Um Ato de Coragem (2002)

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Essa semana uma amiga me perguntou, com um tom um tanto quanto irônico, qual o último filme “bom” que eu havia assistido. A crítica implícita dizia respeito ao fato de que, na opinião dela, eu só usava o blog para falar mal dos filmes. Olhei rapidamente os últimos 10 textos que publiquei e, realmente, ultimamente eu tenho tido mais dissabores do que boas sessões com os filmes que eu escolhi ou que me indicaram para ver. Devo me defender: o meu único comprometimento é com a minha diversão. Não faço a mínima questão de elogiar um filme amado por todos apenas para evitar os comentários “educados”. Fora os filmes que eu escolho para assistir, procuro ir no cinema pelo menos uma vez por semana e sou aberto a dicas dos leitores e de amigos, logo vez ou outra eu me deparo com alguma pérola e me vejo obrigado a gastar algumas linhas para tentar afastar as pessoas da experiência tediosa que eu vivenciei.

Depois de uma certa idade e de uma certa quantidade de filmes na bagagem, fica um tanto quanto difícil fechar os olhos para produções genéricas e formulaicas que, aos olhos do público ocasional, parecem filmes sensacionais ao ponto de merecerem uma indicação. Um Ato de Coragem, filme estrelado pelo Denzel Washington e dirigido pelo Nick Cassavetes (Diário de Uma Paixão, Alpha Dog), é um desses melodramas que não possuem absolutamente NADA de original/relevante. Conta a história de um pai (Denzel) que, diante da ameça iminente de perder o filho para uma doença cardíaca para a qual o sistema de saúde americano vira as costas, invade um hospital e faz reféns enquanto cobra uma atitude das autoridades. Me foi indicado por um amigo que garantiu tratar-se de um filme “emocionante” onde podíamos ver “o que um pai era capaz de fazer por amor ao filho”. Bem, não foi bem isso que eu vi, principalmente no que diz respeito a parte do “emocionante”.

Convenhamos, eu precisaria ser um monstro insensível para dizer que a história de um pai que arrisca a própria vida para salvar o filho não é bonita. Eu não sou tão ruim assim. Um Ato de Coragem, mesmo não apresentando argumentos convincentes, mostra e denuncia uma daquelas verdades inconvenientes que o “sistema” de saúde tenta esconder de seus usuários: é o dinheiro e não o compromisso com a vida que dita as regras do jogo. Tratamentos e cirurgias custam caro e não há órgãos suficientes para todo os pacientes que esperam por um transplante. Quando a situação “aperta”, quem tem dinheiro e um plano de saúde bom tem grandes chances de sobreviver, já os pobres ficam a mercê do precário sistema de saúdo público e da boa vontade de terceiros. O filme passa-se nos EUA, mas qualquer pessoa que depende do SUS sabe que ele poderia tranquilamente ter sido rodado (com muito mais dramaticidade, inclusive) aqui no Brasil. John Q., personagem de Denzel, faz o que todos nós gostaríamos de fazer quando esperamos para sermos atendidos nas filas intermináveis dos postos de saúde: ele tranca o lugar e, de posse de um revólver, obriga os médicos a conseguirem uma solução para o problema de seu filho. É claro que a polícia é chamada e então…

… e então, para começo de conversa, eu fiquei com a impressão de estar assistindo Um Dia de Cão, filme dirigido pelo finado Sidney Lumet e estrelado pelo Al Pacino. Tudo bem, as situações onde Denzel e Pacino fazem reféns são completamente diferentes (um quer salvar o filho, o outro quer roubar um banco), mas ambos os filmes desenvolvem-se em cima do curioso evento conhecido como Síndrome de Estocolmo e do circo que a mídia promove no local do “crime” onde a população reúne-se para, surpreendentemente, apoiar o sequestrador, que é mostrado não como um vilão mas sim como o homem comum que levanta-se contra o sistema. Como eu disse, fica difícil gostar de certos filmes depois que tu percebe que eles repetem fórmulas de filmes que já foram usadas, mas nem é esse o caso aqui. O prazer de ver um filme não está ligado necessariamente a originalidade. Os maiores problemas de Um Ato de Coragem estão na direção de Cassavetes e em algumas escolhas bizarras do roteiro.

As músicas escolhidas pelo diretor para momentos chaves da tramam beiram o amadorismo. Quando o filho de John Q. cai vítima de sua doença, por exemplo, somos surpreendidos por uma trilha que poderia estar presente em qualquer filme de terror. Sim, o momento é de pânico e de desespero mas, onde eu deveria me colocar junto aos pais do garoto em seu sofrimento, eu imaginei o Jason correndo atrás de algúem nas proximidades de Crystal Lake. O menino, aliás, peça fundamental para a carga emocional do filme funcionar, é um garoto que curte halterofilismo. HALTEROFILISMO! UMA CRIANÇA! Ele é até engraçado e em alguns pontos dá até para sentir empatia com o personagem, mas logo em seguida, no clímax da trama, ele “mostra o muque” e eu caí na gargalhada quando na tela os personagens estavam tristes e chorando. Combinação bizarra, Sr. Cassavetes. Pra completar, a mulher de John Q. é uma das esposas mais irritantes de que se têm notícia, o que, muito maldosamente, nos faz pensar que o personagem não tinha muito a perder quando resolveu chutar o pau da barraca.

Bem, eu não assisto filmes com a intenção de encontrar alvos para as minhas frustrações. Assim como todo mundo (ou quase todo mundo), eu tenho uma vida bastante ocupada e procuro me divertir com o pouco tempo que eu tenho disponível. Quando eu uso esse tempo para ver um filme ruim e clichê, obviamente eu fico chateado, certo? Todo caso, ainda me sinto mais confortável com essa chateação do que com uma provável “ignorância” (desculpem a provável arrogância, mas não achei outra palavra) que me faria gostar de filmes como Um Ato de Coragem. Lembrando que o amigo que me indicou o filme mora aqui (L) rs

Tadinho…. HAHAHAHA

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  1. O tanto de críticas que o seu comentário possui, é o mesmo tanto que você não tem, de capacidade, para produzir, dirigir sequer um curta metragem.

  2. Esse filme, mostra a realidade dos pobres nos eua, mostra o que um pai, por mais covarde que seja a atitude, faz pela vida de seu filho! Como ele diz uma hora no filme “eu nao vou enterrar meu filho, ele que vai me enterrar.” Tu podes achar que esse filme n tem nenhum traço de realdade, como tu disse, mas tu sabes quantos pais fazem exatamente/ou pior para salvar seu filho? Olhando de fora podes ter achado fraco, entretanto se tu tivesse um filho, que precisasse de um transplante, nao tivesse plano de saude ou dinheiro, e sendo brasileiro, vc iria deixar seu filho morrer? Creio que nao. Portanto nao seja hipócrita. O filme é lindo, a atitude do cara é linda e tenho certeza que se tu tivesse no lugar da crianca e teu pai quissesse se matar p salvar sua vida, tu n iria reclamar!

    • Quase todo dia aparece um fã desse filme aqui para falar abobrinha. Em que momento eu disse que ele não retrata a realidade ou menosprezei o amor do pai pelo filho doente? Critiquei o desenvolvimento da trama, que é falha e genérica, e argumentei, ponto por ponto, o porque de eu pensar assim. Com base no que foi escrito, tu só pode dizer o que disse se: 1) tu não conhece o significado da palavra “hipócrita” 2) tu não entende nada de interpretação de texto. Fique bem.

  3. Pingback: Alabama Monroe (2012) | Já viu esse?

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