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Bohemian Rhapsody (2018)

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Bohemian RhapsodyI work hard (he works hard) every day of my life: A última semana foi infernal. Resumidamente, moto e chuva não combinam. Capa de chuva? Embuste! Molhei no caminho de casa para o serviço e, lá e de volta outra vez, molhei mais ainda, totalizando 35km diários de molhança e absolutamente nenhum ânimo para escrever. Hoje, porém, o sol está brilhando e eu estou de folga. Coloquei as roupas para lavar, passei um pano nos móveis, preparei as aulas da semana e agora, obrigações cumpridas, sentei aqui no meu quartinho para escrever a resenha do Bohemian Rhapsody. Antes de falar do filme, no entanto, vou gastar um parágrafo para contar a minha história de amor com o Queen.

And everything I had to know, I heard it on my radio: Conheci o Queen em algum ponto da década de 90. Eu estava ouvindo rádio e alguém ligou e pediu para tocar Bohemian Rhapsody. O radialista, ao vivo, falou que a música era “grande demais” para a programação, deu uma enrolada no cara e tocou I Want to Break Free. Dessa experiência, lembro de 2 coisas: gostei muito do refrão e odiei o solo. Na minha opinião (e que um dia eu seja perdoado por ter pensado assim), a guitarra tava com uma distorção meio brega e cafona. Todo caso, no final de semana seguinte, fui na feira do bairro, comi um pastel com Guaraná Mineiro e comprei um CD do Queen, uma dessas coletâneas que vinham no saquinho plástico e que custavam 3-5 reais. Bons tempos: como tínhamos acesso a um número menor de músicas (hoje, programas de download e aplicativos como o Spotfy dão acesso a milhares de títulos com apenas um clique), acabávamos valorizando mais cada uma das faixas disponíveis, decorando letras e tudo mais. Fiquei apaixonado pelo que ouvi, aprendi o nome dos integrantes da banda, pedi desculpas mentais para o Brian May e, finalmente, ouvi a magnânima Bohemian Rhapsody: passados quase 20 anos da primeira audição, ainda considero aquela parte que vem depois da sessão operística (So you think you can stone me and spit in my eyes?) como um dos momentos mais inspirados do rock ‘n roll de todos os tempos. As músicas do Queen estiveram no meu casamento (Love of my Life, lógico), estão nos vídeos que faço todo fim de ano para os meus alunos (no último, foi We Believe, do projeto recente com o Paul Rodgers) e estão sempre na minha playlist (atualmente, tô com Fat Bottomed Girls e I’m Going Slighty Mad). A Rainha é foda ❤

Bohemian Rhapsody - Cena

Are you ready, hey, are you ready for this?: Daí sai a notícia que fariam um filme sobre o frontman da banda, Freddie Mercury. Surtei total. Qualquer medo de que o trabalho não fizesse justiça a grandiosidade do vocalista e da banda foram deixados de lado quando os primeiros trailers foram divulgados. No que dava para ver ali, todos os integrantes estavam perfeitamente caracterizados e a encenação de episódios antológicos da história da música, como a gravação dos “Galileo’s” da Bohemian Rhapsody e da apresentação da banda no Live Aid, garantiriam nostalgia e momentos para cantar junto. Felizmente, o filme entregou exatamente o que prometeu: uma história relativamente linear, focada na trajetória do Freddie (Rami Malek), mas que dá a devida atenção para o talento do Brian May (Gwilym Lee), para a energia criativa do Roger Taylor (Ben Hardy) e para o pragmatismo e solidez do John Deacon (Joseph Mazzelo).

Love of my life, you’ve hurt me: Dirigido pelo Bryan Singer, Bohemian Rhapsody homenageia o gênio musical, o artista que conseguia conduzir uma plateia como ninguém (Eh ôh, eh ôhhhhh!), mas também há espaço para falar do homem que, apesar de todo o talento e fortuna, teve dificuldade para amar. Amantes não faltaram (certa vez ele disse que os teve mais do que a Elizabeth Taylor, uma mulher que casou 8 vezes rs), mas sua bissexualidade afastaram-no de sua esposa, Mary Austin (Lucy Boynton), e seu estilo de vida orgiástico impediu por muitos anos que ele se aproximasse de seu verdadeiro companheiro, Jim Hutton (Aaron McCusker). A solidão do personagem foi bastante explorada (gostei muito da cena do abajur), mas, numa decisão questionável, o Bryan Singer optou por tratar com parcimônia os últimos dias do cantor, falando pouco e de forma superficial da AIDS, doença que, associada a uma broncopneumonia, vitimou Freddie no dia 24 de novembro de 1991. Este caminho deixa a produção mais leve e pop, tal qual um hit radiofônico do Queen como A Kind of Magic, mas também impede que o material atinja a grandeza de produções mais complexas como Innuendo.

Bohemian Rhapsody - Cena 2

I consider it a chalenge before all the human race and I ain’t gonna lose: Se o drama sobre a vida pessoal do personagem poderia ter sido um pouco mais explorado, não há absolutamente mais nada a reclamar do filme. A caracterização dos personagens, por exemplo, é assombrosa. Não há dúvidas de que o destaque seja mesmo do Rami Malek, que capturou com perfeição o espírito e trejeitos do Freedie, mas, puta que pariu, olhem aquele John Deacon! Tá igual! Sobre a parte musical, celebro a decisão do diretor de revisitar o ambiente de gravação do clipe da I Want to Break Free, escancarar as brigas com empresários e de mostrar o momento que alguns hits (We Will  Rock You e Another One Bites the Dust) foram pensados. Também agrada muito a presença de piadas conhecidas sobre a banda (todas aquelas que envolvem a letra da I’m in Love With my Car) e a recriação quase na íntegra da apresentação do Queen no Live Aid, show que ainda hoje permanece como um das maiores transmissões ao vivo de todos os tempos. Poderíamos ter o David Bowie, a jaqueta amarela e mais algumas músicas, como Stone Cold Crazy? Claro que poderíamos, mas ainda sim o resultado é muito bom.

Bohemian Rhapsody - Cena 3

Why can’t we give love? Give love, give love, give love: Li em redes sociais que houveram registros de pessoas vaiando as cenas de homossexualidade do filme. Quando procurei fontes sobre o ocorrido, no entanto, encontrei apenas um print pouco confiável do Twitter. Registro aqui o que vi: sempre quando o Freddie beijava ou atracava-se com alguém, era notório o burburinho na sala. Num determinado momento (se não me falha a memória, foi quando ele passa a mão no derrière do Jim Hutton), ouvi alguém dizer “tomar no cu com essa viadagem”. Complicado, né? Não digo isso nem pelo fato da homossexualidade do cantor ser pública e notória, mas também pela insistência de algumas pessoas em querer opinar sobre decisões que não lhes dizem respeito. Todo caso, termino este texto relatando outra coisa que vi na sessão, esta sim emocionante: bem no fim do filme, quando a banda está executando a We Are The Champions no Live Aid, vi, nas cadeiras inferiores, uma velhinha levantando e balançando os braços na hora do refrão, prova irrefutável da atemporalidade e grandeza da música do Queen.

Queen é amor, e o amor, este sim, está acima de tudo e de todos.

Bohemian Rhapsody - Cena 4

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Clube de Compras Dallas (2013)

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Clube de Compras DallasMatthew McConaguey, meu filho, o que aconteceu com você? Onde foi parar aquele sujeito bombadão que caras como o Matt Damon zoavam por atuar basicamente tirando a camisa e mostrando o peitoral? Em 2013, além de ter feito uma ponta absolutamente genial no O Lobo de Wall Street (desafio você, amigo leitor, a ver o filme e não sentir vontade de entoar aquele canto batendo vigorosamente no peito rs), o ator, tal qual o Tom Hanks já havia feito no clássico Filadélfia, chamou a atenção da Academia por perder vários quilos para dar vida a um aidético que lutou o quanto pode por sua vida e para vencer o preconceito e a falta de informação que cercam a doença. Clube de Compras Dallas concorre a 6 Oscars e, ainda que o filme tenha outras qualidades, não há porque esconder o óbvio: McConaughey calou a boca de seus críticos e, ainda que divida os méritos de interpretação com o não menos cadavérico Jared Leto, é o grande responsável pela visibilidade que o longa recebeu.

Assim como seus principais concorrentes, o filme do diretor Jean-Marc Vallée (A Jovem Rainha Vitória) é baseado em fatos reais e conta a história do cowboy/eletricista Ron Woodroof (McConaughey), um típico texano durão e preconceituoso que levava uma vida de excessos regada a drogas e prostitutas até o dia em que, após um desmaio repentino, os médicos o diagnosticaram como portador do vírus HIV. Avisado de que provavelmente viveria apenas mais 1 mês, Woodroof começa uma pesquisa desesperada e intensiva sobre a doença, a qual o leva até outros países para comprar coquetéis de drogas experimentais. Com o conhecimento adquirido e com a ajuda do homossexual Rayon (Leto), o cowboy monta o Clube de Compras Dallas, um lugar onde os portadores do vírus poderiam encontrar, por uma taxa mensal, todos os remédios necessários para lutarem contra a Aids. A iniciativa, obviamente, não agrada o governo e a FDA (Food and Drug Administration), que até então haviam liberado para uso apenas o ATZ, droga que o personagem considera maléfica para o organismo.

AMF_6986 (70 of 376).NEFPassado o choque inicial de vermos o monte de pele e osso que um dia foi o McConaughey dentro de uma calça jeans, começamos a prestar atenção na atuação do ator. Ainda que não deva ter sido tão difícil emular aquele sotaque (já que ele nasceu no estado do Texas) e que perder peso daquela maneira seja a consequência de um esforço físico e alimentar coordenado por pessoas capacitadas para tal, até mesmo os maiores críticos do trabalho do cara deverão reconhecer que a caracterização que ele deu para o personagem é espantosa. Acostumados que estávamos a ver o ator, sem camisa, interpretando homens sedutores em comédias românticas como Como Perder um Homem em 10 Dias, praticamente esquecemos que trata-se da mesma pessoa na tela quando ele surge como um autêntico texano fazendo piadas homofóbicas sobre a homossexualidade do ator Rock Hudson. O bigode, a magreza e o sotaque carregado, juntos e ostentados por um ator inexperiente, poderiam facilmente terem dado um certo aspecto cômico ao personagem, transformando-o em uma paródia indesejada do Borat. Nas mãos de McConaughey, esses elementos serviram para compor um homem verdadeiramente detestável, daqueles pelo qual ninguém conseguiria sentir nenhuma espécie de simpatia. Aí, é claro, acontece algo e o personagem começa sua jornada de redenção diante dos olhos do espectador.

Clube de Compras Dallas - Cena 4Esse algo, conforme já dito, é a descoberta do vírus da Aids. Ao ser comunicado do resultado de seu exame de sangue, Woodroof opta por negar o diagnóstico, afinal de contas, diz ele, essa doença é coisa de “bichas”. Olhem pra mim! – ele grita. Nunca um machão texano como ele contrairia a mesma doença de um cocksucker como o Rock Hudson. Pelo que vemos no início do filme, quando o personagem transa com duas mulheres ao mesmo tempo nos bastidores de um rodeio, não há motivos para duvidarmos de sua tão alardeada masculinidade. O problema é que, ao contrário do que o então desinformado cowboy acreditava, o HIV, além de poder ser contraído fora do sexo, com o uso de agulhas e transfusões de sangue, não restringia-se ao público homossexual. Consumidor ativo de cocaína, a qual abaixou consideravelmente a resistência de seu sistema imunológico, Woodroof também transava com prostitutas sem fazer o uso de preservativos. Quando finalmente aceita que está com a doença e a notícia espalha-se, o personagem sofre para lidar tanto com os problemas que a Aids e seu tratamento trazem quanto com o preconceito daqueles que costumavam ser seus amigos, pessoas para as quais ele costumava contar piadas sobre gays e que agora o olham com medo e nojo.

Clube de Compras Dallas - Cena 5Woodroof luta então contra o inferno terreno que ele criou para si mesmo, tendo que enfrentar constantemente a Receita Federal e o governo americano para conseguir importar os medicamentos que ele precisava para viver. É durante as idas e vindas que o personagem faz até o México e suas constantes internações no hospital que ele conhece Rayon. Faço uma pausa rápida na resenha para contar algo relevante ao assunto. Recentemente, eu e minha esposa terminamos de ler o O Apanhador no Campo de Centeio. Processo natural, decidi rever o Capítulo 27 e, de quebra, apresentar o filme pra ela. Caso o leitor não tenha ligado A e B, o filme citado é sobre Mark Chapman, o homem que matou o John Lennon inspirado, digamos, pela leitura do tal livro. Acontece que o Chapman é interpretado pelo Jared Leto, vocalista da banda 30 Second to Mars que aqui também dá vida ao Rayon. Ver Leto gordão em Capítulo 27 e depois vê-lo aqui com os ossos à mostra babando sangue e gritando aflito pela própria vida é algo que mexe com a gente. Novamente, a perda/ganho de peso, por si só, espanta, mas não é propriamente um indicativo de talento. A questão é que, assim como acontece com McConaughey, tu olha para o personagem e não lembra do ator. Tu sabe que é ele que está la, maquiado e caracterizado, mas a o que eles passam é tão REAL que só resta a nós reconhecermos e cumprimentarmos seus talentos.Clube de Compras Dallas - Cena 3Clube de Compra Dallas acaba apelando para a fórmula maniqueísta do cidadão comum contra o governo frio e indiferente que, aliado a inescrupulosa indústria farmacêutica e visando apenas o lucro, tenta impedir a busca de curas alternativa para uma doença. Woodroof, sua médica (interpretada com competência pela Jennifer Garner) e Rayon estão do lado do “bem”, enquanto o chefe do hospital e todos os outros personagens de terno preto e rosto fechado do lado do governo representam o mal. Ainda que esse ponto de vista não esteja longe da verdade, o roteiro não faz muita questão de aprofundar o debate com a complexidade que ele pede. Focando mais na jornada pessoal de um homem que humaniza-se mais e mais a medida que é forçado a enfrentar a perspectiva do próprio fim, o filme dirigido por Vallée, não por acaso, começa com o personagem preso dentro de um curral, agindo irracionalmente tal qual o animal que as pessoas vão ali para montar, e têm como uma de suas últimas imagens Woodroof, salvo da própria ignorância, montando em um touro, senhor de si e no pleno domínio de sua vida, destino e preconceitos. Bela analogia, ótimo filme. Ainda que a minha torcida seja pelo DiCaprio, não ficarei frustrado se o McConaughey levar a estatueta de Melhor Ator. Quanto ao Jared Leto, duas palavras bastam: já ganhou.

Clube de Compras Dallas - Cena

Filadélfia (1993)

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FiladélfiaJá tem um bom tempo que eu não ouço falar que alguém morreu em consequência das mazelas provocadas pela AIDS. Quando eu era criança, o dono da fazenda onde o meu avô trabalhava aparentemente adquiriu a doença e não resistiu e nomes conhecidos como Cazuza e Freddy Mercury tiveram a causa de suas mortes associadas ao HIV. Lembro ainda de ver várias propagandas do Ministério da Saúde e semelhantes alertando sobre os riscos da doença. De qualquer forma, já faz um bom tempo que eu abandonei a televisão, portanto o “sumiço” da doença do qual estou falando não tenciona diagnosticar o fim da mesma, seu controle ou sua inexistência (como apontam algumas teorias da conspiração facilmente encontradas na internet). Esta reflexão, no entanto, me leva a pensar que alguma coisa mudou no tocante a forma como a AIDS era vista há uns 10-15 anos. O tempo e o conhecimento por ele trazido, penso, serviram para derrubar parte dos preconceitos, medos e falta de informações que marcaram os primeiros anos após a descoberta da doença.

Desempenhando uma papel importantíssimo nesse processo de conscientização, o hollywoodiano Filadélfia, filme do diretor de O Silêncio dos Inocentes, Jonathan Demme, estrelado pelo queridinho Tom Hanks e pelo Denzel Washington, conta a história de um aidético que foi demitido da empresa onde trabalhava, segundo ele acredita, devido ao preconceito de seus empregadores. Andrew Beckett (Hanks), advogado, escondeu o quanto pode a doença (e sua homossexualidade) de seus patrões, mas as manchas em sua pele acabam por denunciar sua condição e, após o desaparecimento suspeito de documentos importantes de um caso no qual o personagem trabalhava , ele é demitido sob a acusação de incompetência. Indignado com a provável sabotagem, Andrew procura o também advogado Joe Miller (Denzel) para representá-lo em um processo contra a firma de advocacia na qual trabalhava.

Filadélfia - Cena

Filadélfia, que abre com imagens da cidade e seus moradores ao som de Streets of Philadelphia, hit do Bruce Springsteen vencedor do Oscar, saiu justamente na época que eu citei no primeiro parágrafo. Em 1993, eu estava com 8 anos e tinha pouco mais de uma década que a doença havia sido diagnosticada em um grupo de homossexuais na cidade de Los Angeles. Inicialmente relacionada aos gays, hemofílicos, usuários de heroína e haitianos (!), naquele ano a AIDS ainda permanecia estigmatizada como uma consequência do comportamento homossexual. Se as estatísticas comprovavam o padrão eu sinceramente não sei, a questão é que o fato de Andrew Beckett ser aidético E gay e o seu advogado ser um negro lutando contra brancos heterossexuais transformou o filme de Demme em um verdadeiro símbolo da luta pelo fim do preconceito.

O roteiro da história, felizmente, não apela para simplificações infantis em sua intenção de sensibilizar o público para a causa que defende. A trama, que inevitavelmente converge para uma sequência de tribunal, esforça-se com sucesso para mostrar algo que está além de uma disputa do tipo bem contra o mal. Beckett mostra-se uma pessoa imprudente com a própria saúde e segurança, mas nem por isso ele merecia ser demitido da forma como foi. Seus chefes, por outro lado, são pessoas homofóbicas que tem medo da doença, mas no geral eles não são muito diferentes do grosso da população de sua época, desinformados e paranóicos frente a doença sem cura que tem ceifado vidas diariamente. Há ainda o advogado Joe Miller, um negro que venceu o preconceito em sua profissão devido a seus próprios esforços e que vê-se frente a uma situação onde ele passou de vítima a “culpado”, visto que ele declara abertamente não gostar de homossexuais e temer o contato com aidéticos por ter acabado de ter uma filha e, portanto, temer a infecção. A sensibilização e mudança de comportamento de Miller, que acontece progressiva e naturalmente, é, por assim dizer, a concretização daquilo que o diretor procura estimular no público.

A ótima cena da ópera

A ótima cena da ópera

Optando por não mostrar cenas explícitas de homossexualismo (Hanks faz par no filme com o ator Antonio Banderas), Demme é mais efetivo em seu propósito de chocar e impressionar o público com as perguntas que faz e com o desempenho que extrai de seus atores. Beckett praticou sexo sem preoteção dentro de uma sala de cinema com um desconhecido e, talvez por conta disso, foi infectado. Sem pensar muito, podemos dizer que ele foi vítima de sua própria imprudência, que ele é responsável pelo preconceito que sofre, certo? O que podemos dizer então da mulher que depõe durante o julgamento, a qual também foi demitida por ter AIDS e contraiu o vírus em uma trasfusão de sangue? O preconceito deixa de existir devido a ausência de culpa ou através do conhecimento? Em outro momento, Hanks, que ganhou o Oscar por seus desempenho, emociona o público em uma cena onde chora diante dos olhos de um aturdido Denzel Washington enquanto ouve uma ópera. O ator, que perdeu cerca de 13kg para o papel, protagoniza um belíssimo momento de instrospecção nesta cena, recitando a letra da música que, em momentos alternados, fala de esperança e desespero, sentimentos díspares que ele enfrentava diante do processo e da expectativa próxima da morte.

Segundo o Wikipédia (eu sempre me sinto mal quando escrevo isso), em 2007 estimava-se que mais de 2 milhões de pessoas já haviam morrido vítimas da AIDS, sendo que mais de 33 milhões ainda viviam com o vírus, 630 mil delas no Brasil. Apesar de a doença permanecer sem cura, os coquetéis ajudam os infectados a viverem melhor e hoje sabe-se que atos como abraçar, apertar a mão e beijar não transmitem a doença. Essa conscientização que, creio eu, ajudou a diminuir a paranóia que cercava a doença e matava socialmente os infectados, encontra excelentes argumentos em Filadélfia, que cumpriu e ainda cumpre um papel importantíssimo na luta pelo fim do preconceito, sem o qual, por exemplo, é possível rir de coisas como isso aqui: