Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967)

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Assim como todo homem que já “aprontou” bastante na vida, eu nutro um certo pavor pela idéia de ser pai de uma garotinha. A imagem de um “molecão” de 16, 17 anos vestindo roupas largas e usando boné sentado no sofá da minha casa e me chamando de “sogrão” é uma das representações mais reais que eu consigo conceber de pesadelo.  Faço agora uma pequena pausa para sinopse para depois explicar o porque de eu ter percebido o quão hipócrita eu estou sendo com essa linha de raciocínio.

Em Adivinhe Quem Vem Para Jantar, a jovem Joey Drayton (Katharine Houghton) está retornando para casa após um período de férias. Junto com Joey, está o homem que ela pretende apresentar aos pais como namorado e futuro esposo, o médico John Prentice (Sidney Poitier). Os pais, Matt (Spencer Tracy) e Christina Drayton (Katharine Hepburn), julgam-se liberais e defensores dos direitos civis, mas qual será a reação deles quando, em plena década de 60, sua filha pedir permissão para casar-se com um negro?

Retornemos ao raciocínio inicial. Eu me considero uma pessoa íntegra: trabalho, estudo, sou honesto e procuro não prejudicar o próximo. Quando eu conheço alguém, espero que esses valores e não as minhas tatuagens, meus brincos ou meu costumeiro cabelo moicano sejam notados e/ou levados em consideração na hora de formarem opinião a meu respeito.

Prentice (Poitier) conhece o "sogrão" Matt Drayton (Tracy)

 O ponto aqui é: como eu posso me considerar um liberal (o que, em linhas gerais, eu me considero) e esperar que os outros também também o sejam mas, na primeira opotunidade, me comportar EXATAMENTE da forma que eu considero condenável e julgar os outros pela aparência?

Dirigido e produzido por Stanley Kramer, nome importante da chamada Era de Ouro de Hollywood, Adivinhe Quem Vem Para Jantar é um filme feito durante o processo de reivindicação de direitos civis engrenada pela população negra dos EUA na década de 60 e, apesar de alguns equívocos esperados de análises feitas “no calor” do momento, provou-se uma obra atemporal nesse combate a hipocrisia. Último trabalho do veterano Spencer Tracy, que morreu poucas semanas depois do término das gravações, Matt Drayton é um americano liberal de classe média alta dono de um jornal que, historicamente, posicionou-se favoravelmente a igualdade entre negros e brancos. Tendo educado a filha com tais valores, Matt provavelmente nunca imaginou que ela fosse absorvê-los ao ponto de desafiar a sociedade da época apaixonando-se por um negro.

A família de Prentice também demonstra resistência a idéia do casamento inter-racial

Kramer combate a hipocrisia e o preconceito mas, em um dos tais “equívocos típicos”, exagera na retratação daqueles que defende estereotipando-os. Poitier, repetindo algo que passaria a ser uma caracterização constante em sua carreira, não é apenas um negro qualquer, humano, com defeitos e qualidades, que apaixonou-se por uma garota branca. Ele é (e precisa ser para que o público da época não fique tão chocado com a idéia que o filme vende) um super herói, um médico formado com honras em uma faculdade qualquer que salva a vida de crianças na África, um homem calmo e maduro que responde provocações com sorrisos e bom humor. Ponto que poderia criar alguma tensão, o fato do personagem já ter sido casado também é usado de forma a gerar empatia junto ao público: mulher e filha do médico, como é dito duas vezes no filme, morreram TRAGICAMENTE em um acidente. Vale lembrar que, tal análise é possível pelo distanciamento temporal e pela leitura do livro Cenas de Uma Revolução do Mark Harris, trabalho elucidativo sobre o filme/tema/período.

Com um argumento simples e gostoso de acompanhar, Adivinhe Quem Vem Para Jantar conta ainda com bons trabalhos de Poitier e de uma envelhecida Katharine Hepburn e termina com um longo e inspirado discurso do Spencer Tracy cuja carga emocional aumenta ainda mais quando visto como o canto do cisne de uma longa carreira. A forma como a questão racial pode é apresentada está datada, mas ainda sim é importante para entendermos a complexidade ideológica do período. Ah, quase me esqueci: filha minha não casa com pagodeiro, palmeirense ou “mano vidaloka” :)

Hepburn e Tracy (ele não parece o Carl Fredricksen do Up! - Altas Aventuras?)

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