Millennium: A Garota na Teia de Aranha (2018)

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Millennium - A Garota na Teia de AranhaAssisti este novo Millennium na semana passada, no Playarte Multiplex Bristol da Avenida Paulista, pouco depois de sair da sessão do Museu. Demorei para resenhar porque, conforme já dito em outros textos, o final do ano letivo (eu sou professor) está consumindo praticamente todo o meu tempo livre. Mas vamos lá, devagar e sempre.

A primeira coisa que precisa ser dita sobre A Garota na Teia de Aranha é que ele não é uma continuação direta do Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Cronologicamente, isso quer dizer que a iniciativa hollywoodiana de adaptar a obra literária do sueco Stieg Larsson ignorou 2 livros (A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar) e pulou direto para o último título que chegou nas livrarias, trabalho que o escritor David Lagercrantz conduziu com base em anotações deixadas pelo Larsson, que faleceu em 2004.

Resumindo: descontinuaram o trabalho de adaptação iniciado com maestria pelo diretor David Fincher lá em 2011 para dar ao público um produto mais recente relacionado à série. É uma decisão que só poder ser compreendida levando em conta o aspecto financeiro: deve ser difícil (e arriscado $$$) apresentar uma continuação 7 anos após o lançamento do original. Compreendo, mas lamento: além da troca do elenco ser traumática, ignorar 2 livros inteiros subjugou o roteiros às cenas de ação exageradas e peripécias tecnológicas que o diretor Fede Alvarez prioriza em detrimento da pegada mais investigativa e dramática do Fincher.

Não que Alvarez desconsidere completamente o que foi feito em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. A abertura, aliás, é praticamente uma reedição daquela loucura orgiástica misturando petróleo, fogo e cabos que o Fincher utilizou em 2011 para introduzir o mundo cyberpunk de Millennium. Sem a música do Led Zeppelin, porém, o impacto do CGI não é o mesmo. Em seguida, outra referência-continuidade: a cena em que Lisbeth Salander (Claire Foy) aprisiona e pune um torturador de mulheres, tanto no conteúdo quanto no visual, remete diretamente ao longa anterior quando ela vinga-se de seu guardião legal após ser sexualmente abusada. Depois disso, Alvarez segue seu próprio (e sinuoso) caminho numa trama deveras manjada.

2119167 - Girl In The Spiders Web

Numa reminiscência da Guerra Fria, A Garota na Teia de Aranha apoia-se na ideia da existência de um programa de computador norte americano (Firefall) capaz de armar e disparar todas as ogivas nucleares existentes no mundo. Lisbeth é contactada por um agente do governo e encarregada de roubar o tal programa, tarefa que ela realiza sem maiores problemas devido a sua habilidade invejável de informática, mas aí a própria Lisbeth é roubada: um grupo misterioso, cujo líder tem uma tatuagem de aranha, invade e destrói o apartamento da personagem, levando o Firefall. Lisbeth pede ajuda a Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason) e inicia a investigação que revelará a identidade de seu algoz e, consequentemente, a localização do programa.

Em sua busca, Lisbeth descobre que o programa só pode ser acessado com os conhecimentos de matemática de uma criança prodígio (!!!) e depara-se com uma vilã que está diretamente ligada a sua infância. Este mergulho no passado talvez seja a parte mais prejudicada pela ausência dos dois livros ignorados por essa sequência: o que é visto aqui carece de profundidade e dos detalhes que são esmiuçados no A Menina que Brincava com Fogo. Sobre a tal criança, a velocidade absurda com que ela realiza algumas operações só é superada pelas habilidades quase sobrenaturais de Lisbeth com tecnologia, e isso também incomoda um pouco.

Millennium - A Garota na Teia de Aranha - Cena 3

Filmes não precisam obedecer a realidade. Frequentemente, a graça deles é exatamente a possibilidade da fuga. A série Millennium, porém, com sua ambientação jornalística e tecnológica, é construída dentro de uma realidade crível e bem próxima daquela que vivemos. Isto posto, não dá para ignorar os exageros das soluções e ferramentas utilizadas por Lisbeth para enfrentar seus inimigos, coisas que vão desde acessar câmeras de vigilância nas ruas até operar carros e pontes remotamente com o uso de um celular ou computador. Na sessão em que eu estava, uma velhinha passou o filme todo rindo desses exageros. “GENTE, ELA É HACKER!” Impagável 😆

Clarie Foy não é uma Lisbeth Salander ruim (o Gudnason é um Blomkvist ruim), mas ela está bem abaixo da Rooney Mara e da Noomi Rapace, tanto no visual, que está mais contido (sdds moicano), quanto na atuação, que é menos selvagem e provocativa. A Garota na Teia de Aranha é ruim? Longe disso, o ritmo é bom e as cenas de ação, exagero à parte, são muito bem executadas, mas a fonte onde o diretor Fede Alvarez bebeu certamente poderia ter rendido um material muito mais denso não fosse a evidente preocupação com as cifras.

Millennium - A Garota na Teia de Aranha - Cena 2

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