Django Livre (2012)

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Django LivreHaverá sangue e SPOILERS nesse texto, certo, Sr. Plainview?

O Tarantino é o meu herói. Para tal “cargo”, algumas pessoas escolhem um músico, outros um ator, massas inteiras veneram um deus ou jogadores de futebol e outros tanto espelham-se em figuras políticas. Eu admiro um diretor de cinema, um cara que começou a vida tentando ser ator, acabou indo parar atrás do balcão de uma videolocadora e em seguida escreveu o roteiro de um dos filmes mais comentados da década de 90. Assim, logo de cara, em seu primeiro trabalho, o cinéfilo nascido no Tennessee provocou toda uma discussão sobre a violência nos filmes ao dar para o Michael Madsen uma música para dançar, uma lâmina afiada e um policial para ser interrrogado na cena mais lembrada do Cães de Aluguel. Se deus realmente criou o mundo para ser habitado por humanos feitos a sua imagem e semelhança, Tarantino cria desde 1992 um universo inteiro para ser desfrutado por pessoas que, assim como ele, amam filmes acima de qualquer coisa. Referências a cultura pop, músicas cuidadosamente escolhidas, citações e homenagens a outros filmes e um talento singular na condução dos atores, eis os elementos que podem ser encontrados dentro das produções “tarantinescas”, título que hoje não apenas liga filmes ao nome do diretor como já representa praticamente um gênero cinematográfico a parte.

“O novo filme de Quentin Tarantino”, frase que tem sido usada nos cartazes de seus trabalhos recentes, pode até passar despercebida para o público ocasional, mas para quem conhece o peso de um lançamento desses o anúncio é motivo de alegria, ansiedade e até mesmo de preparação. Esperando o Django Livre, revi o Pulp Fiction, conheci o ótimo Sukiyaki Western Django, comecei a ler o Quentin Tarantino do Paul A. Woods (onde, entre outras coisas, eu descobri que a cena de dança do JackRabbit Slim’s não foi pensada para o John Travolta =/) e procurei ler tudo que saiu na internet sobre a produção desde que divulgaram o título e a foto da capa do roteiro . Sexta-feira (18/01), as 18h, as luzes da sala 1 do Cinemais apagaram-se e, mais do que um filme qualquer, eu assisti a um evento. Segue-se o relato apaixonado do que eu vi, identifiquei e interpretei ao longo das 2h45min mais prazerosas que eu tive dentro de uma sala de cinema esse ano.

Um alemão libertando um negro que o ajudará a matar escravocratas brancos *.*

Um alemão libertando um negro que o ajudará a matar escravocratas brancos *.*

Django Livre, assim como Kill Bill, é um filme de vingança que homenageia um gênero. Após demonstrar o seu conhecimento e a sua admiração pelos filmes de ação orientais, Tarantino agora resgata os western spaguetti de diretores como Sergio Leone e Sergio Corbucci para contar a história do “roaring rampage of revenge” do escravo Django (Jamie Foxx) contra os escravocratas sulistas norte-americanos. Libertado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz), Django aprende a manusear armas de fogo e parte para a fazenda do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) para libertar a esposa.

Ciente das perguntas e polêmicas que seu trabalho provocaria, Tarantino dedica a primeira cena do longa para, de certa forma, justificar-se para o público. O zoom escandaloso, propositalmente amador, no rosto do Christoph Walz denuncia a presença da câmera e nos lembra de que estamos vendo um filme, uma obra ficcional onde a liberdade artística deve ser privilegiada em detrimento de que qualquer tipo de moralismo. Momentos depois, Tarantino fala através das palavras do C. Waltz quando o personagem dele “compra” Django. O diretor está, portanto, resgatando uma história, não simplesmente roubando-a ou copiando-a como muitos críticos acusam-no. Dr. Schultz admira e precisa de Django para sua aventura assim como Tarantino gosta e recorre aos westerns italianos para criar a sua obra. Acusado de racismo por diretores como Spike Lee (Febre da Selva), o diretor abre Django Livre reescrevendo a história (idéia que ele já havia usado muitíssimo bem no Bastardos Inglórios) mostrando um grupo de negros levantando-se contra um capataz branco em um período imediatamente anterior a Guerra de Secessão.

Candie em seu grande momento com a teoria da servidão

Candie em seu grande momento com a teoria da servidão

Colocadas as cartas na mesa, passamos então àquilo que o diretor faz de melhor: escrever diálogos e subverter gêneros. Ao contrário dos caçadores de recompensa taciturnos e mal encarados imortalizados por lendas do western como o Clint Eastwood, o Dr. King Schultz do Christoph Waltz é um tagarela nato, um homem cuja habilidade no gatilho só é superada por seu poder de oratória. Nos clássicos do gênero, imperava a arrogância e a brutalidade, aqui vemos um personagem que vence a maioria de suas lutas conversando e interpretando personagens que ele cria para si e para Django antes dos embates. Vale citar aqui a consciência que o Tarantino demonstra dos esteriótipos do gênero quando coloca Schutz explicado para Django como ele deve agir em determinadas situações que eles certamente enfrentarão, situações essas que podem ser encontradas em praticamente todos westerns disponíveis. Ainda sobre as mudanças no gênero, reparem também que os típicos cenários escaldantes dão lugar a passagens rodadas durante o inverno.

Neve: uma das muitas subversões do western que Tarantino faz em Django Livre

Neve: uma das muitas subversões do western que Tarantino faz em Django Livre

A história avança e a verborragia é intercalada por cenas que provocam pânico e risadas ao mesmo tempo. Fã de filmes de horror e de  comédia (Taratino já disse mais de uma vez ser um admirador da dupla Abbott e Costello devido a suas misturas de gêneros), o diretor produz momentos que, graças a uma edição habilidosa, transformam-se em uma sucessão de espantos e gargalhadas. Exemplos claros disso são a “cena do chicote” e a da emboscada na carroça. Django encontra um de seus algozes em uma fazenda, toma-lhe o chicote e dá-lhe uma bela surra. A câmera captura imagens fantásticas do chicote desdobrando-se na mão de um Jamie Foxx que vinga ali várias gerações de negros americanos, o som dá idéia de que as pancadas estão doendo MUITO e o sujeito se contorce todo, mas ao mesmo tempo não dá para deixar de notar um tom humorístico na inversão inesperada de papéis tal qual acontece no final bombástico do Bastardos. Alguns minutos depois, surgem na tela cavaleiros usando máscaras brancas, referência óbvia a Klu Klux Klan. O terror anunciado é quebrado bruscamente por uma regressão temporal onde vemos os cavaleiros reunidos discutindo o uso das máscaras. Não bastasse a presença na cena de um ator associado as comédias (Jonah Hill), o diálogo que eles travam é hilário  e suaviza as imagens de corpos explodindo que vem na sequência.

O sadismo permitido pela sensação de "justiça histórica"

O sadismo permitido pela sensação de “justiça histórica”

Não pensem, no entanto, que a violência tarantinesca foi amenizada em Django Livre. À explosão da cabeça do capataz na primeira cena, seguem-se momentos brutais como quando um homem é devorado vivo por cachorros e a luta dos mandingos assistida com empolgação pelo personagem do DiCaprio, o qual pede (e é atendido) ao seu lutador que arranque os olhos do oponente. Mesmo cientes de que estamos vendo um filme, é difícil olhar para a tela. Em outros momentos, essa violência é usada para criar “obras de arte” polêmicas. Por mais complicado que seja admitir, há uma beleza fúnebre (e metafórica) nos branquíssimos algodões sulistas repletos de sangue e na “pintura” que Django promove na também branca mansão de Calvin Candie com o sangue de seus capangas.

Django encontra... Django: O "D" é mudo. "Eu sei"

Django encontra… Django: O “D” é mudo. “Eu sei”

Django Livre tem 2h45min, um tempo relativamente longo que passa rápido devido a essa inteligente mistura de gêneros, as referências “escondidas” no roteiro que farão a alegria dos cinéfilos e, principalmente, a qualidade do time de atores escolhido por Tarantino. Waltz novamente rouba a cena com seus diálogos rápidos e sua persuasão (não seria uma injustiça dizer que ele é o protagonista não anunciado do filme), DiCaprio, apesar de alguns exageros (nada justifica aquele grito na carroça), construiu um vilão divertido e arrogante e o Samuel L. Jackson está mais irritante do que nunca, o que é muito bom. Vale ainda citar a hilária aparição do próprio Tarantino (BOOM!), a participação “amigável” e nostálgica do Franco Nero (o primeiro Django) e a caminhada da irmã de Candie e seus empregados após o enterro, referência clara ao momento mais marcante do clássico Meu Ódio Será Sua Herança do Sam Peckinpah.

Desculpem-me pelo texto gigante, mas um épico desses merecia um comentário a altura. Django Livre concorre a 5 Oscars e já ganhou 2 Globos de Ouro (Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante – Drama para o C. Waltz). É, sem dúvidas, um trabalho a altura da filmografia irreprensível que o diretor construiu até agora e um dos filmes mais divertidos que eu assisti na vida. 2012 ficará marcado na história do cinema mundial como o ano que o Tarantino deslocou a localização geográfica do gatilho mais rápido do oeste para o sul. Esse é o meu herói.

"O" diretor: Tarantino recebe o Globo de Ouro pelo roteiro de Django Livre

“O” diretor: Tarantino recebe o Globo de Ouro pelo roteiro de Django Livre

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  1. De longe um dos melhores textos desse blog, pois você fez uma maravilhosa introdução e conseguiu colocar sua opinião de vários pontos do filme sem contar toda a história, deixando a gente com muita vontade de vê-lo. Parabéns pelo texto.
    E o Tarantino mais uma vez mostrou que um filme pode transmitir muitas emoções e fiquei muito feliz vendo o cuidado dele em lidar com um tema complicado como a escravidão sem tirar as características de violência e desrespeito, ao mesmo tempo sem apelar tendo como único propósito chocar.

  2. Também não vi um filme sobre vingança. Vi isso se construir ocasionalmente, quando ele mata os 3 capatazes, mas não fica tão claro ao longo do filme. Talvez uma vingança do negro contra o branco escravista… Anunciaram, de fato, mas não ficou tão óbvio assim.

  3. Pingback: Argo (2012) « Já viu esse?

  4. Após o final do filme, conclui que Tarantino é realmente um ídolo inspirador, pelo visto você também pensa dessa forma. Queria ter descoberto esse blog há mais tempo, sempre tem textos bons. Já está nos meus favoritos. Au revoir.

  5. Pingback: Era Uma Vez na América (1984) | Já viu esse?

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