Se não assistiu, o leitor deve ao menos conhecer o Drácula de 1931 baseado no romance do Bram Stoker. A interpretação cavalheiresca do cult Bela Lugosi para o vampiro foi e é referência para grande parte daquilo que é produzido dentro do universo dos chupadores de sangue. Tendo tirado o sono de muita gente na época de seu lançamento, Drácula hoje está mais para um clássico do que para um filme de terror: assisti e gosto do filme, mas é inegável que ele não assusta mais ninguém (além de ter um final horrível). A situação muda um pouco quando trata-se do outro grande filme de vampiro da época, o alemão Nosferatu de 1922. Menos conhecido (eu, por exemplo, não assisti e só fui tomar ciência da existência dele ao folhear o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer), o filme dirigido pelo F. W. Murnau ainda hoje conserva sua aura de mistério e de terror devido a algumas lendas envolvendo o ator Max Schreck.
Apesar de ter participado de outros filmes depois de Nosferatu, há uma história que diz que a interpretação amedrontadora de Schreck para o vampiro deve-se ao fato de que ele era, na vida real, um vampiro de verdade! Por mais absurdo que isso possa parecer, basta olhar para a foto ao lado para perceber que não é preciso muito para confundir realidade e ficção, o sujeito realmente provoca calafrios. Praticante do método de interpretação Stanislavski, o ator imergiu de tal forma na alma do vampiro ao ponto de duvidarem de sua humanidade, o que, auxiliado pelo envelhecimento positivo do preto e branco da película (característica que, de modo geral, verifica-se no cinema alemão), contribuiu para que o filme de Murnau garantisse o seu espaço na história do gênero de terror e, hoje ainda, conitnue provocando alguns sustos e interesse.
A Sombra do Vampiro é uma prova da existência desse interesse. Partindo do ponto de vista que a lenda é verdadeira, o filme do diretor E. Elias Merhige acompanha o processo de filmagem de Nosferatu desde a pré-produção até o término de sua última e emblemática cena. Sem conseguir os direitos autorais sobre a obra de Bram Stoker, F. W Murnau (John Malkovich) decide mudar nome do persnagem e alguns detalhes da história para filmar o seu próprio filme de vampiro. Conde Drácula passa a ser Conde Orlok e o misterioso Max Schreck (Willem Dafoe) é escalado para interpretá-lo. A equipe viaja para as locações e à medida que as filmagens vão acontecendo fica claro para todos que não trata-se de apenas mais um filme qualquer: além do perfeccionismo e das loucuras de Murnau, Schreck assusta a todos com seu jeito bizarro e sua obsessão pela atriz Greta Schroder (Catherine McCormack). Ah, ele também come um morcego na frente de todo mundo.
Assim como acontece no Deuses e Monstros, filme sobre o diretor James Whale que contempla a produção do Frankenstein, A Sombra do Vampiro certamente fica mais interessante para quem conhece o clássico no qual ele é baseado (no caso o Nosferatu). Toda via, atesto que aqui também funciona o efeito inverso, ou seja, A Sombra do Vampiro, devido as suas qualidades, é capaz de despertar o interesse pelo filme original e levar o espectador à assistir um filme que dificilmente ele conheceria de outra forma. Além da magnífica caracterização e interpretadção do Dafoe para Max Schreck, o filme ainda oferece os gritos histéricos e paranóias do Malkovick e, claro, o mistério sobre a lenda que aborda. Por mais que Max de todos os sinais de sua natureza, tanto o espectador quanto os personagens recusam-se a acreditar que o ator seja a encarnação do mito de Bram Stoker. À medida que o tempo passa e Max começa a morder alguns pescoços, uma terrível verdade vai tomando forma e culmina em um final insano e brutal, uma confirmação da lenda que não possui sustentação real mas que faz justiça e amplia o legado da obra original. Recomendo para fãs de filmes de terror e da história do cinema.


































