O Castelo no Céu (1986)

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O Castelo no CéuNinguém consegue saber tudo, nem mesmo o mestre da animação japonesa Hayao Miyazaki. Inspirado pelo livro As Viagens de Gulliver, do escritor Jonathan Swift, Miyazaki batizou o sucessor de Nausicaa com o título Laputa – O Castelo no Céu. Laputa é um local descrito por Swift em seu romance e, em espanhol, separando as sílabas (como o leitor já deve ter maldosamente percebido), lê-se “a puta”. Questionado, o diretor disse que não dominava o espanhol, caso contrário não teria colocado o nome no título do filme. É uma curiosidade boba, mas não deixa de ser engraçado pensar que no longa duas crianças arrisquem suas vidas procurando Laputa.

Uma dessas crianças, Sheeta (confesse, você lembrou da macaca rs), começa a animação caindo do céu. O dirigível em que ela viajava é atacado por piratas e, após uma tentativa desesperada de esconder-se do lado de fora da janela, Sheeta cai para aquilo que seria a morte certa. Em outro cenário, vemos o menino Pazu acordando para aquilo que seria apenas mais um dia comum. Ele toma o café da manhã, troca de roupa e pega o caminho para o trabalho quando vê uma menina descendo do céu protegida por uma misteriosa luz azul. Pazu consegue segurá-la antes que ela toque o chão e percebe que, aparentemente, a queda foi suavizada por uma força que emanava de seu pingente. Quando acorda, Sheeta relembra o ataque e pede proteção a Pazu, que promete ajudá-la a escapar dos piratas, os quais aparecem logo na sequência e, sob o comando da anciã Dola, iniciam uma ferrenha perseguição aos garotos.

O Castelo No Céu - Cena

Na filmografia do Miyazaki, O Castelo no Céu vem depois de Nausicaa e antes de Meu Vizinho Totoro. Coincidência ou não, a animação mistura o que há de melhor nos dois, que a meu ver sãos as cenas de ação e violência do primeiro e a inocência e a valorização da amizade do segundo. O diretor, que ao longo dos anos especializou-se em produzir sequências sensacionais de explosões e corridas aéreas, inicia o filme com uma perseguição verdadeiramente memorável. Os piratas localizam Sheeta antes que Pazu possa pensar em algum plano para escondê-la, de modo que só resta aos personagens correr. De posse de uma artilharia pesada (outro tema corrente na obra do diretor, um fã confesso de veículos e aeronaves militares), Dola e seus comandados abrem fogo contra o pequeno vilarejo, explodindo tudo que fica entre eles e o tão desejado pingente. A quantidade de objetos voando na tela e o ritmo frenético da perseguição, que conta com fugas em carrinhos através de trilhos e túneis, impressiona pelo cuidado com os detalhes e pela qualidade da animação que, nunca é demais lembrar, foi feita majoritariamente à mão.

O Castelo No Céu - Cena 2

A “pausa para respirar” vem na sequência para responder algumas questões importantes da trama, como a identidade de Sheeta, a origem do pingente e o porque de ele ser tão desejado pelos piratas e por um grupo de militares que também entra na perseguição. Essa parte da história fornece alguns dos momentos mais emocionais da trama, como o encontro com o Tio Pom (que lembra muito o Mestre Yupa de Nausicaa, assim como a vovó Dola parece uma versão envelhecida da Princesa do Vale do Vento) e as juras de amizade entre os garotos. Antes de voltar as sequências de ação que dominam a parte final, Miyazaki ainda reserva algum tempo para o humor, com Sheeta cozinhando para os preguiçosos soldados do navio em uma cena deveras divertida.

O Castelo No Céu - Cena 8

Definidos os papéis de cada personagem dentro da trama após a tradicional reviravolta do diretor que procura quebrar esteriótipos ligados à aparência, o castelo no céu, Laputa, é finalmente encontrado e inicia-se uma batalha atroz para decidir o seu destino. Tiros, mortes, explosões e sangue nos fazem esquecer um pouco que estamos assistindo um produto cujo público alvo geralmente são as crianças, mas é inegável que o produto final, com a mensagem de respeito à natureza e a valorização da vida e da amizade, prima pela busca da paz e dos bons sentimentos.

O Castelo No Céu - Cena 10

O Castelo no Céu é, dentre os que até agora eu tive a oportunidade de ver, o trabalho mais dinâmico e versátil do Miyazaki. Colorido e sombrio, violento e emocionante, o longa coloca crianças e velhos ao lado de militares e robôs gigantes em uma aventura para encontrar um castelo lendário no céu. Sobram motivos para ver, faltam-me novos elogios para o diretor e seu Estúdio Ghibli. Por favor, não me entendam mal, mas acho que todos devem, em algum ponto da vida, conhecer Laputa :P

O Castelo No Céu - Cena 11

Obs.: Fiquei tão impressionado com a beleza de algumas cenas do O Castelo no Céu que resolvi tirar alguns prints para usar como papel de parede. No final, notei que havia reunido imagens suficientes para ilustrar a resenha sem necessidade de recorrer a minha tradicional pesquisa no Google. Seguem mais algumas cenas maravilhosas e uma pergunta: o post fica bacana nesse formato, com imagens escolhidas e “printadas” por esse que vos fala?

O Castelo No Céu - Cena 3

O Castelo No Céu - Cena 5

O Castelo No Céu - Cena 6

O Castelo No Céu - Cena 9

O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua (2013)

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O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda ContinuaE não é que, finalmente, o Cinemais da grandiosíssima Uberlândia começou a vender ingressos para cadeiras numeradas? Só não dou os parabéns porque, além de já ter perdido várias horas da minha vida nas filas desorganizadas da empresa, não acredito que a decisão vise a comodidade do cliente (já que, se eles tivessem essa preocupação, a mudança já teria ocorrido há muito tempo), mas sim o nivelamento do serviço com o que é oferecido pelo recém inaugurado Cinemark. Não fosse a concorrência, continuaríamos vítimas da falta de profissionalismo da rede, que durante anos monopolizou o circuito comercial da cidade com suas salas sujas e falta de organização.

Eu não ia sair de casa na segunda-feira e, quando saí, não planejei ir ao cinema. Grande foi a minha surpresa quando, circulando pelo shopping local, notei que O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua estava em cartaz. Estou explorando a franquia do Leatherface e recentemente assisti o Parte 2, até onde eu me lembre, um dos piores filmes de terror que já vi, mas nem por isso eu perderia a oportunidade de apreciar um longa da série na tela grande.

Acomodado na minha cadeira numerada, notei satisfeito que o diretor John Luessenhop e sua equipe optaram por ignorar o segundo filme e continuar a história exatamente do ponto onde ela parara depois do O Massacre da Serra Elétrica original. Após a exibição de uma espécie de resumo do que acontece no filme de 1974, ficamos sabendo que a mocinha que conseguiu escapar das garras de Leatherface denunciou os a família de canibais para a polícia. Um xerife é designado para ir até o local prender os criminosos mas depara-se com uma massa de cidadãos revoltados que atiram contra a casa para em seguida colocarem fogo na mesma. Tirando um bebê que é salvo da fúria da população, todos os membros da família Sawyer presentes são aniquilados. Anos depois, a peituda gracinha Heather Miller (Alexandra Daddario) recebe uma carta comunicando o falecimento de uma avó distante e o direito a uma herança. A moça reúne um grupo de amigos e vai até o local combinado, uma mansão na zona rural de uma pequena cidade que esconde um terrível segredo no porão.

Alexandra Daddario: ela usa maquiagem carregada para trabalhar em um açougue <3

Alexandra Daddario: ela usa maquiagem carregada para trabalhar em um açougue <3

A Lenda Continua é ruim, muito ruim. Não ruim como o Parte 2, onde o diretor Tobe Hooper perdeu-se dentro do universo que ele mesmo criou e produziu algo bizarro, mas ruim pela mediocridade que impera durante toda a projeção de um filme que apoia-se mais na fama da série do que na qualidade do que é oferecido para levar o público ao cinema e que ainda propõe uma interpretação inaceitável para um dos maiores vilões da história de filmes de terror já criados.

Luessenhop aposta inicialmente no óbvio para repaginar a história do Leatherface: jovens bonitos, sarados e detestáveis bebendo, usando drogas e transando em uma casa no meio do nada. Eu já vi isso, você já viu isso e nós não vamos reclamar da repetição porque a crítica afetaria 95% dos filmes de terror, ok? Tendo optado por uma continuação e não por um remake, o diretor começa a irritar o espectador que conhece os originais quando constrói sua narrativa usando exatamente os mesmos truques visuais e elementos de suspense utilizados por Hooper: o primeiro personagem a bater as botas é assassinado após ficar sozinho na casa, Leatherface surge do nada em uma cena que não utiliza efeitos sonoros para aumentar o impacto, o segundo personagem morre após ir procurar pelo amigo e é pendurado em um gancho… As semelhanças são muitas e os clichês acumulam-se, como o carro que, sabe-se lá porque, não dá partida quando os personagens precisam fugir e, claro, os sustos bobos que quebram o clima nos momentos de tensão e fazem aquela menina escandalosa sentada atrás de você gritar e rir, nessa ordem, como se ela fosse a única pessoa dentro do cinema.

UNI DUNI TÊ

UNI DUNI TÊ

Sobre sustos bobos, cabe ainda mais uma crítica ao trabalho do diretor. Em um determinado momento, um policial entra na casa para procurar pelo assassino. Sozinho mas falando com o chefe pelo telefone, o personagem inicia uma vídeo chamada para que o outro possa ver o que ele está vendo no local. Está tudo escuro, há um rastro de sangue no chão e o espectador sabe que, mais cedo ou mais tarde, algo irá acontecer. É uma ótima cena, a música está baixa, a tensão aumenta e quase dá para ouvir o coração do metido a valentão bater quando… música alta e a câmera foca em um… rato. Bem, já tem um bom tempo que eu não abandono um filme na metade, por mais ruim ou difícil de assistir que ele seja eu sempre vou até o final e foi só por essa política pessoal que eu continuei sentado após o acontecido. Fora a abertura (que, por sinal, é feita com cenas de outro filme), nada até ali havia me agradado e a única cena que apresentou algum potencial foi estragada por Luessenhop em nome de um sustinho infantil e manjado que já foi repetido em outros milhares de filmes do gênero.

O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda Continua - Cena 4

**SPOILERS**O pior, no entanto, estava guardado para o final. É normal torcer para os vilões em filmes de terror, geralmente os personagens são tão ridículos e fúteis que não causa grande comoção vê-los estraçalhados em grandes poças de sangue. O problema é que o roteiro opta por redimir o Leatherface com o argumento de que ele é um ser atormentado com a mentalidade de uma criança de 8 anos. Tadinho. Transformado em um animalzinho de estimação pela prima, o vilão lendário que assassinou várias pessoas com sua motosserra termina o filme tal qual um cachorrinho, trancado em um lugar esperando para receber comida e carinho de vez em quando. Vergonhoso e inadmissível. **FIM DOS SPOILERS**

Vale lembrar ainda que, apesar de ter recebido o nome de O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua, o 3D é praticamente inexistente e, quando aparece, resume-se a objetos sendo arremessados contra a tela. As únicas recomendações possíveis para A Lenda Continua são para os fãs hardcore da série e para quem quiser encontrar novos padrões de comparação para filmes ruins.

O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda Continua - Cena 2

Viva Zapata! (1952)

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Viva Zapata!Zapata era o apelido de um colega dos tempos de faculdade, um sujeito que estava sempre de cavanhaque, tocava violão e usava uma boina. Sempre achei ele mais parecido com o Guevara, nunca entendi o apelido. Emiliano Zapata, o personagem histórico, foi um dos líderes da Revolução Mexicana, um homem que fez frente à ditadura do presidente Porfírio Díaz e que lutou pelo fim dos latifúndios e pelos direitos dos indígenas. Viva Zapata!, produção de 1952 dirigido pelo Elia Kazan, é o filme que conta essa história (a do personagem histórico, AINDA não há material sobre as aventuras do colega citado).

Abrindo mão de narrar uma história tradicional enaltecendo os feitos memoráveis do herói mexicano, Elia Kazan, auxiliado pelo roteiro soberbo do John Steinbeck, opta por resgatar o homem comum sobre o qual o mito foi constrúido. Zapata (Marlon Brando) não furtava-se de levantar sua voz para denunciar as injustiças cometidas pelos fazendeiros contra os índios mesmo quando isso claramente significava colocar sua vida em risco. Classificado pelo governo como um agitador social e procurado como inimigo do Estado, Zapata esconde-se e organiza um grupo armado para depor a ditadura que oprimia os trabalhadores. O tempo traz a simpatia popular, alianças e inimigos para o guerrilheiro, o qual conta com a ajuda do irmão, Eufemio (Anthony Quinn), para vencer algumas batalhas e acaba perdendo outras tantas devido a impulsividade e a falta de alfabetização que o fazem confiar nas pessoas erradas.

Quinn e Brando

Quinn e Brando

Me corrijam se eu estiver errado, mas acho que é no Cavaleiro das Trevas que há um diálogo sobre heróis que vivem tempo suficiente para transformarem-se em vilões. Kazan, que viveu dilema parecido ao passar do status de um dos diretores mais respeitados de seu tempo para o de traidor, trabalha cuidadosamente essa transição antes de entregar para o público o herói que a história consagrou. Brando, que surge no filme irreconhecível com um bigodinho tosco e com roupas que não permitem que o público, em um primeiro momento, o diferencie dos outros atores, vai aos poucos demonstrando que o personagem não era apenas mais um dentre todos os nativos ignorados por Díaz. Apesar de não saber ler nem escrever, Zapata possui um discurso afiado e desafia a política a longo prazo que o presidente sugere para resolver a questão agrária. “Quem tem fome, tem pressa”, dispara o personagem, que pela afronta tem seu nome incluído em uma lista. Tempos depois, quando a Revolução já alcançou a maioria dos resultados desejados e Zapata encontra-se no poder, o personagem é confrontado por um grupo de cidadãos e, ao ser questionado sobre a distribuição das terras, dá uma resposta evasiva, vaga. Diante da reação agressiva do camponês, Zapata pergunta-lhe o nome para incluí-lo em uma lista de inimigos e o círculo fecha: a trama volta ao início mas há uma inversão de poderes e valores, o personagem olha no espelho e percebe que tornou-se justamente aquilo que um dia ele combatera.

Viva Zapata! - Cena 4

Kazan, que ficou conhecido sobretudo pelo excelente trabalho na condução de atores, utiliza o texto de Steinbeck e o talento de seus dois principais astros para mostrar sistematicamente que ninguém, nem mesmo os heróis imortalizados pela história, estão livres da chance de cometerem erros. Brando, como Zapata, apresenta o revés citado no parágrafo anterior antes de voltar as origens que motivaram a luta do personagem. Os atos de coragem de Zapata constrastam significativamente com seus momentos de instrospecção e vergonha diante da mulher amada e do analfabetismo, palmas para o talento do ator, que vai da cólera à timidez em uma mesma cena com uma naturalidade poucas vezes vista. O Eufemio de Quinn, fiel e honrado escudeiro do irmão, também sucumbe as mazelas do tempo e acaba atacando aqueles que jurara proteger. Mesmo com menos tempo na tela, o ator conseguiu imprimir paixão e contradições suficientes em seu personagem para ser coroado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 1953.

Viva Zapata! - Cena 2

Fora o desenvolvimento de personagens, trunfo absoluto e inquestionável de Viva Zapata!, Kazan ainda oferece ao espectador cenas maravilhosas e variadas quanto ao gênero. O drama das discussões políticas, que impera na maior parte do tempo e que pode ser visto nos momentos já citados e também no final emblemático, divide a tela com cenas de ação muitíssimo bem coreogradas (o ataque com os dinamites e a prisão de Zapata são ótimos exemplos) e até mesmo com cenas de humor. Brando, provando mais uma vez sua versatilidade, participa de uma sequência engraçadíssima envolvendo ditados populares e juras de amor na ocasião em que vai pedir a amada em casamento.

Com Viva Zapata!, Kazan desdenha da idéia de perfeição e nos lembra que todo mundo está sujeito a cometer erros, até mesmo os nossos heróis. Indo mais além, o diretor diz claramente que cada um é responsável por si e que ninguém deve assumir o dever de carregar o mundo nas costas. Mais do que um homem, Zapata era uma idéia que qualquer um podia adotar em condições semelhantes, o não-conformismo que vai além do discurso e que encara as consequências do enfrentamento e das contradições internas.

Obs.: A música que toca durante a escolta do Zapata é MUITO parecida com a que é executada durante a cena do caixão do Kill Bill 2. Tarantino safadinho :P

Viva Zapata! - Cena 3

Caça aos Gângsters (2013)

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Caça aos GângstersEste texto contêm SPOILERS.

Se não me engano, tive duas oportunidades de assistir Caça aos Gângsters no cinema e deixei passar para ver outros filmes. Não faltaram atrativos: li comentários empolgados feitos por alguns amigos no Facebook e o elenco era magnífico. O problema foi o pé atrás, a desconfiança e a incômoda sensação de déjà vu provocada pelo pôster e pelo trailer. Mas deixemos o sentido aranha de lado e passemos a leitura de duas pequenas sinopses, as quais posto em inglês por preguiça e por confiar no alto gabarito dos leitores do blog:

  1. Los Antgeles, 1949: A secret crew of police officers led by two determined sergeans work together in an effort to take down the ruthless mob king *** who runs the city.
  2. Federal Agent *** sets out to stop ***; because of rampant corruption, he assembles a small, hand-picked team.

Substituindo os astericos do primeiro texto pelo nome do personagem do Sean Penn, colocados ali para reforçar as semelhanças entre os roteiros, temos o resumo de Caça aos Gângsters. Já o segundo trata-se da sinopse do Os Intocáveis, filme de 1987 dirigido pelo Brian De Palma, estrelado por Kevin Costner, Sean Connery, Andy Garcia e Robert De Niro, um clássico dentro do gênero que Ruben Fleischer (Zumbilândia), em 2013 e adaptando um romance do escritor Paul Lieberman, tomou emprestado (para usarmos um eufemismo) na hora de moldar sua aventura de gângsters.

Caça aos Gângsters - Cena

Recentemente, tive duas experiências distintas com filmes que usam elementos de outros longas. A primeira, sofrível, foi com o Oblivion. A outra, recente e que também envolve o mundo do crime, foi com o Os Infratores. O resumo das resenhas é que não importa quanto um filme seja parecido com outro desde que ele não prenda-se somente a emulação. Nada se cria, tudo se copia, mas reorganizar as peças e acrescentar uma ou outra delas ao longo do processo é fundamental para que um filme não seja lembrado apenas por reaproveitar material de outras produções. Caça aos Gângsters, na minha opinião, tem pouquíssimas cenas que se destacam por algum motivo que não seja a semelhança com outros longas, o que é uma pena, porque o que se vê no início é deveras empolgante.

Fleischer, que no Zumbilândia já demonstrara sua simpatia por cenas em câmera lenta, inicia o filme compondo o mito sobre Mickey Cohen. O bombadão Sean Penn pode ser visto, de vários ângulos diferentes, esmurrando um saco de treinamento de boxe. As lentes do diretor captam detalhes impressionantes, como a movimentação dos músculos do braço do ator durante os socos e as gotas de suor que escorrem em seu rosto. Josh Brolin nos conta como Cohen deixou a carreira de boxeador para tornar-se um dos gângsters mais temidos do país e como ele, um policial honesto, planejava pará-lo. Visualmente, é um dos momentos mais bonitos do filme, o Penn está assustadoramente ameaçador e o discurso intimidante nos faz indagar o que o vilão seria capaz de fazer para manter-se no topo.

A melhor cena do filme

A melhor cena do filme

Pois bem, na sequência vemos o vilão agindo. Partir um cidadão ao meio com a ajuda de dois carros não é exatamente algo sútil, mas foi ali que a minha decepção começou. O homem que Brolin descrevera como “um judeu que conseguiu o respeito dos italianos por causa de sua fúria homicida” está lá, de terno e chapéu dando ordens. A minha esperança de ver algo mais físico, uma linha de ação mais Luca Brasi, menos Don Corleone, não vingou. Cohen é um figurão que pagava aulas de etiqueta e dava ordens, não o assassino enfurecido vendido na abertura.

Do lado dos heróis, temos o Josh Brolin interpretando exatamente o mesmo papel que o Kevin Costner viveu no Os Intocáveis. Cansado de ver suas ações contra o crime esbarrarem na corrupção e no medo promovidos por Cohen, o Sargento John O’Mara recorre ao Chefe Parker (o veterano Nick Nolte) para conseguir formar um grupo secreto de policiais que estaria autorizado a dispensar a burocracia imposta pela lei na missão de esmagar os gângsters. A convocação dos “especialistas”, com pequenas cenas apresentando cada um deles e suas habilidades, é um dos maiores lugares comuns do gênero, um clichê que Fleischer não faz questão de evitar ou reelaborar e que ainda nos leva a reciclagem de outro clássico. Em uma cena completamente desnecessária e artificial, os personagens vão para um local praticar tiro ao alvo. Isso mesmo, com tudo que eles poderiam fazer e planejar, decidem por praticar tiro ao alvo. Fazendo uso de sua lendária habilidade com o revólver, o Oficial Max Kennard (Robert Patrick) joga uma lata para o ar e acerta-a com vários tiros antes que ela caia no chão. A cena é divertida, mas é uma pena que ela seja TÃO parecida com um dos melhores momentos do Por uns Dólares a Mais do Leone.

Gosling e Stone

Gosling e Stone

Os clichê de filmes noir seguem com o casal formado por Ryan Gosling e Emma Stone, ele um policial indiferente que junta-se a missão após ver uma criança inocente (tadinha!) ser assassinada e ela o troféu que Cohen ostenta socialmente, uma mulher que sofre por ter-se transformado em um objeto e que arrisca a vida em nome do verdadeiro amor. Seguindo a cartilha, Fleischer ainda mata um personagem bonzinho do grupo e então nos leva para o confronto final, um tiroteio que acontece em uma escadaria. Bem, não sei se o leitor realmente viu Os Intocáveis, então cabe dizer aqui que o tiroteio na escadaria é exatamente a cena mais famosa do filme, a primeira imagem que vem na cabeça quando pensamos no filme do De Palma.

Não duvido que Fleischer seja fã dos filmes que ele utiliza como referência e que, com Caça aos Gângsters, ele tenha tencionado homenageá-los. O resultado final, no entanto, soa oportunista demais e mais cansa, pela repetição, do que impressiona pelas “citações” que faz. Não há nada, nada mesmo que foi feito aqui que já não tenha sido feito antes e o desenvolvimento do personagem do Sean Penn é broxante.

Ladra, ladra, mas...

Ladra, ladra, mas…

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

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A Noite dos Mortos-VivosDo penúltimo, achei por bem ir direto ao primeiro: comecei a explorar a filmografia do Romero com o Dário dos Mortos mas senti que o certo seria fazê-lo obedecendo a ordem cronológica, o que, entre outras coisas, me permitiria reconhecer as auto-referências e observar a evolução do trabalho diretor.

Com custos de produção declarados na ordem $114.000 e tendo rendido cerca de 100 vezes esse valor nas bilheterias, A Noite dos Mortos-Vivos tornou-se um dos filmes independentes mais rentáveis da história. No final da década de 60, com os órgãos de censura do cinema americano perdendo cada vez mais força, Romero escreveu e dirigiu um filme sombrio que trazia uma trama onde, ao contrário dos muitos filmes de terror da época, não parecia havar a preocupação em oferecer ao público um final feliz. O conflito racial e o medo da falência social que poderia ocorrer caso estourasse uma guerra nuclear foram usados pelo diretor como pontos de conflito dentro do roteiro, que deslocou a fonte do medo do campo sobrenatural para temas que eram discutidos diariamente pelos cidadãos, frescor que gerou o interesse do espectador e fez do filme uma espécie de divisor de águas dentro do gênero.

Após dirigir por um longo e sinuoso caminho através de estradas rurais, um casal de irmãos chega até o destino, um cemitério calmo (rs) e isolado. Uma visita em tom de obrigação é feita ao túmulo paterno, rosas e enfeites são deixados no local e, enquanto tenta assustar a irmã com histórias de fantasmas, o irmão é… atacado por um morto-vivo! Assim, sem mais nem menos, bem diante de seus incrédulos e assustados olhos, querido leitor. A tal irmã, que atende pelo nome de Barbra (Judith O’Drea), corre então desesperada através do campo, desviando de arbustos e de outros mortos-vivos, até encontrar uma casa abandonada que ela usa para esconder-se. Barbra, que entra em estado de choque, é auxiliada por Ben (Duane Jones), um negro que também chega até o local fugindo e que assume a responsabilidade de fortificar e defender a casa. Aos poucos, notícias sobre o levantar dos mortos começam a chegar pelo rádio e o governo orienta as pessoas a procurarem os postos de defesa por ele organizados, o que coloca Ben na situação delicada de precisar decidir entre ficar na casa ou arriscar-se a sair dela e enfrentar os mortos para chegar até o exército.

A Noite dos Mortos-Vivos - Cena 3

Quando chega no cemitério, o irmão de Barbra reclama que o mesmo ficava muito longe, que seria interessante mover os ossos do pai para um local mais próximo da casa deles. Não é engraçado que, em seguida, a situação inverta-se e ele seja assassinado justamente por um morto que aproxima-se e “vai até ele”? O roteiro de A Noite dos Mortos-Vivos traz ainda, além dessas e outras ironias (também acho engraçado que os humanos queiram tanto sair da casa enquanto tudo que os mortos querem é entrar rs), as mudanças de esteriótipos raciais que começavam a acontecer no cinema americano naquela época estimuladas pelas lutas do Martin Luther King e pelo reconhecimento do talento de atores como o Sidney Poitier. Ben, o único negro do filme, é também o personagem mais inteligente, calmo e preparado para lidar com aquela situação. Protagonizando o longa com suas enérgicas lições de moral, sua bravura e liderança, o personagem faz algo que seria impensável para um negro 10 anos antes, aplica um estrondoso tapa na cara de Barbra para chamá-la de volta a razão, cena, aliás, que evoca uma passagem parecida envolvendo o próprio Poitier no No Calor da Noite, longa de 1967 que ganharia o Oscar de Melhor Filme naquele ano.

A Noite dos Mortos-Vivos - Cena 2

Estranhamente, em nenhum momento do filme os mortos-vivos são chamados como tal, muito menos como zumbis. Nomeados pelos personagens como “aquelas coisas”, os mesmo ainda não tinham várias das característas que os tornariam conhecidos anos depois e ainda apresentam comportamentos que não lhes parecem naturais, como o medo do fogo. Nota-se também que, ao contrário do que virou uma constante no gênero de filmes de zumbis, aqui há uma tentativa de explicar a origem do problema, que é associada, apesar de em momento algum confirmada, a radiação trazida por um satélite que retornara de Vênus. Zumbis alienígenas!

O baixo orçamento de A Noite dos Mortos-Vivos pode ser percebido principalmente na maquiagem dos mortos, já que a maioria esmagadora deles, principalmente no início, não diferem-se em quase nada de um humano normal. O ser que ataca o irmão de Barbra no cemitério é um belo exemplo, a gente acaba demorando um pouco para perceber que ele é o que é. Optando por filmar em preto e branco, Romero supera esse e outros problemas do filme com o uso inteligente do jogo de luz e sombras e da construção de cenas memoráveis. Na casa há um porão, e no porão acontece um assassinato. Com uma colher de pedreiro. Acabei de rever a cena e, mesmo sabendo que usaram chocolate para simular o sangue, não dá para deixar de sentir um frio na barriga, vê-se o terror absoluto nos olhos da assassinada e o demônio nos da assassina. Não posso deixar também de comentar o “churrasco” que os zumbis apreciam em um determinado momento, um misto de humor negro e canibalismo que mexe com o estômago.

A Noite dos Mortos-Vivos - Cena

O melhor de A Noite dos Mortos-Vivos, porém, está reservado para o final. Há quem odeie conclusões desoladoras como aquela que pode ser vista no O Nevoeiro, mas eu as adoro tanto pela coragem de fazer algo diferente quanto porque, na vida, nem sempre tudo termina bem. À triste cena seguem-se os créditos finais, feitos com fotos do que aconteceu após o ataque dos mortos, e o filme termina sem oferecer nenhum tipo de esperança ao espectador, perspectiva sombria que daria o tom da maioria dos longas que seriam produzidos em território americano na década seguinte. A Noite dos Mortos-Vivos, apesar de naturalmente datado em alguns aspectos, ainda é um excelente filme tanto para inteirar-se da história do cinema quanto para divertir-se com mortes e sustos conduzidas por aquele que viria ser um dos mestres gênero.

A Noite dos Mortos-Vivos - Cena 4

Somos Tão Jovens (2013)

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Somos Tão JovensSomos Tão Jovens garantiu seu sucesso comercial desde o dia que foi anunciado. As melodias do Legião Urbana, impulsionadas pelas letras do Renato Russo, transcenderam as barreiras do gênero musical e foram incluídas na trilha sonora de um número inimaginável de brasileiros. Fazer um longa metragem sobre a banda, principalmente em um momento onde o público tem se mostrado bastante receptivo aos filmes nacionais, foi uma jogada esperta, um investimento cujo retorno financeiro dificilmente dependeria da qualidade do produto oferecido.

O filme é conduzido pelo diretor Antonio Carlos da Fontoura, que, entre um e outro projeto obscuro, foi o responsável por duas novelas da Record, Vidas Opostas e Amor e Intrigas. Julguem isso como vocês bem entenderem. O roteiro, que é assinado por Victor Atherino (que também colaborou com o vindouro Faroeste Caboclo) e por Marcos Bernstein (famoso por seu trabalho em Central do Brasil), opta por um recorte temporal que mostra a trajetória de Renato Russo desde a adolescência até o primeiro grande show do Legião Urbana no Circo Voador. Eu opto por falar primeiro das poucas qualidades e depois dos muitos e decepcionates problemas do filme.

Nada, para esse que vos fala, é mais associável aos cursos de humanas do que a música Será. Além de conter um sentimento de revolta, dúvida e desespero típicos dos discursos universitários, a canção foi tocada por 8 em cada 10 pessoas que pegaram um violão durante as muitas e nostálgicas rodinhas e festas que participei durante a faculdade. Essa acabou sendo a minha música favorita da banda, um hino que cantei várias vezes e que me lembra de um dos períodos mais bacanas da minha vida. Também tenho boas recordações com a Tempo Perdido e a Faroeste Caboclo, música, aliás, que eu sempre uso para fazer piada sobre grandes espaços de tempo e que todo mundo parece ter um orgulho enorme de saber cantar inteira. Mesmo não ouvindo regularmente o som dos caras nem associando instantaneamente o substantivo “poeta” para adjetivar o Renato Russo toda vez que alguém cita a banda, tenho, portanto, a minha história com as canções deles e fiquei deveras emocionado quando os créditos iniciais, inspiradíssimos, diga-se de passagem, começaram a rolar com a melodia orquestrada da Tempo Perdido. Sabe aquele orgulho de alguém que vê algo que lhe é caro alcançado um novo patamar? Foi mais ou menos por aí.

Somos Tão Jovens - Cena 4

Quando o filme começa, duas coisas impressionam: a reconstrução de época e a caracterização do ator Thiago Mendonça. Thiago, que já vivera com grande semelhança o sertanejo Luciano no filme Dois Filhos de Francisco, está MUITO parecido com o Renato Russo, emulando não apenas o jeito de falar quanto a linguagem corporal espalhafatosa do cantor. A Brasília captada pelas lentes do Fontoura aparece na tela tal qual pode ser visto em fotos da cidade das décadas de 70/80, com roupas típicas da época, a presença dos militares, um sol escaldante, botecos copo-sujo e até mesmo um carro-relíquia da Kibon circulando pelas ruas.

O que há de melhor aqui, no entanto, é a forma como o personagem principal é construído e apresentado para o público. Renato, que logo no início sofre um acidente de bicicleta e passa por uma cirurgia, é obrigado a ficar vários dias deitado em casa repousando. Lendo e ouvindo músicas para passar o tempo, ele adquire muito do conhecimento e dos sentimentos que futuramente poderiam ser vistos em suas composições. À recuperação segue-se o interesse pelo punk, a formação da banda Aborto Elétrico, o desenvolvimento da personalidade forte, brigas com a família e com os amigos, o assumimento da homossexualidade e, finalmente, os primeiros passos do Legião. Como é comum nas cinebiografias, Renato tem algumas de suas fraquezas expostas, como a insegurança nos relacionamentos e a arrogância intelectual, que não raras vezes podiam ser notadas em seus discursos afiados. Gostei sobremaneira de mostrarem que a amada linguagem poética dele nascia principalmente de situações cotidianas e do desespero fruto do tédio que ele sentia por considerar-se socialmente e intelectualmente isolado. Com uma caneta na mão, o chato, pedante, arrogante e idiota que tu tanto odeia pode dar forma a letras e canções que embalarão sua vida.  Pense nisso.

Somos Tão Jovens - Cena

Os elogios cessam e tornam-se impossíveis quando olhamos para outros aspectos do roteiro, como os diálogos e a consistência da trama como um todo. Somos Tão Jovens mostra não somente como foi formado o Legião Urbana, mas também como surgiram as idéias para algumas de suas canções mais conhecidas. Quando Renato, revoltado com a política, levanta de uma mesa de bar e grita “Que país é esse?”, o espectador sorri internamente por reconhecer a referência que o filme faz, sentindo-se feliz por entender o que está acontecendo. Aí repetem o recurso várias vezes, transformando algo que inicialmente fora legal em momentos artificiais que denunciam a mão do roteirista preocupado em agradar. A inventividade do cineasta ao usar imagens em sépia para envelhecer e ambientar certas cenas não estende-se ao posicionamento das câmeras e enquadramentos. Que eu me lembre, Somos Tão Jovens é o filme mais “tremido” que eu assisti. A câmera que passeia frenéticamente pelo cenário, técnica comum nos filmes de ação, é um dos grandes equívocos de Fontoura, que tenta imprimir um ritmo de videoclipe desnecessário e tosco durante as cenas onde Renato apresenta-se com suas bandas.

Somos Tão Jovens - Cena 3

Esses detalhes, que poderiam ser facilmente ignorados diante de um produto consistente, crescem em tamanho e importância devido a frustrante sequência final. Após Renato separar-se do Aborto Elétrico para seguir carreira solo, o filme abandona o desenvolvimento dos personagens para apresentar uma sequência de performances musicais que, apesar de apresentarem as primeiras execuções de grandes clássicos da banda, pouco ou nada acrescentam a trama. É então que, em um dos maiores anti-clímax da história do cinema nacional, o filme termina não com uma reflexão ou uma cena construída pelo talento dos roteiristas, mas sim com a exibição de imagens reais da banda tocando no Circo Voador. A reação geral, pelo menos do pessoal da sessão que eu assisti, foi algo do tipo “Ué, acabou?”.

O valor de Somos Tão Jovens está em algo que foi construído a priori por Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, que são as músicas e a trajetória de uma das maiores bandas da história do rock nacional. Fontoura, Atherino e Bernstein, ao meu ver, perderam a chance de fazer um dos filmes mais emocionantes e amados que esse país já viu e isso é algo que eu lamento profundamente.

Somos Tão Jovens - Cena 2

A Morte do Demônio (2013)

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A Morte do DemônioEu tenho uma história engraçada com o Evil Dead – A Morte do Demônio original. Se não me falha a memória, assisti ele em 2004, ano que eu entrei na faculdade e arrumei minha primeira namorada séria, dessas de levar em casa e apresentar para a família. Em um dos finais de semana que ela veio me visitar (ela morava em outra cidade), ficamos acordados até tarde para ver um filme e outras coisitas mais. Éramos virgens (quer dizer, eu certamente era rs) e a idéia machista patriarcal era assistir um filme de terror abraçadinho, protegendo e bulinando a donzela apavorada. Sinceramente, lembro pouco ou nada do filme, mas nunca esquecerei da cena do matinho estuprando uma personagem. Não que nós estivessemos realmente prestando atenção na TV, mas essa cena provocou uma reação nela do tipo “por quê você está me mostrando esse tipo de coisa?”, um boa noite e uma porta de quarto trancada. Menina humilde, de uma cidade pequena e de um tempo onde “quadradinhos de 8″ provocariam espanto, senão morte por decepção, até mesmo no próprio demônio. Uma pena…

“The most terrifying film you will ever experience”. No meu caso, não, meu último post, por exemplo, foi uma experiência mais aterrorizante, mas não criticarei a estratégia de marketing dos produtores, primeiro porque ela funciona, segundo porque, de fato, o diretor Fede Alvarez fez desse remake um dos lançamentos com mais “colhões” vistos ultimamente no circuito comercial.

A cabana. Qual? Não importa, elas são todas iguais...

A cabana. Qual? Não importa, elas são todas iguais…

Além da famigerada cena do estupro, minhas lembranças do filme original resumiam-se a imagem da cabana, do Bruce Campbell e de uma fita que revelava uma mensagem demoníaca quando reproduzida. Convenhamos, isso não me permite fazer nenhum tipo de comparação, portanto vi e opino sobre A Morte do Demônio sem associá-lo com o cultuado filme de 1981, ok?

Após um rápido prólogo onde uma moça é queimada viva pelo próprio pai, vemos cinco jovens reunindo-se em uma cabana abandonada no meio da floresta. Mia (Jane Levy) está tentando livrar-se do vício das drogas e pretende passar o fim de semana no local na companhia do irmão e de alguns amigos para não ceder à crise de abstinência. Incomodada com um odor que somente ela parece sentir, Mia leva os amigos até um porão onde vários corpos de animais estão pendurados. Ali eles encontram um livro velho e o princípio do fim.

Não sei até onde o primeiro Evil Dead, um clássico do gênero, ajudou a construir esse cenário que acabou transformando-se em um clichê. Jovens dentro de uma cabana no meio da floresta enfrentando algum perigo tornou-se um lugar comum dentro do cinema de terror e recentemente essa constatação até foi usada como tema do excelente O Segredo da Cabana. Como trata-se de um remake, não dava para fazer muita coisa a esse respeito e, por isso mesmo, a história manjada não chega a incomodar, mas vale o aviso de que não há absolutamente nada de novo nesse sentido aqui.

Coisa linda...

Coisa linda…

Há algumas coisas interessantes sobre os personagens. A história de loucura na família de Mia é útil para o roteiro e para o desenvolvimento da personalidade hesitante (e irritante) do irmão dela e há uma ambiguidade divertida no personagem que é um professor universitário. Cético, pessimista e representante esteriotipado da ciência, o rapaz acaba sendo o responsável pela liberação do coisa ruim e a trava uma espécie de embate metafórico com as forças demoníacas. Não é por acaso que ele é um dos que mais sofrem no processo. Vale ainda citar, como curiosidade boba, que as letras iniciais dos nomes do personagens formam a palavra DEMON (David, Eric, Mia, Olivia, Natalie).

Os diálogos são ruins e excessivamente explicativos, tal qual pode-se esperar de um filme trash. As blasfêmias típicas do gênero misturam-se a pérolas do tipo: “Ah, então você veio?/Claro que vim, eu sou seu irmão”. Excelente.

Mas deixemos esses detalhes de lado e vamos para o prato principal oferecido por Fede Alvarez, o terror, o medo, as cenas que fariam o espectador desejar nunca ter saído do útero da mãe, a tal experiência fílmica mais aterrorizante que nós já teríamos vivido. A Morte do Demônio não me assustou uma vez sequer. Infelizmente, o diretor abusou da técnica de aumentar o volume e cortar rápido para um objeto/personagem surpresa para orquestrar a maioria dos sustos que ele planejou. O clima também é constantemente quebrado por transições mal feitas. Há mais de um momento onde a tensão está em uma crescente interessante, tu, tenso,  começa a movimentar-se na poltrona e, de repente…. a cena corta para uma imagem exterior da cabana onde nada, NADA está acontecendo.

Let's put a smile on that face

Let’s put a smile on that face

A Morte do Demônio, portanto, tem diálogos ruins, personagens esteriotipados e cenas e cenários clichê. “Ué, mas tu não disse que o remake tem colhões?”. Sim, e é por isso que, apesar de tudo que foi falado até agora, eu ADOREI o que vi e recomendo que tu também o faça, preferencialmente no cinema. Alvarez não economiza na violência e no sangue, vê-se cabeças esmagadas, membros amputados, línguas partidas com estiletes, corpos fuzilados e todo tipo de perfuração, cortes e incineração em closes explícitos, os quais ficam ainda mais perturbadores devido ao pequeno número de cortes  (de cena) utilizados pelo diretor. Não me assustaram, mas a cena onde tentam furar o olho de um personagem com uma agulha e a sequência final, referência direta a famosa motosserra da franquia original, me fizeram contorcer na cadeira. Aliás, o final do filme é daqueles para tu assistir de pé, com os braços abertos gritando HELL YEAH! Logicamente, tu fará isso apenas em pensamento, visto que não é legal atrapalhar as outras pessoas e tu certamente não gostará de ser taxado como doido. Com censura 18 anos, A Morte do Demônio arrecadou o triplo do que gastou em um mês de exibição no território americano. Espero que esses números sirvam para os produtores perceberem que o público, de vez em quando, gosta de um bom banho de sangue ficcional.

Raining blood, from a lacerated sky, bleeding it's horror, creating my structure, now I shall reign in blood!

Raining blood, from a lacerated sky, bleeding it’s horror, creating my structure, now I shall reign in blood!