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Getúlio (2014)

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GetúlioO quarto bimestre do calendário letivo de 2018 começou e, após aprenderem sobre os governos totalitários europeus e a Segunda Guerra Mundial, chegou a hora dos meus alunos do 3º ano do ensino médio voltarem-se para a história de seu próprio país para conhecerem o controverso Getúlio Vargas. Como gosto de aliar o tradicional “quadro/saliva” com outros tipos de mídia (há 2 anos uso um retroprojetor para filmes, textos e músicas), assisti Getúlio para selecionar alguma cena de peso para mostrar pra galera, visto que a aula de 45 minutos dificilmente permite a exibição de um longa completo.

Este filme, que foi produzido pela Globo filmes e que está disponível no catálogo da Netflix (checado 16/10/18), dá conta dos últimos dias do governo eleito de Getúlio (Tony Ramos), que foi de 1951 até 1954. Enfraquecido e pressionado a renunciar após o atentado da Rua Tonelero, episódio em que balearam seu principal opositor, o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), e mataram Rubens Florentino Vaz, major da FAB, o presidente cometeu suicídio na madrugada de 24 de agosto de 1954. Getúlio, que é assinado pelo diretor João Jardim, triunfa ao recriar com maestria o cenário de um dos momentos mais emblemáticos do Brasil republicano, mas o destaque mesmo é a abordagem do conflito psicológico do ex-ditador que “saiu da vida para entrar na história” num ato extremo para desvencilhar-se da imagem de caudilho.

Em linhas gerais (e com a profundidade que uma resenha de filme permite), a história nos conta que, após perder as eleições de 1930 para o paulista Júlio Prestes, Getúlio e os membros da Aliança Liberal (mineiros, militares do Movimento Tenentista e o paraibano João Pessoa) tomaram o poder através de um golpe militar. Este ato ficou conhecido como Revolução de 30 devido ao rompimento com a política do Café com Leite (esquema baseado em eleições viciadas e fraudulentas que elegia, alternadamente, candidatos de São Paulo e Minas), mas é fato que Getúlio não chegou ao poder através das vias legais. Governou de forma “provisória” até 1934 (enfrentando e vencendo o Movimento Constitucionalista em 1932), quando aprovou uma nova Constituição e foi eleito presidente de forma indireta. Em 1937, a divulgação do famigerado Plano Cohen (comunistas, caras!) criou o ambiente para um novo golpe e uma nova Constituição: nasceu assim o Estado Novo, governo autoritário de Getúlio, que subjugou o legislativo e o judiciário ao executivo, retirou direitos individuais (direito de greve), fechou partidos políticos e estabeleceu a pena de morte. O fim da Segunda Guerra e o apelo à democracia fizeram Getúlio renunciar ao cargo de presidente em 1945, o que pôs fim ao Estado Novo e levou ao poder, através de eleições diretas, o General Eurico Gaspar Dutra. Tivemos então uma nova Constituição, em 1946 e, nas eleições de 1950, Getúlio chega à presidência de forma democrática pela primeira, ao vencer o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes. Foram anos de fogo.

Getúlio - Cena

O último parágrafo, além de um exercício pessoal de síntese (professor nunca para de aprender), também é uma importante contextualização para entender o que é mostrado em Getúlio, visto que o diretor João Jardim já começa o filme no atentado contra Carlos Lacerda, valendo-se apenas de um rápido monólogo do presidente para resgatar sua trajetória até o cargo. O atentado, aliás, é mostrado da mesma forma que a história o registra: de forma obscura. Consta oficialmente que, no dia 5 de agosto de 1954, um homem feriu Carlos Lacerda com um tiro no pé e assassinou um major da FAB na rua Tonelero. Este homem seria Alcino João Nascimento, membro da guarda pessoal de Getúlio (a chamada Guarda Negra). Se até hoje existem dúvidas sobre o que realmente aconteceu ali (há especulações de que Lacerda, além de não ter sido ferido, matou o major), não é aqui que elas são sanadas: a cena do atentado é escura, confusa, com cortes abruptos e muita, muita correria e gritaria. Ao meu ver, o diretor acertou nessa.

Getúlio - Cena 3

O que vem na sequência, porém, é mais factual: Lacerda, que já atacava diariamente Getúlio, ganhou força após o atentado e ditou o tom do Inquérito Policial Militar que conduziu as investigações: Vargas, que não tinha controle nem mesmo sobre sua guarda pessoal, não tinha mais condições de governar, restando a ele apenas a saída “honrosa” da renúncia em nome do bem e da ordem nacional. Não acho que, fisicamente, o Tony Ramos tenha sido uma boa escolha para o papel. Não olho para ele e lembro do Getúlio. É inegável, porém, que o ator encarnou bem o político: o gestual está fantástico e aqueles longos silêncios contemplativos captam muitíssimo bem o tal conflito psicológico ao qual eu me referi anteriormente. Getúlio SABIA que, assim como fizera no passado, ele poderia ter silenciado Lacerda, Eduardo Gomes e seus demais opositores com o uso da força, mas o desejo de afastar-se da imagem de ditador fez com que ele se calasse e deixasse que o povo falasse por ele, tanto na comoção que tomou as ruas do país em seu funeral quanto nas eleições seguintes, onde seus adversários, mais uma vez, foram derrotados por um de seus “herdeiros políticos”, Juscelino Kubitschek.

Aos alunos, pretendo apresentar a cena do suicídio. É um momento visual e emocionalmente impactante e que, em 2018, ainda pode ser sentido de várias formas. A mais direta, lógico, é na sempre válida visita ao Palácio do Catete no Rio de Janeiro, “casa” do presidente que ainda conserva o cenário da morte de Vargas (pijama com mancha de sangue, a cama e a arma usada). A outra, está no nosso dia a dia, ao alcance de um click em qualquer rede social: entre atentados, conspirações, corrupção, discursos de ódio, oposição “auto-sabotagem” e golpes militares, continuamos construindo a história do nosso país. Glória!? Glória a Deux!

Getúlio - Cena 2

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