Grilhões do Passado (1955)

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Grilhões do PassadoEu sabia o que era Rosebud, mas também era só isso que eu conhecia do mítico Orson Welles. Interessado pela história do cinema e de seus clássicos, eu assisti o Cidadão Kane e fiquei impressionado sobretudo pelo fato do cineasta ter concebido e executado algo daquela magnitude logo em seu primeiro longa metragem. Como um amigo meu gosta de falar, “não dá para acreditar que ele conseguiu fazer aquele filme naquelas condições”. Dia desses fui comentar o filme com alguém, lembrei que ele era o único trabalho do Welles que eu conhecia e resolvi que era hora de conferir outro trabalho do diretor. Recorri a página do cineasta no IMDB, escolhi meio que aleatoriamente esse Grilhões do Passado e cá estou com o meu humilde comentário sobre o mesmo.

Vagando com a namorada pelo porto da cidade de Nápoles, Guy Van Stratten (Robert Arden) encontra um homem que acabara de ser esfaqueado. Antes de morrer, o moribundo revela a Stratten um segredo que poderia lhe render alguns “dólares a mais”: o milionário Gregory Arkadin (Orson Welles) possuia um passado misterioso relacionado a uma mulher chamada Sophie e ele poderia ser chantageado para que esse segredo não viesse a público. Por mais superficial que seja essa informação, Guy decide aproximar-se de Arkadin para verificá-la. Usando Raina (Paola Mori), a filha do milionário, Guy consegue acesso a casa de Arkadin e consegue sua chance de pressioná-lo. Para sua surpresa, Arkadin não intimida-se com as ameaças e ainda contrata-o para investigar esse suposto “segredo” de seu passado.

Grilhões do Passado - Cena

Grilhões do Passado lembra MUITO o Cidadão Kane. Novamente, temos a vida de um magnata sendo vasculhada em busca de uma informação/segredo que poderia trazer luz para a compreensão de sua personalidade atormentada. A diferença encontra-se basicamente no “teor” do que é revelado. Sem dar SPOILERS de nenhum dos dois filmes, podemos dizer que Kane construiu todo um império para depois sentir falta daquilo que ele tinha de mais simples e inocente e que Arkadin, em um ponto intermediário desse processo, procura conservar a qualquer custo o último foco dessa mesma inocência que lhe restou. Se Kane redime-se diante do espectador ao ser apresentado como uma vítima de si mesmo, Arkadin opta por ser o vilão por excelência e arma um jogo diabólico contra Van Stratten no qual é revelado a origem de sua fortuna e exposto suas maiores fraquezas e defeitos.

Arkadin é, por assim dizer, o “vilão” do filme, mas, quando olhamos bem, há poucos personagens em Grilhões do Passado que não tenham, assim como o título nacional sugere, alguma mancha no passado, algo que possa comprometê-los tanto ou mais do que o segredo de Arkadin poderia prejudicá-lo diante de sua filha ou daqueles com os quais ele negociava. Quando Van Stratten começa a investigar, os podres começam a aparecer e então Arkadin passa a funcionar como uma âncora arrastando todos aqueles personagens para as profundezas de um passado que eles haviam feito de tudo para superar.

Apesar de utilizar a estrutura narrativa do Cidadão Kane (inclusive no tocante a não-linearidade temporal), Grilhões do Passado possui atrativos suficientes para ser aproveitado em toda sua individualidade, como as excelentes atuações de todos os atores (destaque óbvio para a personificação sombria dada por Welles para Arkadin), o uso inteligente da fotografia preto e branco para criar cenas memoráveis como a da imagem a cima e ao roteiro repleto de reviravoltas que leva a um final surpreendente e, de certa forma, brutal. Se com 25 anos Welles acreditava que era possível “salvar” a história e a alma de um homem procurando conhecer seu interior a partir de seu passado, com 39 pode-se dizer que ele já estava um tanto quanto mais cético a esse respeito.

Grilhões do Passado - Cena 2

Welles como Arkadin

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2 respostas »

  1. Salve Lucian

    Estou há dias para comentar sobre este filme!…achei que ninguém mais lembrava dele.

    Assisti a Mr. Arkadin ainda no século passado, quando me mudei para o bairro de Pinheiros, em São Paulo e fui morar próximo da 1ª sala da Cinemateca de SP, que hoje está em outro local.

    E só me lembro do filme porque gravei o nome original – Mr. Arkadin – e, confesso, não retive nada da história…via filmes para fugir do tédio.

    Mas sempre que o via na filmografia do diretor, dizia a mim mesmo:_ “esse eu assisti!”, até mesmo para fugir do óbvio e obrigatório Cidadão Kane, que na época ainda não tinha assistido.
    Grilhões do Passado é um filme pouco comentado.

    E também porque o Orson Welles parecia a encarnação de um vilão da Marvel (Dr. Faustus).

    Mesmo após ler o seu texto, ainda assim não resgatei quase nada do filme (a não ser uma cena de Arkadin num avião) e seria preciso assistí-lo novamente para uma adequada apreciação.

    Aproveitando a ocasião, já que estamos falando de Orson Welles, gostaria de recomendar o Marca da Maldade, com suas várias qualidades e sua clássica cena de abertura.

    Valeu!…
    Grande abraço

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