A Sombra do Vampiro (2000)

A Sombra do Vampiro (2000)

Se não assistiu, o leitor deve ao menos conhecer o Drácula de 1931 baseado no romance do Bram Stoker. A interpretação cavalheiresca do cult Bela Lugosi para o vampiro foi e é referência para grande parte daquilo que é produzido dentro do universo dos chupadores de sangue. Tendo tirado o sono de muita gente na época de seu lançamento, Drácula hoje está mais para um clássico do que para um filme de terror: assisti e gosto do filme, mas é inegável que ele não assusta mais ninguém (além de ter um final horrível). A situação muda um pouco quando trata-se do outro grande filme de vampiro da época, o alemão Nosferatu de 1922. Menos conhecido (eu, por exemplo, não assisti e só fui tomar ciência da existência dele ao folhear o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer), o filme dirigido pelo F. W. Murnau ainda hoje conserva sua aura de mistério e de terror devido a algumas lendas envolvendo o ator Max Schreck.

Max Schreck em Nosferatu

Apesar de ter participado de outros filmes depois de Nosferatu, há uma história que diz que a interpretação amedrontadora de Schreck para o vampiro deve-se ao fato de que ele era, na vida real, um vampiro de verdade! Por mais absurdo que isso possa parecer, basta olhar para a foto ao lado para perceber que não é preciso muito para confundir realidade e ficção, o sujeito realmente provoca calafrios. Praticante do método de interpretação Stanislavski, o ator imergiu de tal forma na alma do vampiro ao ponto de duvidarem de sua humanidade, o que, auxiliado pelo envelhecimento positivo do preto e branco da película (característica que, de modo geral, verifica-se no cinema alemão), contribuiu para que  o filme de Murnau garantisse o seu espaço na história do gênero de terror e, hoje ainda, conitnue provocando alguns sustos e interesse.

A Sombra do Vampiro é uma prova da existência desse interesse. Partindo do ponto de vista que a lenda é verdadeira, o filme do diretor E. Elias Merhige acompanha o processo de filmagem de Nosferatu desde a pré-produção até o término de sua última e emblemática cena. Sem conseguir os direitos autorais sobre a obra de Bram Stoker, F. W Murnau (John Malkovich) decide mudar  nome do persnagem e alguns detalhes da história para filmar o seu próprio filme de vampiro. Conde Drácula passa a ser Conde Orlok e o misterioso Max Schreck (Willem Dafoe) é escalado para interpretá-lo. A equipe viaja para as locações e à medida que as filmagens vão acontecendo fica claro para todos que não trata-se de apenas mais um filme qualquer: além do perfeccionismo e das loucuras de Murnau, Schreck assusta a todos com seu jeito bizarro e sua obsessão pela atriz Greta Schroder (Catherine McCormack). Ah, ele também come um morcego na frente de todo mundo.

Assim como acontece no Deuses e Monstros, filme sobre o diretor James Whale que contempla a produção do Frankenstein, A Sombra do Vampiro certamente fica mais interessante para quem conhece o clássico no qual ele é baseado (no caso o Nosferatu). Toda via, atesto que aqui também funciona o efeito inverso, ou seja, A Sombra do Vampiro, devido as suas qualidades, é capaz de despertar o interesse pelo filme original e levar o espectador à assistir um filme que dificilmente ele conheceria de outra forma. Além da magnífica caracterização e interpretadção do Dafoe para Max Schreck, o filme ainda oferece os gritos histéricos e paranóias do Malkovick e, claro, o mistério sobre a lenda que aborda. Por mais que Max de todos os sinais de sua natureza, tanto o espectador quanto os personagens recusam-se a acreditar que o ator seja a encarnação do mito de Bram Stoker. À medida que o tempo passa e Max começa a morder alguns pescoços, uma terrível verdade vai tomando forma e culmina em um final insano e brutal, uma confirmação da lenda que não possui sustentação real mas que faz justiça e amplia o legado da obra original. Recomendo para fãs de filmes de terror e da história do cinema.

Dafoe e sua impressionante caracterização do ator Max Schreck

Anticristo (2009)

Anticristo (2009)

Já viu esse algum filme do Lars von Trier? Eu conheci o trabalho do cara na faculdade em uma sessão do Dogville organizada por um amigo cinéfilo. Precisa dizer que todos os presentes ficaram chocados? Fora uma ou outra pessoa, todo mundo ali estava acostumado com os filmes do circuito comercial proporcionado pelo péssimo cinema da cidade. Imaginem os risos e as caras de espanto e de incredulidade frente a um filme onde os cenários eram substituídos por desenhos no chão. Imaginem o trauma provocado pelo som de um latido vindo de um desenho de um cachorro. Os anos passaram, eu assisti muitos filmes e mudei completamente o meu gosto relacionado a cinema, mas até hoje eu não esqueci DAQUELA DROGA DE CACHORRO DESENHADO NO CHÃO rs!

O fato é que, devido a esse trauma, eu classifiquei o diretor como “bizarro” e não interessei-me mais por seus trabalhos. Eis que, alguns anos depois, começa um burburinho sobre um filme polêmico sobre sexo e mutilações. O nome do filme era Anticristo. Em um fórum que eu frequentava, as opiniões dividiram-se entre a ridicularização e a exaltação. Fui procurar saber quem era o diretor desse divisor de águas e lá estava novamente o nome do Lars von Trier. Recordei-me do cachorro, deixei o filme pra lá. Dia desses, do nada, eu lembrei do filme e resolvi que estava preparado mentalmente para dar uma nova chance ao diretor. Assisti, fiquei mais traumatizado ainda mas, dessa vez, eu gostei muito do que vi.

Antes de começar a descrever o que eu vi e o que entendi, preciso deixar claro uma coisa. Li em algum lugar (eu nunca lembro onde rs) que esse filme seria uma tentativa do diretor de fazer um filme de terror baseado no livro homônimo do Nietzsche. Já li 4 livros do filósofo alemão (Assim Falou Zaratustra, Crepúsculo dos Ídolos, A Gaia Ciência e o próprio O Anticristo) e é com toda sinceridade do mundo que digo que não entendi completamente o niilismo pregado em suas sentenças destruidoras. É um trabalho para toda vida que eu sinto-me feliz por realizar subindo um degrau por vez. Lars von Trier realizou com Anticristo uma leitura dessa obra? Aparentemente sim e, assim como ele o fez do alto de toda sua experiência e subjetividade, eu só posso fazer o mesmo ao comentar tal trabalho: descrever aquilo que eu REALMENTE senti assistindo o filme, com todas as limitações de alguém que sabe que não é o dono da verdade. “Verdade”, alías, é algo que deu uma ou outra dor de cabeça para o Niezsche. Dito isso, vamos ao filme :)

Anticristo é divido em capítulos e começa com um prólogo onde a tragédia que ditará os rumos da história é apresentada. Com a belíssima Lascia ch´io Pianga tocando no fundo, o casal interpretado pelo Willem Dafoe e pela Charlotte Gainsbourg transa apaixonadamente. A intensidade do ato é reforçada pela melodia e pela ótima fotografia, mesmo a cena explícita da penetração ganha contornos poéticos dentro da pintura criada pelo diretor. Enquanto o ato acontece, o filho do casal utiliza uma cadeira para alcançar a janela do apartamento (sobrado?) onde eles moram e, ao som da mesma música e envolto na mesma poesia, cai e morre segurando seu ursinho de pelúcia. Nos capítulos seguintes (Luto, Dor, Desespero e Os Três Mendigos), vemos a tentativa de um marido, pai e psicógolo de recuperar mentalmente e socialmente uma mãe e esposa destruída pela tragédia e consumida pela culpa.

A primeira leitura que pode-se fazer do filme é que trata-se da visão de mundo de um misógino (resumindo, para quem não quiser ler o artigo do wikipédia, um misógino é alguém que despreza as mulheres). Porque? Fora von Trier ter concebido um personagem masculino que é a personificação da razão e do bom senso constrastando com uma mulher histérica e descontrolada, o próprio pensamento nietzschiano que o diretor aparentemente abraça em Anticristo é marcado por sentenças misóginas como a polêmica “Considera-se profunda a mulher – porquê? Porque nela jamais se chega ao fundo. A mulher não é nem sequer superficial” que pode ser lida no Crepúsculo dos Ídolos. O que eu entendi aqui, fazendo o link com O Anticristo (livro) e, de modo geral, com a obra do filósofo, é que a mulher aqui é a representação da natureza enquanto força destruidora presente no mundo e que von Trier, assim como Nietzsche, condena a falta de razão, o misticismo e a crença religiosa ao optar por enfrentar de frente os desafios de um mundo ditado pelo fatalismo e pelo acaso.

Tudo que foi falado aqui (assim como o filme), pode fazer todo o sentido do mundo ou pode ser apenas fruto de uma interpretação errada, destino que também pode ser reservado para os escritos do Nietzsche. O que é realmente válido, todo caso, é a tentiva de interpretação. Deixando um pouco o lado filosófico de lado, Anticristo é belo e grotesco e, assim como o Dogville, exige que o espectador esteja disposto a enxergar além do óbvio tanto para captar sua mensagem quanto para que suas cenas de violência e sexo explícito não façam-no abandonar o filme antes do final. Não, não estou exagerando, algumas cenas (sendo mais específico, a do parafuso e a do clitóris) me fizeram contorcer no sofá.

Com todas essas discussões, com todas as perguntas para as quais não consegui resposta (qual a metáfora por trás do cervo, da raposa e daquelas mulheres sem rosto?) e com a alternância brusca de belas paisagens e cenas sombrias e impactantes, só posso me render a esse trabalho pertubador do dinamarquês Lars von Trier: Anticristo levanta mais perguntas do que dá respostas e, em minha humilde opinião, isso ainda é um dos aspectos mais louváveis de qualquer obra de arte. Será que agora é hora de tentar encontrar algum sentindo naquele cachorro desenhado no chão?

Hellraiser 7 – O Retorno dos Mortos (2005)

Hellraiser 7 – O Retorno dos Mortos (2005)

3 anos após tentar (sem sucesso) extrair leite de pedra de um roteiro que não foi escrito para a série Hellraiser,  o diretor Rick Bota (rs) foi novamente escalado para um filme da franquia. Se os produtores gostaram do trabalho do diretor em Caçador do Inferno, certamente eles não ficaram decepcionados com o que foi feito em O Retorno dos Mortos. Encarando novamente o esforço de ter que incluir Pinhead em um filme que não fora originalmente concebido para ele, Bota fez um trabalho com a decência de um episódio de novela: posicionou os atores, escolheu alguns objetos para dar zooms questionáveis (a do porta retrato é um belo exemplo) e, entre uma bizarrice e outra, incluiu os cenobitas na história. Outro filme lançado direto no mercado de vídeo doméstico, O Retorno dos Mortos deve provavelmente ter cumprido seus propósitos e trazido algum lucro para os cofres da Dimension Filmes visto que custou “apenas” $4.000.000 para a produtora, mas do ponto de vista artístico constitui outra mancha na história do mundo concebido pelo Clive Barker.

Ambientado na Europa, O Retorno dos Mortos é sobre a investigação que a repórter Amy Klein (Kari Wuhrer) conduz para desvendar os segredos de um grupo ocultista chamado Deaders. Amy recebe de seu chefe uma fita com gravações de um ritual onde uma adolescente atormentada pode ser vista suicidando-se com um tiro na cabeça. Ao contrário do que parece inicialmente, não trata-se de um filme snuff: para a surpresa de todos, a moça levanta-se após alguns minutos, em outras palavras, ela retorna dos mortos (ah, os subtítulos nacionais…). A jornalista viaja então para a Romênia para investigar o grupo e descobrir o que de fato acontece em suas reuniões, investigação essa que trás à tona traumas de um passado que ela esforçara-se para esquecer e coloca sua vida em risco.

Não que minhas resenhas sejam completamente diferentes umas das outras (haja criatividade!), mas confesso que sinto-me sem recursos para falar sobre Hellraiser 7. Todos os defeitos e problemas que eu listei no texto do Caçador do Inferno repetem-se aqui: Pinhead (Doug Bradley) e os cenobitas (impressão minha ou ressuscitaram o Chatterer?) transformaram-se em coadjuvantes em seu próprio filme (eles devem aparecer em apenas 5% da história), o roteiro abusa de flashbacks para conseguir completar a duração mínima para um filme do gênero (1h30min) e, na maioria do tempo, o que se vê não é exatamente aquilo que está acontecendo. Sabe aquela frustração de acordar de um sonho bom? Imagina isso acontecendo umas 5 vezes na MESMA noita. Não é para ficar p** da vida? O Retorno dos Mortos faz isso tantas vezes (e no final, faz isso com o filme todo) que chegou em um ponto onde eu simplesmente não conseguia acreditar em mais nada do que estava sendo mostrado na tela e ficava apenas aguardando a próxima cena para ver alguém acordar de um sonho ou de uma divagação. Isso não é legal.

É o Chatterer ali na esquerda?

Sendo um pouco mais específico sobre a participação dos Cenobitas, eles aparecem apenas 2 vezes em seu próprio filme! A primeira, que acontece la pelos 50min de filme, não dura 1 minuto completo. A segunda, além de fazer um link com os acontecimentos do A Herança Maldita, contém uma espécie de brutalidade que não via-se na série desde o Inferno na Terra. O que poderia ser considerado como um ponto positivo, infelizmente, desemboca em uma cena absurda, um furo grotesco, infantil até, na mitologia da série.

Creio que já tenha ficado claro que, a não ser que o leitor também resolva assistir todos os longas da série, não há absolutamente nenhum motivo para perder tempo com este filme. Quando tratado apenas como alguém com dinheiro para gastar, o público deve responder à altura: Hellraiser 7 – O Retorno dos Mortos, eu lhe repudio como entretenimento.

Legal né? Pena que seja apenas outras ilusão….

Battleship – A Batalha dos Mares (2012)

Battleship – A Batalha dos Mares (2012)

I just found a million dollars that someone forgot…

Para quem não conhece, esse é um trecho da legalzuda Pretty Tied Up, música um tanto quanto obscura do Guns N’ Roses que usa um bocado de ironias para falar, entre outras coisas, de como a banda resgatou algumas coisas dentro do rock. O som de Axl e cia não está presente na vasta trilha sonora do fraco Battleship – A Batalha dos Mares, mas o trecho foi lembrado aqui por resumir bem a empreitada do diretor Peter Berg para adaptar para o cinema o clássico jogo de tabuleiro Batalha Naval.

O esquema é o seguinte: cientistas conseguiram desenvolver uma tecnologia capaz de enviar sinais para outras galáxias. Esses sinais tanto indicam a existência de um novo planeta habitável quanto chamam a atenção dos habitantes desse planeta para Terra. Segue uma invasão alienígena que é combatida por uma união das Forças da Marinha dos EUA e Japão.

Eu não tinha nenhuma pretensão de assistir esse filme. Tudo que eu havia lido sobre ele dava a entender que tratava-se de um blockbuster de ação genérico e as credenciais do diretor (no trailer e em alguns posters lê-se Do Mesmo Diretor de Hancock) não ajudavam muito. Fui no shooping almoçar domingo e, sem absolutamente nada para fazer durante a tarde, resolvi pegar uma sessão de cinema e lá estava o tal Battleship como um dos únicos filmes que eu não havia assistido. “Bem, tem a Rihanna. A Rihanna é gostosa”, pensou a mente desse apaixonado por morenas. Comprei o ingresso e fui constatar que alguém redescobriu a fórmula de sucesso do Armageddon.

Lembram do A.J do Armageddon, o cara inteligente mas arrogante que vive desperdiçando seu potencial até o momento onde o perigo traz à tona todas suas habilidades e poder de liderança? O equivalente de Battleship chama-se Alex Hopper (Taylor Kitsch), um cara que difere-se do personagem interpretado pelo Ben Affleck apenas na profissão: A.J era um perfurador de poços, Hopper é um vagabundo que acaba ingressando na Marinha. Sai Liv Tyler, entra a delicinha Brooklyn Decker. Ah sim, estou esquecendo do pai ciumento, então troquem o Bruce Willis pelo Liam Neeson e fica tudo certo.

Se não há novidade na construção dos personagens, também não o há no roteiro. Substituam o meteoro por alienígenas bonzinhos e percebam a honestidade assustadora das explosões do Michael Bay. Eu consigo respeitar uma pedra do tamanho de uma montanha prestes a explodir o meu planeta, mas não posso dizer o mesmo de aliens que, inexplicavelmente, não atacam objetos/criaturas inofensivas (a moral, pelo visto, não é algo humano). Chamo vossa atenção para um “scan” que um alien faz em um cavalo e detecta, como arma, uma ferradura. Sensacional (rs).

Falando em Michael Bay, é assustador ver alguém tentando emular o estilo de direção de um diretor tão questionado. Closes em shorts generosamente pequenos vestidos por beldades, baladinhas pops tocando entre uma cena e outra, cenas de ação exageradas e câmeras lenta acompanhando personagens enquanto eles caminham com cara de mal. Você viu isso no Armageddon, no Pearl Harbor e no Transformers, você vê isso em Battleship.

Deixando isso TUDO de lado, tem uma ou outra cena bacana (a manobra com a âncora é divertida) e, mesmo que a Rihanna esteja péssima no filme (ela não aparece de bermuda nem de camiseta molhada =/), a sessão garante algum entretenimento. O problema é que Peter Berg não encontrou 1 milhão, ele achou no máximo uns 100 mil, logo Battleship só vale a pena se você não conhecer os filmes citados nessa resenha ou, assim como eu, não tiver absolutamente nada para fazer e nenhum outra opção de filme.

Caminhadas em câmera lenta … melhor não

Vôo United 93 (2006)

Vôo United 93 (2006)

Teorias da consipiração à parte, sabemos que no dia 11 de setembro de 2001 os EUA foram vítimas de um ataque organizado pela Al-Qaeda. Tendo sequestrado vários aviões, o seguidores de Osama bin Laden conseguiram arremessar dois deles contra as Torres Gêmeas e um contra o Pentágono. Um quarto avião, o United 93, caiu nas proximidades da cidade de Shanksville quando dirigia-se para um golpe mortal contra um dos principais símbolos políticos do governos norte-americano, a Casa Branca. Assim como tudo que envolve esse dia histórico, a queda do United 93 é cercada de controvérsias. Enquanto muitos teorizam sobre o abate da aeronave por caças da Força Aérea Americana, a versão oficial diz que os próprios passageiros do vôo rebelaram-se contra seus sequestradores e, em um gesto de heroísmo, jogaram-na contra o solo antes que ela atingisse o alvo, história que é contada pelo diretor Paul Greengrass (o responsável pela Trilogia Bourne) nesse longa cheio de tensão.

Quando digo “cheio de tensão”, não estou tentando provocar aquele efeito dos comerciais de filmes da Globo ou da capa de DVD’s de suspenses baratos. Recentemente, comecei a fazer o curso de controlador de vôo da INFRAERO e a familiarizar-me com a realidade do setor. Seria falácia, com apenas um mês de estudo, dizer que “senti na pele” o medo e a impotência dos controladores do filme diante dos ataques, mas é com toda sinceridade que digo que, com o que eu aprendi/ouvi/li até agora, fiquei verdadeiramente apavorado só de imaginar que aquela situação pudesse ocorrer comigo durante o trabalho.

Como todos sabem, os membros da Al-Qaeda renderam e mataram os pilotos das naves sequestradas e depois conduziram-nas até seus respectivos alvos. O filme começa do ponto onde um desses vôos, o American 11, começa a descumprir o plano de vôo. Quando o controlador de tráfego aéreo tenta comunicar-se com o piloto da aeronave, a fonia revela que a cabine foi invadida e que algo fora do comum aconteceu. Seguem-se várias tentativas infrutíferas de comunicação e o desvio da rota pré estabelecida, que começa com alterações não programadas do nível de vôo e culminam no desaparecimento do sinal da aeronave da tela do controlador. Enquanto isso e sem saber do ocorrido, o United 93 consegue finalmente decolar após uma longa espera, levando entre seus passageiros 4 homens que foram treinados para construir uma bomba à bordo, render o piloto e os passageiros e arremessar o avião contra a Casa Branca.

Controladores de Vôo

Não quero encher o saco do leitor com informações técnicas (muitas das quais, para falar a verdade, eu ainda nem tenho) sobre Controle de Tráfego Aéreo, então vou limitar-me a comentar sobre o desespero que é, para um controlador, perder o contato com uma aeronave. Não bastasse a preocupação de ser responsável pela vida das 150-200 pessoas à bordo, o profissional naquele momento ainda está responsável pela separação vertical, horizontal e lateral de, pelo menos, mais 15-20 aeronaves com mais 150-200 pessoas cada. O stress de uma situação dessas, aumentado pelas ameças ouvidas na fonia, pelo desvio da rota e, finalmente, pela perda do sinal, é algo incalculável. Não bastasse isso, os operadores da Torre de Controle de Manhattan ainda vêem uma das aeronaves chocarem-se contra uma das torres, ali, bem na frente deles. É o tipo de coisa que seguramente traumatiza qualquer um para o resto da vida.

Demonstrando profissionalismo e respeito pelas famílias das vítimas, o diretor Paul Greengrass foi o mais fiel possível em sua reconstituição dos eventos. Escalou atores relativamente desconhecidos para o papel dos passageiros e conseguiu que grande parte dos controladores e supervisores que trabalhavam durante o evento representassem seus próprios papéis. O resultado, pelo menos no que diz respeito as cenas fora do avião, é a representação de sentimentos genuínos de quem foi afetado pelo ataque. Anos depois, os controladores foram capazes de trazer à tona os sentimentos de incredulidade e pavor que eles sentiram quando vários aviões começaram a sair de suas rotas e perderem comunicação, situação que levou ao fechamento total do espaço áereo americano, local ondem acontecem cerca de 5000 vôos por dia.

Quanto ao que aconteceu dentro do avião, é um pouco mais complicado atestar a vericidade da versão de Greengrass. Algumas ligações foram feitas por passageiros para suas famílias e há as informações da caixa preta, mas até hoje não há provas concretas que, de fato, um motim heróico teria salvado a Casa Branca. Acreditando-se no que o diretor está contando, sua experiência inovadora com cenas de ação na Trilogia Bourne trabalha à favor das cenas e garante um clima constante de tensão e perigo. Em um determinado momento, os passageios SABEM que estão próximos da morte e que só lhes resta tentar salvar as vidas daqueles que estão no solo. É interessante notar nesse ponto o trabalho do diretor para compor diferentes tipos de reações diante da morte, há desde aqueles que desesperam-se completamente até aqueles que procuram ser racionais e verem o que ainda pode ser feito com os últimos minutos que lhes restam.

Independente do seu conhecimento/interesse sobre tráfego aéreo e daquilo que tu acredita que tenha acontecido naquele dia, Vôo United 93 é um ótimo filme de suspense que, mesmo começando com um final conhecido, é capaz de manter o interesse do espectador pela competência de seu diretor.

Os passageiros tentam decidir o que fazer

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974)

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974)

Recordo-me de, com uma certa dose de ignorância, zombar dos filmes que um amigo gostava. O esquema funcionava mais ou menos assim: o cara chegava e e dizia que tinha assistido um filme de terror italiano da década de 60 :S Na época, eu contentava-me em ir no cinema no final de semana e conferir as novas formas encontradas pelo Michael Bay de explodir as coisas, logo a minha reação consistia basicamente em aloprar o cara por achar que ele estava de sacanagem. A ironia aqui é que, no final de semana passado, me “alopraram” na mesma medida quando eu comecei a assistir o Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Vamos aos motivos:

  • O título: Geralmente, os títulos americanos até são bons, mas anos e anos sujeitos a traduções toscas e subtítulos sem vergonha (que os leitores frequentes me perdoem pelo lugar comum, mas eu não consigo deixar de perder a fé no progresso da nação quando lembro de Cloverfield – Monstro) causam uma aversão compreensível a um título pomposo desses, no caso, uma tradução literal.
  • A fotografia: Não faltam exemplos de filmes antigos cujas fotografias são, por assim dizer, “atuais” mesmo depois de passados alguns anos de seus lançamentos. O 2001 é um bom exemplo disso. Não dá para negar, no entanto, que um dos fatores que mais denunciam a idade de um filme são as cores e a resolução das câmeras com as quais ele foi filmado e em Tragam me a Cabeça… isso não é diferente, basta assistí-lo por 1min para perceber que ele é “antigo pra caralho” (palavras do tal amigo).
  • O visual: Não, nesse caso não estou repetindo o que foi falado no tópico anterior. O problema aqui não é a idade do filme, mas a ambientação e os personagens. Sam Peckinpah, carinhosamente chamado de Sam Sangrento pelos fãs de sua obra, contou uma história ambientada no México e nos EUA. Os lugares são sujos, os atores são mais velhos, alguns feios como o diabo e toda a estética visual reforça e valoriza esses aspectos.

Por todos os motivos citados, tive companhia para assistir o filme apenas por 5min e não fiquei surpreso. Antigamente, esses mesmos motivos me afastaram de muitos filmes ,portanto eu entendo o que se passou na cabeça do cara, cheguei até a rir quando ele disse que eu estava “de sacanagem” por assistir “aquilo”. Felizmente, e após quebrar muito a cara, aprendi que dificilmente alguém convence verdadeiramente o outro na base da argumentação, então concentrei-me no filme e foi com muito prazer que vi que ele correspondeu a tudo que eu esperava do diretor que me surpreendeu com o Meu Ódio Será Sua Herança.

Sacaram o “estilo” do cidadão acima? Ele é Bennie (Warren Oates) e é, por assim dizer, o “herói” de Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. O tal Alfredo Garcia do título é um infeliz que engravidou a filha de um casca grossa podre de rico do México. Para salvar a honra da filha (rs), o pai inconsolável oferece um prêmio absurdo de $1.000.000 de dólares pela cabeça do sujeito. A notícia corre e Bennie, que “conhecia uma pessoa que conhecia” o Garcia, parte atrás da recompensa. A “pessoa que conhecia Garcia” é Elita (Isela Vega), uma prostituta com quem Bennie tem um caso de longa data. Como Elita jura que Alfredo Garcia está morto e enterrado, o casal consegue um carro velho e parte até o cemitério onde ele estaria sepultado para, literalmente, levar sua cabeça. O problema é que a gorda recompensa despertou o interesse de várias pessoas…

Quando o tal amigo perguntou o motivo de eu assistir o filme, eu procurei justificar a sessão dizendo que o Sam Pekinpah foi tudo o que o Tarantino deseja ser na vida. É uma frase de efeito bacana e, lá no fundo, ela contêm alguma verdade (Tarantino é um fã confesso do diretor), mas é lógico que não funcionou assim como é lógico que não foi por isso que eu assisti o filme. Assisti Tragam-me A Cabeça de Alfredo Garcia tanto pela curiosidade sobre o trabalho do Peckinpah quanto porque, atualmente, eu tenho tido mais prazer assistindo filmes antigos do que atuais. Não foi algo forçado nem planejado, simplesmente aconteceu. Como já foi falado, antigamente eu também torcia o nariz para títulos bizarros, fotografia “velha” e visuais estranhos, mas hoje em dia é principalmente isso que me atrai em um filme, o desejo de ver algo diferente daquilo que tem sido produzido atualmente.

Caso o leitor esteja-se perguntando, não, não estou afirmando que os filmes antigos são melhores que os atuais (nem que não sejam), estou apenas dizendo que atualmente eles estão mais presentes no meu campo de interesse. Frequentemente, me deparo com “clássicos” vergonhosos, mas felizmente esse não é o caso de Tragam-me a Cabeça… Tirando toda essa questão temporal, temos um filme de crime feito pelas mãos de um dos grandes especialistas do estilo. Bennie, por exemplo, é um cara do qual eu gostei instantâneamente. Esqueçam esses heróis almofadinhas que moram em uma casa bacana com uma família bem estruturada: Bennie é contratado em um BAR, ele toca piano, bebe o tempo todo, transa com prostitutas e atira bem como o diabo. Não bastasse isso, o cara assemelha-se fisicamente ao imortal Sr. Madruga e possui um repertório de frases de efeito interminável. O momento onde ele diz “Vocês estão definitivamente na minha lista de inimigos” para dois caras que tentam estuprar Elita é deveras mágico. Sobre o tal estupro, Peckinpah repetiu aqui a polêmica que ele mesmo criara no Sob o Domínio do Medo ao sugerir que a personagem gostou do ato. Do Meu Ódio Será Sua Herança repete-se com a mesma eficiência os tiroteios ultra violentos em câmera lenta e a famosa “caminhada para a morte”.

No final das contas, o meu amigo acabou assistindo algumas partes do filme e, aparentemente, gostou de várias delas, rindo dos absurdos de um estilo que o diretor ajudou a criar. Fiquei feliz em poder oferecer a alguém a oportunidade que um dia me foi oferecida e muito contente por perceber que hoje em dia eu já superei esse empecilho temporal e posso divertir-me com bons personagens e boas histórias independentemente do ano em que elas foram criadas.

Bennie e Elita

Nascido Para Matar (1987)

Nascido Para Matar (1987)

Apesar de ter solicitado formalmente, não consegui ingressar no serviço militar. Apresentei-me na data marcada e fiz todos os exames necessários, mas acredito que, na época, minha aprovação no processo seletivo da faculdade somada a configuração “chassi de grilo” 1,78m x 58kg foram determinantes para a minha dispensa. Depois disso, tive oportunidades suficientes tanto para lamentar o ocorrido quanto para comemorar. Lamento pela oportunidade perdida de ingressar em uma carreira que garante uma certa estabilidade financeira e prestígio social. Comemoro porque, definitivamente, não me enquadro dentro dos padrões de rigidez moral exigidos pela corporação. Admiro a disciplina e o respeito à hierarquia na mesma medida que repudio a alienação que muitas vezes dita essas relações. Não consigo ver sentido, por exemplo, em um ambiente que te pune/exclui/discrimina devido ao uso de barba, brinco e tatuagem. A padronização que visa garantir disciplina e a organização acaba inibindo a individualidade do corpo militar e, em muitos casos, isso torna-se prejudicial não apenas pelo empobrecimento intelectual fruto dessas limitações mas, principalmente, pelo represamento de frustrações e emoções que, em casos extremos (como em situações de guerra), transformam pessoas potencialmente problemáticas em verdadeiras “bombas relógio”. Esse é o caso do Soldado Pyle.

Assim como outros grandes diretores de sua geração, Stanley Kubrick dedicou uma de suas obras para analisar a Guerra do Vietnã e seus desdobramentos morais e psicológicos sobre a vida dos envolvidos. Nascido Para Matar acompanha um grupo de soldados desde o treinamento até o momento onde eles lutam nos campos de batalha. Hilário (Matthew Modine), Animal (Adam Baldwin), Pyle (Vicent D’Onofrio), Cowboy (Arlis Howard) e outros garotos são colocados sob o comando do Sargento Hartman (R. Lee Ermey), uma máquina viva de falar palavrões que trata de adiantar para o batalhão o inferno que eles enfrentariam em combate. Findado o treinamento, Hilário e cia recebem suas respectivas missões e partem para o sudeste asiático para o evento que mudaria suas vidas.

Sargento Hartman e o pelotão

Cronologicamente, Nascido Para Matar encontra-se entre o Iluminado e o De Olhos Bem Fechados dentro da obra do Stanley Kubrick. É o penúltimo trabalho do diretor e, ao contrário do filme estrelado pelo Tom Cruise, é unanimamente aclamado como um de seus melhores trabalhos, ostentando uma respeitosa posição #82 no IMDB. Como dificilmente eu consegueria fazer uma análise técnica competente ou que trouxesse algo de novo sobre um trabalho dessa magnitude, vou contentar-me em relatar o que eu verdadeiramente senti assistindo o filme.

A famosa cena de abertura do filme, cena onde o Sgt. Hartman xinga freneticamente seu pelotão, é aquele tipo de trabalho que merece ser classificado como “genial”. Não estou falando apenas das memoráveis improvisações do R. Lee Ermey que redefiniram as formas de humilhar uma pessoa, mas sim de todo o sentimento que é trabalhado ali. Enquanto Hartman caminha pela sala proferindo suas maldições, reina o silêncio e o medo no local. Salvas as devidas proporções, lembrei exatamente do que eu senti no dia em que fui “jurar a bandeira” e os oficiais nos deixaram “em forma” esperando durante quase 2 horas sob um sol quentíssimo. “Qual a razão disso, qual a lógica em ficar aqui esperando esse tempo todo?” era a pergunta que não saía da minha cabeça. A minha vontade, assim como a de todo mundo ali (pelo menos é o que dava a entender) era de fazer algo que demonstrasse a insatisfação com a forma como estavamos sendo tratados, mas a consciência do poder da instituição manteve minha boca fechada. No filme, em um lampejo de loucura/inconsequência, o soldado Hilário faz o que eu e todos os soldados do filme desejariam ter feito: ele ZOMBA do Sargento e, surpreendentemente, ele consegue, junto com todos os tapas que recebe, algum respeito. Pode até ser o tipo de coisa que provavelmente não teria o mesmo tipo de desfecho no mundo real (rs), mas o exercício imaginativo é mais do que válido.

Soldado Pyle

Do outro lado, temos o Soldado Pyle. Fora de forma, atrapalhado e sem um pingo de bom senso, Pyle segue sendo humilhado por Hartman até o dia próximo da formação da turma. É então que, repetindo uma tradição do diretor de conduzir algum acontecimento importante dentro de um banheiro (basta lembrar da cena do machado no O Iluminado e, bem, da Nicole Kidman mijando urinando no De Olhos Bem Fechados rs), soldado e Sargento acertam as contas em uma cena kubrickiana: violenta, polêmica e tecnicamente inspirada.

Quando o filme passa para a guerra em si, ele mantêm a qualidade esperada do diretor mas passa a seguir um caminho tradicional dentro dos filmes do gênero, como Platoon e Apocalypse Now!, mostrando o soldado Hilário confrotando os horrores do conflito e, com isso, mudando significativamente sua forma de ver o mundo. O pragmatismo que o personagem apresenta durante o filme e o seu humor são abalados após a cena da sniper (outro grande momento) e vemos nos olhos trêmulos do ator que algo mudou em sua alma.

Ao meu ver, Nascido Para Matar não é o melhor filme já feito sobre o Vietnã, mas definitivamente é um dos trabalhos mais significativos já feitos sobre  as deficiências do meio militar e o é porque, através de toda a teatralidade zombadora e destrutiva, provoca reflexões que são fundamentais para a humanização desse ambiente.

Soldado Hilário – Ele pode até não ter “nascido para matar”, mas ele tem mais coragem do que eu e você juntos

Os Vingadores – The Avengers (2012)

Os Vingadores – The Avengers (2012)

Lembro de um final de tarde qualquer em que eu estava sentado na frente da minha casa conversando descontraidamente com o meu primo sobre filmes. Entre outras coisas, falavamos do padrão de qualidade e de inovação que o Matrix havia trazido para as cenas de ação e concordamos que dificilmente veríamos algo que causasse o mesmo impacto. Alguns anos depois, senti aquela mesma sensação de “embasbacamento” enquanto assistia o Avatar. Digam o que quiserem sobre as limitações (?) do roteiro ecologicamente engajado do James Cameron, mas as empolgantes cenas de ação somadas a inovadora experiência com o 3D garantiram para o filme o seu lugar na história do cinema e tranformou-lhe, por assim dizer, no blockbuster “a ser batido”. Muita coisa boa saiu depois, tanto no que diz respeito ao uso de efeitos especiais quanto na elaboração de cenas de ação de “tirar o fôlego”, mas ainda estava faltando um trabalho irrepreensível, um filme que, assim como Matrix e Avatar, fosse capaz de agradar crítica e público de modo que todos saíssem empolgados do cinema com a certeza de que um novo divisor de águas havia sido criado. Sexta-feira passada (27/04), eu fui ao cinema pela primeira vez desde que mudei para São José dos Campos-SP e testemunhei uma promessa que foi cumprida: Os Vingadores – The Avengers (doravante apenas Os Vingadores)  tinha tudo para ser o novo bambambam das telonas e é com muito prazer que eu posso usar esse blog para atestar o sucesso da empreitada da Marvel de levar seu maior grupo de super-heróis para as telas. Os Vingadores é DO CARALHO!

Lembram daquele cubo de energia azul que aparecia no filme do Thor e do Capitão América? Após ser derrotado pelo deus do trovão, Loki (Tom Hiddleston) vaga por outras dimensões e faz um pacto com criaturas poderosas e desconhecidas: em troca do governo de nosso planeta, ele roubaria o cubo (aqui chamado de Tesseract) para essas criaturas  e abriria um portal  para que elas pudessem vir até a Terra ajudá-lo na dominação. Diante de tal problema, o agente da S.H.I.E.L.D Nick Fury (Samuel L. Jackson) reativa o projeto Vingadores e reúne uma equipe formada por Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Viúva Negra (Scarlet Johansson) para lidar com o perigo iminente.

Considerando os filmes onde os heróis apareciam individualmente (lembrando que a Víuva Negra e o Gavião Arqueiro não tiveram produções solo, tendo aparecido no Homem de Ferro 2 e no Thor, respectivamente), eu temia que a iniciativa de colocá-los juntos sofresse do mesmo problema enfrentado por todas as produções: a tal “luta final”. A falta de um confronto significativo próximo ao fim do longa fez os filmes do Homem de Ferro perderem parte do seu brilho, não deu uma chance para o Capitão América mostrar suas verdadeiras habilidades, diminuiu o potencial do desfecho do Thor e não forneceu um inimigo à altura do poder destrutivo do Hulk. E quando todos eles estivessem juntos, quem seria capaz de enfrentar os Vingadores e oferecer uma luta que usasse todo o poder de fogo dos heróis?

O diretor e roteirista Joss Whedon, cara que já trabalhou roteirizando HQs da Marvel, entendeu esse problema e nos ofereceu uma batalha gigantesca que dura quase 1 hora e dá oportunidade para todos os personagens utilizarem todas as suas habilidades no limite. As flechas do Gavião Arqueiro acabam, a armadura do Homem de Ferro fica toda danificada, o Capitão América fica gravemente ferido… Todos os heróis precisam suar para conter a invasão alienígena. Até o Nick Fury, personagem que até então ficara apenas no comando das operações, ganha oportunidades para demonstrar o porque de ele ser O cara da S.H.I.E.L.D. Outra coisa que Whedon entendeu bem, e que, para mim, fez TODA a diferença, foi o modo de filmar (ou, na maioria dos casos, gerar por computador) as cenas de ação. Apesar de termos cenas editadas freneticamente, a maioria das grandes sequências de ação do filme são mostradas em todos os detalhes. A câmera dança pelo cenário mostrando a trajetória de uma flecha lançada pelo Clint Barton e segue, sem cortes, acompanhando Tony Stark e Steve Rogers detonando o exército inimigo com uma bela combinação de suas habilidades. Tanto é algo verdadeiramente bonito de ser visto quanto vai dando uma crescente de emoção para tais cenas ao ponto de, nos ápices, a platéia torcer e vibrar com a vitória dos heróis.

Enquanto não estão atirando, quebrando e esmagando, os heróis estão procurando encontrar uma forma de trabalharem juntos e, como era de se esperar, brigando entre si. Esses momentos são, em sua maioria, levados por aquele humor refinado dos filmes do Homem de Ferro e funcionam muito bem. Assisti o filme duas vezes (na sexta e no sábado, 28/04) e nas duas sessões a platéia riu muito das piadas, dentre as quais eu destaco a do Galaga (genial) e o alinhamento com a cultura pop do Tony Stark ao citar o Legolas. Dentre a pancadaria que rola entre os heróis está um dos únicos “furos” do filme, um confronto entre Homem de Ferro, Thor e Capitão América que acaba de forma inexplicável e é cortado para uma cena de calmaria que faz a lutar perder todo o sentido.

Finalizando, devo pedir ao leitor para que substitua as minhas impressões sobre o filme por aquelas que ele adquirirá indo no cinema. O 3D, infelizmente, não faz muita diferença, mas estamos diante do que há de melhor e mais refinado no cinema blockbuster atual, um filme que deixará o público mais exigente e contribuirá positivamente para a elevação dos níveis de excelência dos efeitos especiais e dos roteiros dos filmes de ação. Sei do peso dessas palavras e, justamente para não pronunciá-las em um momento de empolgação, esperei cerca de uma semana para escrever essa resenha, tempo que eu usei para refletir sobre o os filmes que foram lançados nos últimos anos e minha reação diante deles. Minha opinião não mudou: Os Vingadores é um divisor de águas no cinema de ação, o blockbuster que, devido a sua qualidade e sua bilheteria, será o filme a ser superado daqui para frente. Quem sabe a sequência, que é anunciada pela cena inserida durante os créditos (e é uma cena DO CARALHO se tu reconhecer aquele rosto, coloquei uma dica “escondida” na resenha, procura aí :p), consiga tal proeza.

Sete Dias com Marilyn (2011)

Sete Dias com Marilyn (2011)

Você já foi estereotipado? Já sentiu-se frustrado por não conseguir realizar algo que, por um motivo ou outro, as pessoas julgavam que você seria capaz de executar tranquilamente? Já sentiu nas costas o peso de ter que corresponder ad infinitum as expectativas de terceiros? Pois fique sabendo, caro mortal, que além do branco dos olhos, você tem algo em comum com a lenda Marilyn Monroe.

Consta que, em 1956, a atriz  viajou para a Inglaterra para dar início as gravações do filme O Príncipe Encantado. Naquela época, Marilyn já era uma estrela consagrada com trabalhos como O Pecado Mora ao Lado no currículo e, com sua recém fundada produtora (Marilyn Monroe Productions), procurava participar de produções que lhe permitissem desenvolver-se enquanto atriz. Para desvencilhar-se do estereótipo de símbolo sexual, Marilyn começou a estudar o Método Stanislavski de atuação e foi até a terra da rainha para ser dirigida e atuar ao lado do respeitadíssimo Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Sete Dias com Marilyn conta detalhes do período cheio de intrigas que marcou o registro desse trabalho através dos olhos Colin Clark (Eddie Redmayne), um assistente de direção com quem a atriz teria vivido um caso extra conjugal.

Tendo me interessado a relativamente pouco tempo pelo trabalho da Marilyn (comecei com o O Pecado Mora ao Lado e depois vi o Quando Mais Quente Melhor), não posso falar com propriedade sobre um dos pontos mais geraram discordâncias sobre o filme: a escolha da atriz Michelle Williams. Muito antes de ter a oportunidade de assistir Sete Dias com Marilyn, eu li que a atriz precisou de usar calcinhas com enchimento para simular o quadril avantajado de Marilyn e que, apesar de todos os prêmios recebidos pela interpretação (incluindo aí uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz), Michelle Williams ficara devendo na hora de compor a aura de sensualidade que transformaram Marilyn em um símbolo da cultura pop do século XX.

Michelle Williams como Marilyn

Bem, eu realmente não sei tanto da vida privada da atriz para poder dizer se aquela pessoa insegura e amedrontada sugerida pelo roteiro corresponde à sua verdadeira personalidade, mas posso fazer algumas considerações. Se formos considerar o que sabemos de Marilyn tendo como base os filmes onde ela aparece fazendo os homens babarem, é acertada a crítica sobre a escolha da Michelle Williams: seus traços faciais não lembram instantâneamente os de Marilyn e sua beleza remete mais a inocência do que ao desejo, o que nos leva a outra abordagem.

Como foi dito, Sete Dias com Marilyn é baseado em um diário das gravações do filme O Príncipe Encantado escrito pelo auxiliar de produção Colin Clark. Parte da premissa que a Marilyn que conhecemos era apenas mais um personagem interpretado pela loira que, apesar dos lábios grossos e de todos seus atributos físicos, era uma mulher instável e insegura com relação a seu talento. Clark apaixona-se por ela e julga tê-la visto como ela realmente é, uma pessoa frágil e carente da aprovação dos outros. A Michelle Williams que vemos na tela é TUDO isso. Os elogios e prêmios que a atriz recebeu não devem-se a sua semelhança física ou a emulação dos trajeitos de Marilyn, mas sim na captura da essência de uma mulher que sofre para ser aquilo que esperam que ela seja. Emblemática, a cena onde ela pergunta para Colin “Devo ser ELA?” para em seguida enconstar-se sensualmente em uma parede frente à uma multidão ensandecida diz muito sobre a proposta do roteiro, uma tentativa bem sucedida de mostrar alguém que acabou sendo vítima do personagem que criou para si.

Além de recriar o Mito Monroe, o diretor Simon Curtis recheou seu filme com detalhes, fofocas e curiosidades sobre a Hollywood desse período. Vemos, por exemplo, a atriz Vivien Leigh (conhecida por seu papel em … E O Vento Levou, aqui interpretada por Julia Ormond) tendo cíumes de Marilyn com o marido Laurence Olivier, há a presença do lendário produtor Arthur Jacobs (Toby Jones) nos sets de filmagem e os embates devido a aplicabilidade do Método Stanislavsk defendido, entre outros, pelo ator Marlon Brando e pelo diretor Elia Kazan com quem Viven trabalhara em Uma Rua Chamada Pecado. É o famoso “prato cheio” para os cinéfilos.

Gostei de Sete Dias com Marilyn. Apesar de ser relativamente curto para um drama (1h30min), ele condensa bem essa questão do estereótipo, questão essa que, aliás, eu convivo diariamente. É difícil ter que corresponder as expectativas de pessoas que acham que, porque tu é formado em história, tu tem que saber de TUDO que aconteceu até hoje e de TODAS as datas. É difícil ter que lidar com leitores que acham que, porque você tem um blog de cinema, tu tem que saber TUDO à respeito e não pode criticar aquele filme que ele tanto gostou. Acima de tudo, é complicado ser taxado de “intelectual” apenas porque tu gosta de ler e, diariamente, ouvir coisas do tipo “nossa, você parecia ser tão inteligente, não imaginava que você fazia esse tipo de coisa”. Marilyn parece ter sofrido muito tentando corresponder àquilo que esperavam dela e, entre outras coisas, isso acabou levando a sua morte prematura. Que o exemplo da atriz nos ensine a ter maturidade tanto para não nos preocuparmos tanto com a opinião dos outros quanto para não colocarmos responsabilidades injustas nos ombros alheios.

Linda e insegura

A Casa dos Sonhos (2011)

A Casa dos Sonhos (2011)

Todo mundo faz algo que não gosta, algumas vezes por necessidade, outras por não conseguir evitar. Eu não gosto de legumes mas procuro incluí-los na minha alimentação devido a sua importância. Por outro lado, eu coleciono experiências entediantes com filmes de terror/suspense “novos” mas simplesmente não consigo deixá-los de lado. Não gosto de sofrer e, definitivamente, não tenho tempo sobrando. O que me leva a assistir filmes como A Casa dos Sonhos, fora a necessidade de manter-me atualizado com o que está sendo produzido, é aquela inocência que me diz que “aquele filme novo pode ser tão bom quanto O Iluminado ou O Exorcista“. A decepção, nesse caso, é uma companheira constante, mas sigo tentando visto que, vez ou outra, encontro pérolas como O Nevoeiro e A Fronteira.

O escritor Will Atenton (Daniel craig) está sobrecarregado no trabalho e decide abandonar tudo para passar mais tempo com a família. Tendo comprado uma casa em uma cidadezinha do interior, ele muda-se e dá início ao que parece ser uma vida feliz. Passados alguns dias, Will descobre que o passado da casa é manchado por um assassinato brutal e, pouco a pouco, o evento macabro transforma a vida de todos ali em um verdadeiro inferno.

Mesmo que eu goste de me manter atualizado, uso certos “filtros” na hora de escolher um filme para assistir. Salvo excessões (geralmente estimuladas pela leitura de algum review elogioso, campanhas de marketing irresistíveis, credenciais ou indicações de amigos), eu não assisto, por exemplo, comédias românticas. Não que esses filmes não tenham nada a acrescentar (quase sempre não tem mesmo), mas é que há tantos trabalhos potencialmente mais promissores para serem apreciados que eles acabam sendo minha última opção. No que diz respeito ao gênero suspense, eu evito filmes como o descrito no parágrafo à cima, algo que eu classifiquei na minha mente como “suspense da casa assombrada”. Por que? Porque, até que eles provem o contrário (e quase sempre não provam), eles são sempre a mesma coisa. Abri uma excessão para A Casa dos Sonhos devido as credenciais dos envolvidos e, infelizmente, tive outra decepção.

Além de considerar positivo o saldo do ator Daniel Craig, confiei na experiência do diretor Jim Sheridan, sujeito que, através de uma proveitosa parceria com o ator Daniel Day-Lewis, realizou os ótimos Meu Pé Esquerdo e O Lutador. Um cara que trabalhou temas sérios e complexos como a deficiência física e o Exército Revolucionário Irlandês poderia realizar algo relevante dentro de um gênero/tema carente de inovações, certo? Errado, meus amigos, muito errado. Seja por preguiça, falta de criatividade ou imposição de algum produtor linha dura,Sheridan seguiu a cartilha da “casa assombrada” e fez um filme bobo e previsível cujos únicos méritos são indicar que o diretor conhece trabalhos como O Iluminado (devido algumas referências visuais, sendo a mais óbvia a imagem que lembra muito a “cena das gêmeas” do Kubrick) e o recente A Ilha do Medo (pela condução do roteiro). Personagens enigmáticos, pessoas olhando misteriosamente através de janelas e revelações do passado são as recompensas para quem aventurar-se pela 1h32min do filme. A costumeira reviravolta da história acontece cedo e de forma abrupta, o que leva o filme em uma direção diferente daquilo que estava sendo mostrado até então mas que não apresenta nada de novo para quem viu A Ilha do Medo ou Horror em Amityville. Peço desculpas pelo SPOILER involuntário mas defendo-me dizendo que, caso tu conheça os filmes citados, estou lhe ajudando a economizar tempo: fora algum caso improvável onde tu NECESSITE dele, não há problema algum em EVITÁ-LO. Tipo jiló, entendeu?

Ops, acho que já vi isso em algum lugar...