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Halloween (2018)

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Halloween 2018Ode à tolerância: tenho MUITA birra com atraso. Marcar algo comigo e chegar mais de 10min depois do horário combinado (sem uma boa explicação) é pedir para me encontrar de cara amarrada. Numa sexta feira aí (26/10), porém, fui beneficiado por um atraso. Após um compromisso que acabou durando mais do que o esperado, corri em direção a um dos shoppings da cidade com a intenção de pegar a sessão do Halloween das 15hrs. Estaciona, sobe a escada rolante naquele pique de academia, vai até a máquina de autoatendimento e… 15hrs15min. “Putz, perdi os trailers e o início do filme”, pensei. Como a merda já estava feita, ainda gastei mais uns 5min comprando pipoca e refrigerante antes de entrar na sala do cinema, momento em que imaginei que já veria o Michael Myers enfiando a faca em alguém mas que, para a minha surpresa (e alegria!), os trailers estavam apenas começando. A sessão atrasou. Ri sozinho pensando no quanto já fiquei puto de raiva porque alguém me deixou 10/15min esperando. São nessas pequenas ironias de vida que a gente vai colocando o pé no chão e amadurecendo.

A fé nesse novo Halloween era pouca. Terminei meu último texto da série dizendo que eu torcia pela produção, mas a verdade é que, após muitas decepções, eu já havia desistido de ver algo que fizesse justiça à criação do John Carpenter. O saldo cinematográfico do assassino de Haddonfield, depois de porcarias como A Última Vingança, é muito negativo. Tendo como base o que vi aqui, porém, há razões para acreditar que o jogo poder virar. Assinado pelo diretor David Gordon Green, Halloween é um passo inteligente para o reboot da franquia, pois, ao ignorar todas as sequências do orignal, ele apresenta uma continuação direta dos eventos vistos no filme de 1978, decisão que garante uma boa dose de nostalgia e que abre caminho para novas e revitalizadas produções com o Myers.

Halloween 2018 - Cena 3

A trama respeita o tempo passado no mundo real e também acontece 40 anos depois (1978-2018) do primeiro confronto entre os irmãos Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Michael Myers. Ele foi internado em um hospital psiquiátrico, ela teve uma vida marcada pelo trauma daquela fatídica noite de Halloween. Laurie até tentou seguir a vida: casou, teve uma filha e ganhou uma neta, mas a obsessão que ela desenvolveu com um possível retorno do irmão transformaram-na em uma pessoa paranoica e indesejável. Isolada da família, Laurie opta por viver em uma casa no campo, casa que ela transforma em uma fortaleza na expectativa de, um dia, enfrentar Michael novamente.

A inevitável “reunião” começa a tomar forma quando um casal de jornalistas visita Michael no hospital psiquiátrico. Eles, que são do tipo que ganham a vida resgatando casos polêmicos do passado, pretendiam obter alguma informação do famoso assassino de Haddonfield. A cena onde a “entrevista” acontece é boa demais: aquele pátio enorme, com o Michael preso em correntes e cercado por um bando de desajustados, é, fácil, um dos melhores cenários já vistos na franquia. Ali, acontece o erro que trará destruição e morte para um número sem fim de pessoas: na ânsia de arrancar alguma palavra ou confissão do assassino, o jornalista mostra-lhe a famosa máscara (isso mesmo, a tal baseada no rostinho bonito do William Shatner). Big mistake, motherfucker: o cara fica possesso e, no dia seguinte, aproveita a transferência dos internos para fugir.

Halloween 2018 - Cena 4

A fuga, como não poderia deixar de ser, acontece no dia de Halloween. Primeiro, Michael trata de recuperar sua máscara e de conseguir uma faca gigante, depois, ele anda novamente pelas ruas de Haddonfield matando pessoas aleatórias que participam do “doces ou travessura”. É nesse ínterim que o assassino vai atrás não de sua irmã, que estava trancada em uma fortaleza na floresta, mas de sua inocente e avoada sobrinha, Allyson (Andi Matichak), o que obriga Laurie a abandonar o isolamento e tomar medidas para proteger sua família.

O diretor David Gordon Green atualizou a linguagem de Halloween acrescentando no longa a violência gráfica explícita típica de produções recentes do gênero. A cena em que o Myers pisoteia a cabeça de um infeliz até transformá-la em uma massa disforme de carne e ossos, por exemplo, não deve nada para “filmes podreiras” como O Albergue e Jogos Mortais. A utilização de elementos do presente ainda garante uma cena sinistra e espetacular com um sensor de movimento em um jardim (pobre gordinho!), mas também há espaço para o material clássico, a começar pela abertura. A fonte do título, a abóbora em stop motion e a musiquinha infernal: está tudo lá. Os fãs mais hardcore ainda notarão semelhanças com os outros longas da série que, apesar de não serem incluídos na cronologia, foram homenageados pelo diretor com a inclusão de diversos easter eggs: particularmente, gostei da recriação da cena em que o Michael consegue a faca na cozinha (Halloween 2) e das fantasias das crianças na rua (Halloween 3). Também chama a atenção a semelhança/homenagem com o roteiro do Psicose, quando personagens importantes são eliminados no meio da trama, deixando a gente sem reação.

Halloween 2018 - Cena 2

Ainda no campo da nostalgia, é muito bom que tenham resetado a linha do tempo para que a Jamie Lee Curtis pudesse voltar a interpretar a Laurie Strode. Depois de ser descartada da forma mais idiota do mundo no Halloween: Ressurreição, a personagem volta para um pega pra capar épico com seu algoz. Rola de tudo: arremessos, tiro na cara, tiro nos dedos, incineração e desrespeito. Mas não é Laurie Strode que protagoniza a melhor cena de Halloween. Numa ousadia com poucos precedentes, o diretor David Gordon Green teve culhões para colocar o Myers enfrentando uma criança. O resultado não é bom apenas pela coragem do cineasta de enfrentar um dos maiores tabus do cinema, mas também por toda a construção do clima sombrio da cena. Saca só:

“Pai e filho num carro na estrada à noite. Acidente de ônibus bloqueando a via. A gente SABE que o Myers estava no ônibus. O pai sai para verificar a situação e NÃO VOLTA. O menino, que a poucos instantes estava dizendo que só queria fazer aulas de dança, pega uma espingarda e desce do carro, gritando pelo nome do pai. Escuridão TOTAL. O Myers aparece.

Foda, né? Halloween é muito bom. Esta resenha está saindo com um pouco de atraso (é a proximidade do fim do ano letivo acabando com o meu tempo livre), mas, se ainda for possível, tentem assisti-lo no cinema, vale muito a pena. Todo caso, se vocês perderem esse, não se preocupem, porque é praticamente impossível que não haja uma continuação, tanto porque a produção foi muitíssimo bem nas bilheterias quanto porque, nos créditos, confirma-se outra tradição da série: após tomar uma sova épica, a respiração ofegante de Myers confirma sua imortalidade e seu inevitável retorno. Pobre Laurie Strode! 😆

Halloween 2018 - Cena

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