal de idosos está assistindo o cult A Noite dos Mortos Vivos), roubar uma faca e usá-la para matar uma mocinha desesperada. Repetir o que deu certo no filme anterior é compreensível e, de certa forma, até cria uma certa “identidade” para a série mas, ao meu ver, reutilizar o recurso soou bobo e forçado.

Halloween - O Pesadelo Continua - Cena 2

Passado esse início um tanto quanto decepcionante, o filme desenvolve-se em cima de um roteiro relativamente simples, porém crível e funcional: Laurie é internada e Loomis, auxiliada por policiais locais, começa a procurar por Myers. Despistado por um acidente de trânsito que carboniza um sujeito mascarado, o Dr. abre caminho para que psicopata dirija-se até o hospital para o acerto de contas definitivo com Laurie. Halloween 2 tem algumas coisas sem importância acontecendo aqui e ali (como a polícia tentando retirar Loomis da cidade) mas, no geral, tal qual seu sucessor, ele é um filme onde vemos um assassino em série perseguindo uma mocinha. Sai a antiga casa de Myers, entra o hospital de Haddonfield como cenário. Saem as amigas no cio de Laurie, entram enfermeiras peitudas como vítimas. Sai a faca gigante, entra um bisturi (!!!) como arma. A fórmula é a mesma, a musica tema é a mesma, as cenas de morte, ainda que mais explícitas para acompanhar a onda de filmes slasher que o próprio filme ajudou a lançar, são parecidas (repetem aquela em que ele levanta alguém para depois perfurá-lo) e até mesmo o desfecho lembra muito aquele que fora usando anteriormente por Carpenter. A sequência produzida por Rosenthal, aquilo que é costumeiramente chamado de “continuação natural” é tão parecido com o material original que fica difícil assistí-lo sem aquela sensação chata de que já vimos tudo aquilo antes e melhor.

Halloween - O Pesadelo Continua - Cena 3Para não falar que o filme é completamente inútil no sentido de que ele apenas repete com menos brilho o que já havia sido feito anteriormente (atentem-se para o ‘efeito especial’ utilizando na cena do acidente: é um boneco!), o roteiro explora uma parte importante do passado de Myers que explica a fixação dele por Laurie. Gostei também de uma morte que lembra uma cena clássica do Um Cão Andaluz do Buñuel (essa aqui) e só, o resto é entediante e banal. Espero que os próximos filmes arrisquem um pouco mais e tragam uma ou outra idéia origial, caso contrário assistir essa série (faltam 9 longas!) será ainda pior do que foi ver a do O Massacre da Serra Elétrica.

Halloween - O Pesadelo Continua - Cena 4

Halloween – A Noite do Terror (1978)

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HalloweenAos poucos, vou conseguindo assistir e resenhar algumas das séries de terror clássicas por aqui. Quando comecei o blog, eu estava terminando de ver A Hora do Pesadelo, na sequência vieram todos os Hellraiser e, por último, comentei sobre os filmes do O Massacre da Serra Elétrica. Tenho um plano antigo de revisitar os longas do Jason (que eu cresci assistindo nas madrugadas da Globo), mas por hora vou investir no Michael Myers mesmo.

A franquia Halloween é composta por 10 longas, sendo 8 da série original, lançados entre 1978 e 2002, e 2 da recente onda de remakes hollywoodianos cujo primeiro é aquele filme meia bomba de 2007 do Rob Zombie. Neles, conta-se a história do psicopata Michael Myers, um sujeito que foi mandado ainda criança para um hospício após matar a própria irmã. Depois de 15 anos internado, o assassino consegue escapar e retorna para sua cidade, Haddonfield, disposto a torcer alguns pescoços.

A popularidade e culto ao redor desse debut, acredito, deve-se um pouco as condições em que ele foi concebido. Tal qual o A Noite dos Mortos-Vivos, Halloween foi rodado com um orçamento mínimo (aproximadamente $300.000) e rendeu cerca de 100 vezes o seu custo em bilheteria, tornando-se um dos filmes mais lucrativos de todos os tempos. Na época, porém, alheio a esse futuro sucesso comercial, o público compareceu ao cinema mesmo foi para ver em ação um dos primeiro grandes assassinos em série de Hollywood: Jason começaria a matança em Crystal Lake em 1980, Freddy invadiu seus primeiros pesadelos em 1984 e Pinhead só seria evocado pela Configuração dos Lamentos em 1987. É bem verdade que o Leatherface já estava picotando jovens desde 1974, mas considerando que a ambientação dos filmes dele é um tanto quanto diferente da dos demais dementes citados (a família de canibais age em um ambiente rural e são as vítimas que vão até eles, não o contrário), podemos compreender o interesse do público pela novidade que a estreia do Myers representou.

Halloween - CenaJohn Carpenter, que escreveu e dirigiu o longa, começa Halloween com uma daquelas sequências que a gente vê e não esquece nunca mais. Com uma câmera que simula uma visão em primeira pessoa, ele nos coloca na pele do assassino e nos faz caminhar furtivamente dentro de uma casa. Abrimos uma gaveta, selecionamos uma faca afiada e subimos os degraus de uma escada. A porta abre e, graças ao fim da censura que imperou no cinema americano até metade da década de 60, vemos uma bela jovem, completamente nua, sentada e escovando os cabelos. Nosso braço não hesita diante do grito: esfaqueamos repetidamente aquela amamentadora em potencial. Após nos permitir “experimentar” essa ação macabra, Carpenter desfaz a ilusão ao mostrar, em um plano convencional, a face de seu personagem: lá está, para nossa alegria nosso espanto, um garotinho vestido de palhaço segurando uma lâmina ensanguentada.

Halloween - Cena 3Depois desse começo brutal, a história avança 15 anos no tempo e contemplamos a calma Haddonfield em toda sua calmaria. O caso do menino psicótico ficou no passado, a casa onde ele morava ganhou fama de mal assombrada e as pessoas seguiram suas vidas. Dr. Sam (Donald Pleasence), médico que cuidou de Michael durante todo esse tempo, presencia então a fuga de seu paciente mais perturbado e prevê o pior. Halloween é um filme que exige constantemente que o espectador suponha certas coisas para que sua história avance. Por exemplo: tendo em vista que Myers não busca vingança, já que nenhum dos adolescentes do filme foi responsável por seu encarceramento, por que ele adquire aquela estranha obsessão por Laurie (Jamie Lee Curtis) e suas amigas? Só porque ele viu ela colocando um papel em sua casa antiga? Melhor do que julgar isso como um simples furo de roteiro é pensar que Myers, em sua insanidade, decidiu dar cabo de qualquer um que cruzasse seu caminho, assim, sem mais nem menos, como todo bom louco faz.

Halloween - Cena 4Morte, morte mesmo o filme tem poucas, principalmente se comparado a algumas produções atuais (contam-se 5 corpos), mas todas elas são bem filmadas e agoniantes. Todo caso, por incrível que pareça, o forte do filme não são essas cenas de violência. Apoiado em uma música tema inesquecível (que, aliás, foi usada em uma cena legal do ParaNorman), Carpenter construiu sobretudo um filme de suspense competente no qual imaginar o que pode acontecer com aquelas moças é bem mais amedrontador do que vê-las sendo esfaqueadas ou enforcadas com fios de telefone. Talvez devido a economias necessárias na hora de filmar, o diretor não exibe muitos detalhes quando manda seus personagens para o além (há pouco sangue no filme), mas é inegável que ele compensa isso com o clima tenso de perigo criado. A tal musiquinha, de tanto tocar, acaba deixando a gente meio paranoico depois de um tempo (duvida? então clique aqui e escute ela 10horas seguidas rs).

Halloween - Cena 5Como vilão, Myers é uma espécie de “pai” do Jason: caracterizado com um macacão e uma máscara que foi baseada no rosto do William Shatner (rs²), ele anda por aí com uma faca gigante ceifando vidas e, aparentemente, nada, NADA mesmo que tu fizer tiro, porrada, bomba será capaz de matá-lo. O final do filme, nesse sentido, chega a ser engraçado.

Halloween – A Noite do Terror é um filme relativamente curto (1h30min) e que possui um ou outro ponto que poderia ser melhor desenvolvido (fala-se pouco sobre as motivações/história do personagem principal), mas ainda assim ele é bem divertido, sendo praticamente impossível não reconhecer, ao assisti-lo, suas qualidades e o local que ele ocupa enquanto clássico absoluto dentro do gênero de terror.

Halloween - Cena 2