Audição (1999)

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AudiçãoAudição tem pedigree. Numa entrevista sobre filmes das décadas de 90/10, o diretor Quentin Tarantino referiu-se a ele como “uma verdadeira obra prima” do período. O também diretor e músico Rob Zombie disse que Audição é “o filme de terror mais assustador e inquietante que ele já assistiu”. Pra quem não for capaz de ligar “o nome aos bois”, temos aí duas das maiores autoridades em sanguinolência/podreira cinematográfica contemporâneas elogiando o trabalho do diretor japonês Takashi Miike. Obrigatório ver, né?

Coloquei o filme pra rodar ontem a tarde e, vencida a primeira metade, fiquei sem entender o porque do mesmo ser classificado como terror. Pausei, saí, tomei sustos reais com as filas pra comprar cerveja de um festival local (média de 40min pra pegar um copo) e hoje à tarde terminei de assistir. Já tem bem umas 5 horas que os créditos finais subiram e meu estômago ainda está embrulhado. O texto conterá SPOILERS.

Eis o roteiro: Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi) é um homem de meia idade que vê-se sozinho com um filho para criar após o falecimento de sua esposa. Anos depois, respeitado o luto e com o filho já adolescente, Shigeharu decide que é hora de encontrar uma nova companheira. Para tal, um amigo da indústria do cinema convida-o para ajuda-lo em uma audição para um filme, oportunidade onde várias moças apresentam-se aos entrevistadores em busca de um papel. É nesse cenário que o personagem conhece a bela e misteriosa Asami Yamazaki (Eihi Shiina).

Até o temporizador contabilizar os primeiros 60 minutos (de um total de 01h55min), Audição é um drama/romance com pitadas de humor. A sequência que mostra as entrevistas das moças, por exemplo, foi montada de forma a nos fazer rir com as bizarrices das candidatas, fórmula que programas de auditório como o “Ídolos” sempre utilizam em seus inícios de temporada. Depois disso, resta a fofura do amor de Shigeharu por Asami. O cara, um cinquentão, fica todo nervoso quando está perto da personagem, faz planos de futuro com ela e sofre ao lado do telefone, contendo-se para não ligar de minuto em minuto. Asami, que revela-se uma pessoa solitária, também mostra-se interessada em um relacionamento, logo vemos sorrisos, olhares sonhadores e passeios de mãos dadas. Esse clima leve dura até o momento…

Audição - Cena 2

…. em que o diretor Takashi Miike nos mostra Asami sentada no chão, descabelada e com a coluna completamente curvada, olhando obsessivamente para o telefone. “Mas que diabos é isso?” Em sua “segunda parte”, Audição explora o passado de Asami para revelar uma história tenebrosa de abuso físico e psicológico. Criada no seio de uma família disfuncional, a infância da personagem foi marcada por barbáries como ter suas pernas marcadas com ferro quente por um padrasto doentio. Não é à toa que, adulta, Asami mente quando perguntada sobre seus parentes e demonstra preocupação sobre as intenções de Shigeharu com ela.

Todo caso, não é só a exposição do passado de Asami que deixa a gente chocado. A coisa é feia, mas lá no começo eu disse que fiquei com o estômago embrulhado. No primeiro parágrafo, aliás, eu também disse que Audição foi elogiado pelo Tarantino, e é nos últimos minutos do longa que eu entendi o porque dessa admiração: temos aqui uma história clássica de vingança, tema favorito do diretor de Kill Bill e Django Livre. Shigeharu e Asami hospedam-se em um hotel. Conversa vai, conversa vem, ela tira a roupa e decide entregar-se ao sujeito. O que acontece em seguida é deveras confuso, porque a gente não sabe ao certo se trata-se de um sonho ou de realidade (é preciso ver o filme para entender esta dúvida), mas é violento o suficiente pra fazer a gente contorcer-se na cadeira e querer tirar os olhos da tela de 5 em 5 segundos.

Audição - Cena

Shigeharu é um senhor legal em busca de um amor? Sim, mas ele também é um velho safado que valeu-se de um ambiente podre para selecionar uma esposa. Podre? Sim, de engraçado as tais audições não tem nada: mulheres humilham-se diante de homens indiferentes aos seus sonhos, homens que estão mais interessados em seus corpos do que em seus talentos. Shigeharu até interessa-se por Asami devido a tragicidade de sua história, mas ele também seleciona-a por sua beleza, juventude e mansidão. Essa mudança de ponto de vista do relacionamento do casal culmina na vingança de Asami, que realiza um acerto de contas com o passado e faz de Shigeharu um exemplo para os outros homens que tratam mulheres como objeto.

Audição - Cena 4

“No fundo, bem lá fundo” e “Esse arame pode cortar carne e osso facilmente” são duas frases que eu demorarei um bom tempo para esquecer. O que Asami faz com Shigeharu (ou que ele sonha que ela faz, não importa) é explícito demais, perturbador demais. Pra piorar, enquanto joga sangue na nossa cara, o diretor Takashi Miike coloca Asami no centro da tela, com um sorriso demoníaco de criança arteira, sussurrando e explicando o passo a passo de sua tortura. “Você não poder ir a lugar algum sem os pés”. Puta que pariu!

Tenho que concordar com o Tarantino: dentro do que esse propõe, Audição é realmente uma obra-prima. Fora a angústia absoluta que a última cena é capaz de provocar, bato palmas também para a engenhosidade do roteiro, que consegue nos mostrar pontos de vista distintos sobre a relação dos personagens e que transita bem entre gêneros tão díspares como romance e terror. Recomendadíssimo.

Obs.1: Não assistam depois do almoço. É sério.

Obs.2: O clipe Honey, This Mirror Isn’t Big Enough for the Two of Us do My Chemical Romance é baseado no roteiro de Audição.

Audição - Cena 3

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