Ninguém consegue saber tudo, nem mesmo o mestre da animação japonesa Hayao Miyazaki. Inspirado pelo livro As Viagens de Gulliver, do escritor Jonathan Swift, Miyazaki batizou o sucessor de Nausicaa com o título Laputa – O Castelo no Céu. Laputa é um local descrito por Swift em seu romance e, em espanhol, separando as sílabas (como o leitor já deve ter maldosamente percebido), lê-se “a puta”. Questionado, o diretor disse que não dominava o espanhol, caso contrário não teria colocado o nome no título do filme. É uma curiosidade boba, mas não deixa de ser engraçado pensar que no longa duas crianças arrisquem suas vidas procurando Laputa.
Uma dessas crianças, Sheeta (confesse, você lembrou da macaca rs), começa a animação caindo do céu. O dirigível em que ela viajava é atacado por piratas e, após uma tentativa desesperada de esconder-se do lado de fora da janela, Sheeta cai para aquilo que seria a morte certa. Em outro cenário, vemos o menino Pazu acordando para aquilo que seria apenas mais um dia comum. Ele toma o café da manhã, troca de roupa e pega o caminho para o trabalho quando vê uma menina descendo do céu protegida por uma misteriosa luz azul. Pazu consegue segurá-la antes que ela toque o chão e percebe que, aparentemente, a queda foi suavizada por uma força que emanava de seu pingente. Quando acorda, Sheeta relembra o ataque e pede proteção a Pazu, que promete ajudá-la a escapar dos piratas, os quais aparecem logo na sequência e, sob o comando da anciã Dola, iniciam uma ferrenha perseguição aos garotos.
Na filmografia do Miyazaki, O Castelo no Céu vem depois de Nausicaa e antes de Meu Vizinho Totoro. Coincidência ou não, a animação mistura o que há de melhor nos dois, que a meu ver sãos as cenas de ação e violência do primeiro e a inocência e a valorização da amizade do segundo. O diretor, que ao longo dos anos especializou-se em produzir sequências sensacionais de explosões e corridas aéreas, inicia o filme com uma perseguição verdadeiramente memorável. Os piratas localizam Sheeta antes que Pazu possa pensar em algum plano para escondê-la, de modo que só resta aos personagens correr. De posse de uma artilharia pesada (outro tema corrente na obra do diretor, um fã confesso de veículos e aeronaves militares), Dola e seus comandados abrem fogo contra o pequeno vilarejo, explodindo tudo que fica entre eles e o tão desejado pingente. A quantidade de objetos voando na tela e o ritmo frenético da perseguição, que conta com fugas em carrinhos através de trilhos e túneis, impressiona pelo cuidado com os detalhes e pela qualidade da animação que, nunca é demais lembrar, foi feita majoritariamente à mão.
A “pausa para respirar” vem na sequência para responder algumas questões importantes da trama, como a identidade de Sheeta, a origem do pingente e o porque de ele ser tão desejado pelos piratas e por um grupo de militares que também entra na perseguição. Essa parte da história fornece alguns dos momentos mais emocionais da trama, como o encontro com o Tio Pom (que lembra muito o Mestre Yupa de Nausicaa, assim como a vovó Dola parece uma versão envelhecida da Princesa do Vale do Vento) e as juras de amizade entre os garotos. Antes de voltar as sequências de ação que dominam a parte final, Miyazaki ainda reserva algum tempo para o humor, com Sheeta cozinhando para os preguiçosos soldados do navio em uma cena deveras divertida.
Definidos os papéis de cada personagem dentro da trama após a tradicional reviravolta do diretor que procura quebrar esteriótipos ligados à aparência, o castelo no céu, Laputa, é finalmente encontrado e inicia-se uma batalha atroz para decidir o seu destino. Tiros, mortes, explosões e sangue nos fazem esquecer um pouco que estamos assistindo um produto cujo público alvo geralmente são as crianças, mas é inegável que o produto final, com a mensagem de respeito à natureza e a valorização da vida e da amizade, prima pela busca da paz e dos bons sentimentos.
O Castelo no Céu é, dentre os que até agora eu tive a oportunidade de ver, o trabalho mais dinâmico e versátil do Miyazaki. Colorido e sombrio, violento e emocionante, o longa coloca crianças e velhos ao lado de militares e robôs gigantes em uma aventura para encontrar um castelo lendário no céu. Sobram motivos para ver, faltam-me novos elogios para o diretor e seu Estúdio Ghibli. Por favor, não me entendam mal, mas acho que todos devem, em algum ponto da vida, conhecer Laputa
Obs.: Fiquei tão impressionado com a beleza de algumas cenas do O Castelo no Céu que resolvi tirar alguns prints para usar como papel de parede. No final, notei que havia reunido imagens suficientes para ilustrar a resenha sem necessidade de recorrer a minha tradicional pesquisa no Google. Seguem mais algumas cenas maravilhosas e uma pergunta: o post fica bacana nesse formato, com imagens escolhidas e “printadas” por esse que vos fala?






































